Rede de responsabilidade socioambiental: uma metodologia para análise no setor de celulose e papel

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  The aim of this paper was to propose the utilization of a network analysis as a methodology to discuss the Social-Environmental Responsibility on forest based companies focused on the articulation among industry, governmental agencies and the
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  355 Rede de responsabilidade socioambiental   …R. Árvore, Viçosa-MG, v.34, n.2, p.355-365, 2010 REDE DE RESPONSABILIDADE SOCIOAMBIENTAL: UMA METODOLOGIAPARA ANÁLISE NO SETOR DE CELULOSE E PAPEL 1 Regiane Borsato 2 , Samira Kauchakje 3  e Roberto Rochadelli 4 Resumo –    O objetivo deste trabalho foi propor a utilização da análise de redes sociais (ARS) direcionada aosarranjos institucionais, possibilitando a pesquisa empírica da responsabilidade socioambiental no setor florestal.Foi realizado um estudo de caso, no qual se construiu graficamente uma rede a partir da identificação de todasas organizações atuantes em projetos ambientais através de parcerias com empresas do setor. A base de dadosempregada foi o Relatório de Responsabilidade Socioambiental da Associação Brasileira de Celulose e Papel(BRACELPA, 2006). Os dados, processados pelo software UCINET, permitiram visualizar interações entreo setor privado, o setor público e o terceiro setor. A partir dessa base de dados foi possível detectar cincosubgrupos de atuação socioambiental formados pelas empresas do setor florestal e suas parceiras, além da existênciade diferenças quantitativas e qualitativas entre os arranjos institucionais de cada subgrupo. Esses arranjos podemser explorados inserindo em futuras análises outros atributos aos atores sociais pertencentes à rede. A metodologia permite a obtenção de dados estratégicos, sendo a Bracelpa possível articuladora e potencializadora da atuaçãosocioambiental das empresas através do fortalecimento dos laços relacionais entre os subgrupos. Este trabalhoabordou o conceito de redes sociais e de análise de redes para as Ciências Florestais. Em especial, os resultadosapontaram caminhos para novas pesquisas sobre cultura gerencial, multiplicação de informações, dinamizaçãodas ações, sinergia com parceiros e potencial de incorporação da metodologia pelas próprias organizaçõesdo setor.Palavras-chave: Gestão, Análise de redes, Responsabilidade social e política florestal. SOCIAL-ENVIRONMENTAL RESPONSIBILITY NETWORK: METHODOLOGY  FOR THE ANALYSIS ON THE CELLULOSE AND PAPER SECTOR The aim of this paper was to propose the utilization of a network analysis as a methodology to discuss theSocial-Environmental Responsibility on forest based companies focused on the articulation among industry,governmental agencies and the outsourced sector. A case study was conducted identifying all the social participantsinvolved in the environmental projects published in the Social-Environmental Responsibility Report of BrazilianPulp and Paper Association (Bracelpa, 2006). Data was analyzed with UCINET software and allowed visualizeinteractions among private companies, public sector and the outsourced sector. Five subgroups were detected  formed by the companies and their partners. There are quantitative and qualitative differences among subgrouparrangements. These arrangements can be explored inserting new attributes to the actors. The methodologyallows for the obtaining strategic information for strengthening actions. Bracelpa can fortify these relationsbetween subgroups. This paper brings the social net concept to forestry science. Specially, the results indicatethe possibilities of new research involving culture management, informational multiplication, shares dynamics, partnerships and forestry companies using the methodology.Keywords: Management, Network analysis, Social responsibility and forest policy. 1  Recebido em 30.06.2008 e aceito para publicação em 14.10.2009. 2  Programa de Pós-Graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento da Universidade Federal do Paraná, UFPR, Brasil.E-mail: <rbregiane@uol.com.br>. 3  Pontifícia Universidade Católica do Paraná, PUC-PR, Brasil. 4 Universidade Federal do Paraná, UFPR, Brasil.  