Psicanálise lacaniana e estruturalismo: A condução do desejo como função pura a um plano transcendental

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  539 P  SICOLOGIA  USP,   São Paulo, outubro/dezembro, 2009, 20 (4), 539-554. PSICANÁLISE LACANIANA E ESTRUTURALISMO: A CONDUÇÃO DO DESEJO COMO FUNÇÃO PURA A UM PLANO TRANSCENDENTAL 1 Léa Silveira Sales Resumo: Há, na fase mais estruturalista da obra de Lacan – aquela que se desdobra durante o início dos anos 50 –, uma insistência na dissociação entre desejo e objeto que resulta não apenas da abordagem que Kojève havia providenciado para o tema, mas agora, sobretudo, dos instrumentos disponibilizados pela ideia de estrutura. O artigo investiga os detalhes desse processo e indica em que sentido ele conduz o desejo a um plano transcendental. Palavras-chave : Estruturalismo. Psicanálise lacaniana. Desejo. Signicante. Reconhecimento. A dissociação entre desejo e objeto que encontramos na obra de Lacan em sua fase mais estruturalista – expressa, por exemplo, no seguinte trecho “o sujeito não pode desejar sem que ele mesmo se dissolva e sem ver, devido exatamente a esse fato, escapar-lhe o objeto numa série de deslocamentos innitos” (Lacan, 1978, pp. 209-210) – deve ser remetida, em termos epistemológicos, a dois fatores: 1 - A ênfase nos aspectos estruturais cujas diretrizes a escolha de objeto especí- ca vem apenas corroborar. Quer dizer, ela surge tão-somente como efeito empírico de um condicionamento transcendental. A estrutura indica a posição do sujeito face aos objetos, mas não dá lugar a uma determinação que tivesse srcem nestes. Lacan diz que a psicanálise nos permitiu descobrir 1 Este trabalho resulta da tese de doutorado Determinação versus subjetividade: apropriação e ultrapassa- gem do estruturalismo pela psicanálise lacaniana,  desenvolvida no Departamento de Filosoa da Universi -dade Federal de São Carlos com bolsa CAPES.  540 PSICANÁLISE LACANIANA E ESTRUTURALISMO: A CONDUÇÃO DO DESEJO COMO FUNÇÃO...  L ÉA  S ILVEIRA  S ALES o fato do desejo humano não estar diretamente implicado numa relação pura e simples com o objeto que o satisfaz, mas estar ligado a uma  posição que o sujeito adota  na presença desse objeto tanto quanto a uma posição que ele adota fora de sua relação com o objeto, de tal modo que nada jamais se esgota, pura e simplesmente, na relação com o objeto. (Lacan, 1998, p. 320, itálicos nossos) 2- A crítica da teoria do imaginário que já preparava a recepção da racionalidade da estrutura, uma vez que ela já era em si uma crítica da rei -cação da imagem (no caso, da imagem do objeto), reputada alienante.Com a ordem simbólica, o desejo não é mais desejo do desejo do ou-tro como semelhante especularizável, mas desejo do desejo do Outro, ou seja, desejo da própria estrutura que o determina, ou, ainda em outras pala-vras, é desejo da Lei. Se observarmos agora que o próprio desejo nada mais é do que a Lei posta em funcionamento, então vemos que ele é apenas o desejo de manter-se a si mesmo como desejo, ou seja, sem satisfação, algo contra o que se chocaria imediatamente qualquer ideia a seu respeito que convergisse para “desejo de objeto”. É por esse motivo que Lacan arma que ele é revelado por Freud “como desejo de nada” (Lacan, 1978, p. 246).Então ocorre que essa relação desejante entre o desejo e a Lei que o constitui se expressa necessariamente de acordo com duas funções inter-dependentes: a da linguagem e a da fala . Para tratar da complexidade des-se nó é que Lacan se dedica – mais especialmente ao longo do Seminário 5  – a escrutinar a tríade necessidade/demanda/desejo. Aí, vemos que a ne-cessidade elevada à fala, constituindo a demanda, produz o desejo aquém e além desta e, anal, radicalmente diferente da primeira: O desejo é denido por uma defasagem essencial em relação a tudo o que é pura e simplesmente da ordem da direção imaginária da necessidade – necessidade que a demanda introduz numa ordem outra, a ordem simbólica, com tudo o que ela [a necessidade 2 ] pode introduzir aqui de perturbações. (Lacan, 1998, p. 92) A expressão da necessidade na fala sob a forma de um apelo ao Outro receberá não apenas respostas negativas esporádicas a propósito da satisfação de necessidades especícas (a fome, a sede, por exemplo). Ela constitui, dentro da própria dialética da recusa – que então passa a ser mesmo necessária à estrutura do apelo 3  –, a dimensão desmedida da de-manda porque, a partir desse momento, ela se encontra vinculada à im-possibilidade da presença perene do Outro, impedindo que algo venha atender ao que ela solicita. O apelo ao Outro pede o alimento ou a água, 2 No srcinal: “besoin que la demande introduit dans un ordre autre, l’ordre symbolique, avec tout ce qu’il peut ici apporter de perturbations.”3 “O mecanismo da demanda faz com que o Outro, por sua natureza, se oponha a ela. Poderí-“O mecanismo da demanda faz com que o Outro, por sua natureza, se oponha a ela. Poderí-amos dizer ainda que a demanda exige, por natureza, para ser sustentada como demanda, que algo se oponha a ela” (Lacan, 1998, p. 87).  