356 BORSATO, R. et al.R. Árvore, Viçosa-MG, v.34, n.2, p.355-365, 2010 1. INTRODUÇÃO Para o setor florestal brasileiro, a temáticasocioambiental é de especial relevância. Para Oliveira(2003), apesar do consenso no campo da Ciência Florestalquanto aos benefícios sociais e econômicos que o setor tem proporcionado, impactos ambientais e sociaisnegativos também ocorreram. Gomes (2005) citou queo modelo econômico adotado pelo setor florestal temsido alvo de críticas de grupos sociais organizados,movimentos sociais ou até mesmo instituições públicas,que percebem nele fonte causadora de exclusão econômicae social e de inúmeros conflitos sociopolíticos.Segundo Gomes et al. (2006), algumas empresasestão sujeitas a crescentes pressões em termos deexigências ambientais e sociais. Assim, segundo essesautores, um de seus desafios é atingir o equilíbrio entreas diferentes demandas, muitas vezes conflitantes, detodas as partes interessadas e relacionadas com suasatividades industriais e florestais. Nardelli e Griffith(2003a) ressaltaram que o campo organizacional dosetor florestal brasileiro é pluralístico, em que os membrosseguem diferentes ideologias, valores e modelos. Pode-se pensar que os grandes desafios enfrentados pelaatividade florestal estão associados também a essa pluralidade. Oliveira (2007) discutiu amplamente essesdesafios, trazendo os problemas e as demandas sociais presentes na silvicultura brasileira, propondo o diálogoentre comunidades e empresas florestais sob a mediaçãodo poder público.Existem várias definições e discussões sobre aresponsabilidade social empresarial (RSE) (BESSA, 2006;ASHLEY, 2005; MELO NETO e FROES, 2001; DUARTEe DIAS, 1986; OLIVEIRA, 2007) e certa divergênciaem relação aos elementos que estariam inseridos nesseconceito, os quais variam conforme os entendimentossobre a função da empresa. Apesar de a questão ser entendida de forma diversa entre diferentes grupossociais, o conceito de responsabilidade social vemevoluindo e se consolidando como categoria de análiseimportante para se discutir a sustentabilidade. SegundoMelo Neto e Froes (2001), os principais vetores daRSE são: apoio ao desenvolvimento da comunidadeonde atua; preservação do meio ambiente; investimentono bem-estar dos funcionários, seus dependentes eem um ambiente de trabalho agradável; comunicaçõestransparentes; retorno aos acionistas; e sinergia comos parceiros e satisfação dos clientes e, ou,consumidores.Para as empresas é importante conhecer, avaliar e adequar suas ações no campo social para que oreconhecimento das práticas responsáveis seja legitimado pela sociedade. Se a responsabilidade social empresarial pode também ser medida pelo nível de atuação da empresana comunidade e através da sinergia com os seus parceiros (MELO NETO e FROES, 2001), pode-se dizer que a atuação social de uma empresa ou setor podeser mensurada a partir da identificação de atores,construção e análise de sua rede social.Entre as diversas significações que a “rede”( network  ) vem adquirindo, Marteleto (2001) citou osistema de nodos e elos, uma estrutura sem fronteirasou uma comunidade não geográfica. Segundo Marteleto,a rede social deriva desse conceito e “passa a representar um conjunto de participantes autônomos, unindo ideiase recursos em torno de valores e interessescompartilhados”.A análise de redes sociais (ARS) é uma ferramentaque pode ser utilizada tanto no campo da pesquisateórica quanto na definições práticas de atuação pelasorganizações. Para as análises teóricas, mostra-se vastoo campo de estudo das várias formas de relação entreorganizações plurais, especialmente ao se consideraremos contextos do debate socioambiental. Para Kauchakjeet al. (2006), a força do instrumento conceitual emetodológico da rede está em perceber e possibilitar a análise de fenômenos heterogêneos, ou seja, quenão podem ser analisados como pertencentes a umúnico sistema.Alguns conceitos fundamentais para a análise deredes sociais são: ator – indivíduo ou organizaçãoanalisada, também denominada “nó”; laço — ligaçãoestabelecida entre os nós; díade — relação estabelecidaentre um par de atores; subgrupo — conjunto de atorese suas relações ou um conjunto de nós e laços; redesocial — conjunto finito de atores e as relações entreeles (ROSSONI et al., 2008).Assim, considerando o debate socioambientalemergente nas ciências florestais (GOMES et al., 2006;OLIVEIRA, 2007), este trabalho teve como objetivo propor a utilização da análise de redes sociais (ARS)como metodologia para o estudo de arranjos institucionaisno setor, como possibilidade para a pesquisa empíricada responsabilidade social empresarial.  