541 P  SICOLOGIA  USP,   São Paulo, outubro/dezembro, 2009, 20 (4), 539-554. mas, para além disso, pede a presença e a atenção do Outro ou o seu amor. A demanda que chama por algo que venha aplacar a necessidade é a mes-ma que é demanda de amor e, se invoca a alteridade, é menos pela ideia de que ela é imprescindível para o provimento da satisfação do que pelo fato de que esse chamado faz parte das próprias premissas da linguagem 4 : esta funciona de uma forma tal que toda fala tem nela tanto seu ponto de che-gada quanto sua srcem; toda fala se dirige a ela e é emitida a partir de seu lugar. De acordo com o sentido do termo “Outro” no interior da arquitetura conceitual lacaniana, sabemos que tal solicitação se esbarra numa dupla innitude: a do conjunto dos signicantes ao qual se direciona (nível da linguagem) e a que concerne aos deslocamentos efetivados em sua pró-pria expressão concreta (nível da fala). É assim que podemos ler a seguinte armação: O sistema das necessidades entra na dimensão da linguagem para nela ser remodelado, mas também para se verter, ao innito, no complexo signicante, e é isso que faz com que a demanda seja, essencialmente, algo que, por sua natureza, se coloca como podendo ser exorbitante. (Lacan, 1998, p. 87) Além do mais, esse Outro com quem o sujeito se depara (na gura da mãe) já sofre, ele mesmo, o corte do desejo: ele ocupa para a criança um lugar na estrutura na mesma medida em que, por sua vez, é também um posicionamento de sujeito diante dela. Se pensarmos agora que o Outro é ainda uma apresentação da própria estrutura, podemos ter uma idéia da complexidade do entrecruzamento de níveis articulados em sua con-cepção. Condicionada por esses termos, a inevitabilidade da relação inter-subjetiva se sobrepõe às condições orgânicas transformando-as em via de invocação do próprio ser do Outro e colocando o desejo antes e depois de si mesma mediante seu caráter linguageiro. “Depois”, porque nele se reencontra, de modo subvertido e retroativamente tendente ao desapa-recimento, aquilo que se perdera da necessidade em seu atravessamento pela demanda (Lacan, 1998, p. 394). O desejo toma algo emprestado à ne-cessidade – a imposição de uma condição absoluta ou de uma urgência – restabelecendo o desvio que ela sofre quando de sua submissão ao sig- nicante 5 . “Antes” porque o desejo jamais se inscreve na demanda, sendo 4 Ao contrário do que acontecia no texto sobre os complexos familiares (Lacan, 1938), no qual o ponto de partida da função de comunicação era a negativização do estado de dependên-cia em que o recém-nascido se encontrava a propósito de sua sobrevivência, Lacan agora pode dizer que os efeitos da presença do signicante “são, antes de mais nada, os de um desvio das necessidades do homem pelo fato de que ele fala, no sentido de que, por mais que suas necessidades sejam submetidas à demanda, elas lhe retornam alienadas. Isso não é o efeito de sua dependência real..., mas da conformação signicante como tal e de ser do lugar do Outro que é emitida sua mensagem.” (Lacan, 1958b / 1966, p. 690)5 Não é questão, portanto, de uma remissão ao pré-verbal.  542 PSICANÁLISE LACANIANA E ESTRUTURALISMO: A CONDUÇÃO DO DESEJO COMO FUNÇÃO...  L ÉA  S ILVEIRA  S ALES sempre a circulação signicante que a condiciona e levando a necessidade a uma espécie de negação de segunda ordem: uma vez que a necessidade já tenha passado pelo ltro da demanda no plano da incondicionalidade, é apenas a título de uma segunda negação, digamos assim, que reencontraremos, mais além, a margem do que se perdeu nessa demanda. O que encontramos nesse mais além é, precisamente, o caráter de condição absoluta que se apresenta no desejo como tal. (Lacan, 1998, p. 382) 6 A natureza problemática do lugar do desejo deve-se, então, a esse ponto assim resumido por Lacan: Esse lugar está sempre para além da demanda, na medida em que a demanda almeja a satisfação da necessidade, e no aquém da demanda, na medida em que esta, pelo fato de ser articulada em termos simbólicos, vai além de todas as satisfações que invoca; na medida em que ela é demanda de amor, que visa ao ser do Outro, a obter do Outro essa presenticação essencial – que o Outro dê o que está além de qualquer satisfação possível, seu próprio ser, que é justamente o que é visado no amor. (Lacan, 1998, p. 406) 7 Isso o leva a dizer que o desejo é o resultado da subtração da necessi-dade à demanda (Lacan, 1998, p. 382, 1958, 1966b, p. 691). Ora, se a deman-da é uma operação que descreve um nível de expressão da necessidade na fala como apelo à presença do Outro, que é a estrutura simbólica, então vemos que, se retirarmos da demanda o que se deve à necessidade, o que vai restar é o puro funcionamento do simbólico que então já atravessou o corpo. A necessidade, que deveria desaparecer ao ser aplacada, por ter se elevado à fala, deixa, no entanto, atrás de si um “circuito insistente” (Lacan, 1998, p. 89). Tal circulação que persiste, devido à sua localização sob e sobre a fala, é circulação recalcada, constituindo o próprio do inconsciente: “É preciso armar que é a incidência concreta do signicante na submissão da ne -cessidade à demanda que, recalcando o desejo na posição de desconhe-cido, dá ao inconsciente sua ordem.” (Lacan, 1959, 1966, p. 709) Uma vez haja mediação do Outro na gênese da demanda e na recepção da mes-ma, instaura-se uma disparidade entre o que é articulável no nível da fala 6 Em outro lugar, Lacan explicita que essa segunda negação “não é uma simples negação da negação” porque o resíduo produzido pela obliteração da necessidade na demanda faz sur-gir a “potência da pura perda” (Lacan, 1958 / 1966b, p. 691).7 Ou ainda: “É no espaço virtual entre o apelo da satisfação e a demanda de amor que o desejo deve ocupar seu lugar e se organizar. É por isso que só podemos situá-lo numa posição sem-pre dupla em relação à demanda, ao mesmo tempo além e aquém, conforme o aspecto sob o qual consideremos a demanda – demanda em relação a uma necessidade ou demanda estruturada em termos de signicante.” (Lacan, 1998, p. 406)  543 P  SICOLOGIA  USP,   São Paulo, outubro/dezembro, 2009, 20 (4), 539-554. e aquilo que permanece subreptício no desejo pela convergência das se-guintes razões. O desejo: 1- traduz em movimentos pulsionais o processo metonímico de deslocamento de signicantes, o qual é um pressuposto da enunciação; 2- recupera o que se perdera da necessidade na demanda – a pura condição absoluta da urgência – na medida em que isso já não era passível de nomeação; 3- captura o sujeito no cerne de uma falta que já presidia o estatuto do Outro ao qual ele se dirige com sua fala de modo que os signicantes com os quais vai ter que se haver surgem a partir da própria castração e, portanto, não podem ser ditos. Por isso, Lacan arma que o sujeito só teria acesso direto a seu de -sejo se uma segunda fala, projetando-se sobre a sua própria, fosse capaz de suspender o corte que ele sofre pelo fato de falar. Ora, mas se o que é característico da fala é justamente o fato de se formar a partir da restrição imposta pela linguagem, então ela se encontra logicamente desabilitada para desempenhar tal tarefa: “Mas o desejo não é nada além da impossi-bilidade dessa fala que, por responder à primeira, só consegue reduplicar sua marca, consumando essa fenda ( Spaltung ) que o sujeito sofre por só ser sujeito na medida em que fala” (Lacan, 1958, 1966a, p. 634). Essa impossibi-lidade de atualização do desejo na fala é o próprio desejo “puro”. Uma fala, por mais autêntica, só faz perpetuar a falta imposta pela condição da fala. E só há sujeito dentro dessa condição. O desejo procede, então, dessa ni -tude que é radical, estabelecendo um movimento que, visando a encobri-la só alcança a sua perpetuação. É nesse sentido que ele só possui objeto metonímico (Lacan, 1958, 2003, p. 179): o que importa é a metonímia em si e não objeto. o desejo nada mais é do que a metonímia do discurso da demanda. É a mudança [changement] como tal. Insisto nesse ponto – essa relação propriamente metonímica de um signicante ao outro que chamamos de desejo, não é o novo objeto, nem o objeto anterior, é a própria mudança de objeto em si. (Lacan, 1986, p. 340) Eis as linhas gerais do processo de substituição da posição srcinária do sujeito na necessidade – na qual ele ainda não se encontra instituído – pelas condições estruturais dispostas pelo signicante que, inscritas no corpo e na história, conformam a particularidade de cada destino 8 . Por ele, relacionar-se ao Outro (ou fazer uso da linguagem e ser nela capturado) corresponde a dissolver o vínculo entre desejo e satisfação. Por ele, o dese- jo do homem tem seu sentido encerrado no desejo do Outro. Não porque 8 “Se a análise tem um sentido, o desejo nada mais é do que aquilo que suporta o tema inconsciente, a articulação própria do que faz com que nos enraizemos num destino parti-cular, o qual exige com insistência que a dívida seja paga; e ele volta, retorna e nos reconduz sempre de volta a uma certa trilha, à trilha do que é propriamente nosso afazer.” (Lacan, 1986, p. 368)
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