357 Rede de responsabilidade socioambiental   …R. Árvore, Viçosa-MG, v.34, n.2, p.355-365, 2010 2. METODOLOGIA A base de dados para o estudo foi o Relatóriode Responsabilidade Socioambiental do ano 2006 daBracelpa (Associação Brasileira de Celulose e Papel),que apresenta os projetos realizados pelas empresasdo setor de celulose e papel e suas parceiras. O trabalhoconsidera a estrutura teórica proposta por Nardelli eGriffith (2003b), apreendendo a empresa florestal comoum sistema aberto.O Relatório apresenta dados sobre a atuação socialda indústria e os projetos que envolvem comunidades,funcionários e familiares para o desenvolvimentoeconômico; saúde; educação, treinamento e capacitação profissional; meio ambiente; cultura; apoio à comunidade;esporte, integração e lazer; e voluntariado (BRACELPA,2006). Porém, para o desenvolvimento deste estudo,apenas o capítulo de projetos ambientais foi considerado.Esse Relatório tem importância para o setor e é ricoem informações para pesquisa socioambiental, noentanto não capta todas as informações sobre as açõese articulações dos atores, nem outras redes das quaiseles façam parte. As organizações participantes dos projetosambientais identificadas a partir do Relatório citadoforam classificadas em: primeiro setor (Estado), segundosetor (setor produtivo e suas representações) e o terceirosetor (organizações não governamentais sem finslucrativos e de interesse público). As informaçõesnecessárias para essa classificação foram obtidas a partir de dados das páginas eletrônicas das organizações pertencentes à rede e orientadas pela Tabela 1, elaboradacom o intuito de classificar os atores sociais.As organizações foram numeradas e classificadasde acordo com o setor que representavam, recebendoo atributo: “1” – para o setor público ou primeiro setor,“2” para o setor privado com fins lucrativos ou segundosetor e “3” para as organizações sem fins lucrativosou terceiro setor. Na classificação adotada neste trabalho,o termo Organização da Sociedade Civil de InteressePúblico (OSCIP) não foi utilizado, uma vez que nemtodos os atores do terceiro setor possuem essaqualificação, e essa informação não estava disponível para todas as organizações nos meios consultados(relatório e internet  ). Utilizou-se, então, o termo “terceirosetor”, ainda que esse termo não se constitua em termo jurídico. As organizações não governamentais foramclassificadas como segundo ou terceiro setor, a depender de seu vínculo mais forte com o interesse público oucom o interesse privado, em se tratando dodesenvolvimento de suas atividades-fins. Dessa forma,organizações não governamentais com atividades-finsvinculadas à iniciativa privada foram consideradas como pertencentes ao segundo setor. As organizações nãogovernamentais sem fins lucrativos e com prioridadeno desenvolvimento de ações de interesse públicoe criadas a partir do esforço da iniciativa privada foramconsideradas como pertencentes ao terceiro setor  1 .Como o Relatório analisado é um documento quefoi elaborado com fins institucionais e, dessa forma,não apresentava as informações padronizadas sobreas parcerias em termos quantitativos e qualitativos,foi necessário o estabelecimento de alguns critériosde análise para possibilitar a elaboração da matrizrelacional necessária ao processamento de dados pelo programa de análise – UCINET.Primeiramente, definiu-se como propriedaderelacional de análise a existência de parceria entreorganizações. Assim, a significação da relação entreatores ou nós foi considerada como a existência devínculo através da realização de projetos ambientais,independentemente do sentido da ligação, ou seja, Primeiro SetorSegundo SetorTerceiro Setor DireitoPúblicoPrivadoPrivadoInteressePúblicoPrivadoPúblicoFins lucrativosNãoSim / NãoNãoAtividade econômicaNãoSim / NãoSim / NãoEntidades(exemplos)Órgãos autárquicos deSociedades empresárias;OSCIP’s; Associações;qualquer esfera do poderAssociações de interesse privado;Fundações; Organizações público 1 ; associações públicasSociedades simples.religiosas 3 . (Footnotes). (cooperativas 2 ). Tabela 1 –  Classificação das organizações no primeiro, segundo e terceiro setor. Table 1 –  Classification of the organizations in the public, private and outsourced sectors.  358 BORSATO, R. et al.R. Árvore, Viçosa-MG, v.34, n.2, p.355-365, 2010 de qual instituição foi responsável por estabelecer ocontato. Dessa forma, os vínculos foram consideradosnão orientados. Em relação à valoração, as relações poderiam representar o tempo de parceria ou o montantede recursos envolvidos, tornado os vínculos ponderados.Porém, essas informações não se encontravam disponíveise padronizadas para todos os projetos, e, portanto,os vínculos foram considerados binários – representandoa presença ou a ausência da propriedade relacional(parceria), sem atribuir uma escala de valores a essa propriedade. Atribuiu-se o valor “1” para a existênciade parceria entre as organizações e o valor “0” paraa ausência.Foram considerados apenas os parceiros diretosnas ações. Duas ou mais instituições apresentarammais de uma ação conjunta sendo realizada. Nessescasos foi considerada apenas a parceria entre elas,e não o número de projetos 2  que desenvolviam.Esses dados foram inseridos em uma planilha,resultando em uma matriz relacional simétrica querepresenta a existência ou ausência de parceria entrecada uma das organizações (representadas pelos númerosde 1 a 80) com as demais. Os dados foram processados primeiramente considerando as relações das empresasassociadas da Bracelpa entre si (Figura 1) e, posteriormente desconsiderando-se essas relações(Figura 2). A relação entre as empresas associadas daBracelpa permite conectar os subgrupos, delimitandoa rede de projetos ambientais da Associação do setor de celulose e papel (Figura 3).As informações relacionadas ao setor de pertencimento foram inseridas no programa a partir de uma planilha específica para os atributos dos nós,o que possibilita a classificação dos atores e a visualizaçãodesse atributo nos sociogramas.O Relatório contém ainda diversas outras atividadesdesenvolvidas pelas empresas e que atingem grandenúmero de pessoas e comunidades. Porém, essa análiseteve como foco a relação entre instituições,considerando-se apenas os casos em que mais de umaorganização estivesse envolvida. Duas ou maisinstituições apresentaram mais de uma ação conjuntasendo realizada. Nesses casos foi considerada apenasa parceria entre elas e não o número de projetos quedesenvolviam.Os dados foram processados através do softwareUCINET (BORGATTI et al., 2002; QUIROGA, 2003) paraa obtenção de um sociograma (BORGATTI, 2002),utilizando-se o critério de existência ou não de parceriaentre organizações e de informações quantitativas queretratam melhor a realidade estudada. As informaçõesquantitativas obtidas foram as medidas de centralidade. Figura 1 – Articulação entre diferentes setores na rede de responsabilidade socioambiental da indústria de celulose e papel.  Figure 1 –  Articulation among sectors on the social-environmental responsibility network of the pulp and paper sector. Empresas de papel e celuloseassociadas da Bracelpa. Companies of the Brazilian Pulp and  Paper Association Organizações do primeiro setor.  Public Sector organizations Outras organizações do segundo setor. Other private organizations Organizações do terceiro setor. Outsourced organizations  359 Rede de responsabilidade socioambiental   …R. Árvore, Viçosa-MG, v.34, n.2, p.355-365, 2010 Foram calculadas as medidas grau de centralidade,grau de proximidade e grau de intermediação 3 .O grau de centralidade refere-se ao número de laçosdiretos de um ator ou nó e informa com quantos outrosnós se encontravam conectados (QUIROGA, 2007). Essainformação reflete a centralidade do ator em relação aosdemais e pode ser relacionada à sua importância na rede.Para Marteleto (2001), um indivíduo é central em relaçãoà informação quando, por seu posicionamento, ele recebeinformações vindas da maior parte do ambiente da rede,o que o torna fonte estratégica. Alto grau de centralidadetorna o ator referência dentro da rede, pelo fato de ser um potencial na disseminação de informações. Subgrupo 1 Cluster 1 Subgrupo 3 Cluster 3 Subgrupo 2 Cluster 2 Subgrupo 5 Cluster 5 Subgrupo 4 Cluster 4 Figura 2 – Identificação dos subgrupos da rede de responsabilidade ambiental no setor de celulose e papel.  Figure 2 –  Cluster identification on the pulp and paper environmental network. Empresas de papel e celuloseassociadas da Bracelpa. Companies of the Brazilian Pulp and  Paper Association Organizações do primeiro setor.  Public Sector organizations Outras organizações do segundo setor. Other private organizations Organizações do terceiro setor. Outsourced organizations Figura 3 –  Díades presentes na rede socioambiental no setor de celulose e papel.  Figure 3 –  Dyads on the pulp and paper social environmentalnetwork.
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