Palavras Encantadas: as transformações da palavra poética na canção popular brasileira. Revista Brasileira de Estudos da Canção_n4 jul.dez 2013.pdf

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Essays

  Resumo: O artigo pretende apontar reflexões sobre a transformação da linguagem poética na canção popular brasileira, considerando as fecundas relações que se podem estabelecer entre a melodia, o ritmo e a poesia, que dão vida às formas das canções.
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  Revista Brasileira de Estudos da Canção  –   ISSN 2238-1198  Natal, n.4, jul-dez 2013  –   www.rbec.ect.ufrn.br 155 Palavras Encantadas: as transformações da palavra poética na canção popular brasileira André Rocha L. Haudenschild 1  arsolar@gmail.com [...] Estou pensando / no mistério das letras de música Tão frágeis quando escritas / tão fortes quando cantadas [...] (CAMPOS  , 1974, p. 309) Resumo : O artigo pretende apontar reflexões sobre a transformação da linguagem  poética na canção popular brasileira, considerando as fecundas relações que se podem estabelecer entre a melodia, o ritmo e a poesia, que dão vida às formas das canções. Ao investigarmos as interfaces porosas entre a poesia oral e a palavra cantada, reconheceremos as fronteiras intersemióticas que as distinguem. Deste modo, tentaremos responder questões relativas à potencialização da palavra poética ao se transfigurar em palavra cantada. Palavras-chave : Poesia Oral; Palavra Cantada; Música Popular Brasileira; Canção Popular. Abstract : The article aims to point to reflections on the transformation of poetic language in the Brazilian popular song, considering the relevant relationships that can  be established between melody, rhythm and lyrics that give birth to songs. Focusing the interfaces between oral poetry and sung word, we will recognize the intersemiotic  boundaries that distinguish them. Thus, we will try to answer questions relating to the “ enhancement ”  of the poetic word into the sung word. Keywords : Oral Poetry; Sung Word; Brazilian Popular Music; Popular Song. Introdução Diversos autores vêm pesquisando a essência da canção enquanto um objeto de estudo singular, mas antes de abordarmos alguns desses pensadores, vale ouvirmos o eco das palavras de Mário de Andrade sobre a articulação da voz humana: Como o arco que vibra tanto para lançar longe a flecha, como pra lançar  perto o som: a voz humana tanto vibra pra lançar perto a palavra, como  pra lançar longe o som musical. E quando a palavra falada quer atingir 1  Compositor e instrumentista com diversos discos lançados entre 1990 e 2010 (disponíveis para download em http://brasildedentro.blogspot.com.br). Mestre em Teoria Literária pela Universidade Federal de Santa Catarina, investigou a poética da canção jobiniana em  Alegria Selvagem: a lírica da natureza na obra de Tom  Jobim (São Paulo: Olho d’Água, 2010). Atualmente realiza doutorado em Literatura na mesma universidade, conduzindo pesquisa sobre a poética da Bossa Nova (com apoio CAPES).  Revista Brasileira de Estudos da Canção  –   ISSN 2238-1198  Natal, n.4, jul-dez 2013  –   www.rbec.ect.ufrn.br 156 longe, no grito, no apelo e na declamação, ela se aproxima caracteristicamente do canto e vai deixando aos poucos de ser instrumento oral para se tornar instrumento musical (ANDRADE, 1965, p. 43). Essa perspectiva é reveladora para pensarmos na dança que a palavra proferida realiza quando realiza sua metamorfose em forma de canto. Como se para atingir a eficácia total de sua comunicação, a palavra redimensionasse seu alcance oral ganhando um caráter cada vez mais musical: como, por exemplo, o aboio dos vaqueiros ou a lamúria das carpideiras, ambos dotados de melodia. Um caminho que devemos considerar em relação ao estudo da palavra poética na canção popular é a perspectiva intersemiótica que toma toda forma de manifestação artística como um tipo específico de sistema de linguagem. Segundo Susanne Langer, a especificidade de cada arte não resulta das técnicas e dos meios materiais empregados por elas, mas de algo que denomina de “aparição primária”, ou seja, de uma dimensão  particular e ilusória da experiência humana capaz de criar uma outra imagem da realidade ( apud OLIVEIRA, 2002, p. 29). No caso da criação musical, sua aparição primária seria a constituição artística de um tempo virtual determinado por formas sonoras em movimento, com organização, volume e partes distintas. Nesse sentido, Langer acrescenta ao conceito de “aparição primária” um princípio geral  subjacente às equivalências estruturais entre as manifestações artísticas: a assimilação obrigatória de uma arte pela outra quando combinadas na mesma obra, isto é, em um espetáculo coreográfico, por exemplo, a dança absorveria a música, assim como, na criação de uma canção, a música absorveria a palavra  poética, tornando-a secundária. Assim, passaria a existir um princípio de assimilação que determina que, se em uma obra são introduzidos materiais heterogêneos  –   como as palavras em uma melodia  –   estas últimas seriam assimiladas ao material musical, deixando de serem meramente poesia para se transformarem em melopoética (do grego: melos  = música +  poiesis = poesia). Esse conceito intersemiótico semeia uma polêmica fecunda para pensarmos que a especificidade singular da canção enquanto criação artística é a fusão total entre poesia e melodia, e que, ao invés de concordarmos plenamente com o Langer, sobre a absorção de uma arte sobre a outra quando combinadas, poderíamos pensar que nenhuma delas, nem a música e a nem poesia, exercem uma função principal (ou secundária) na constituição das  Revista Brasileira de Estudos da Canção  –   ISSN 2238-1198  Natal, n.4, jul-dez 2013  –   www.rbec.ect.ufrn.br 157 canções. Ou seja, há uma complexa relação de complementaridade e de hibridismo entre as artes quando se associam. No caso específico da canção, a música e a poesia partilham do mesmo material básico  –   o som, sendo que ambas têm a constituição de um tempo virtual como suas aparições primárias. Figura 1  –   Partitura medieval O pesquisador e poeta Paul Zumthor, em seu renomado estudo  Introdução à poesia oral  , ao criticar o etnocentrismo evolutivo ocidental renunciando ao primado da escrita sobre a universalidade da tradição oral das culturas milenares, realiza um minucioso  percurso dos modos perceptivos da oralidade poética e elabora um inventário das relações entre a voz, sua gestualidade e a poesia oral (desenvolvendo a noção de movência do texto oral, com ênfase na transmissão da força energética e teatral daquilo que nomeia como “  performance da voz ” ). Isto é, sua concepção perante a oralidade poética nos ensina que já há na palavra poética uma essência musical latente, pois esta é constituída da união de texto, melodia e energia enquanto forma sonora e performática concorrendo para a unicidade de um sentido (ZUMTHOR, 1997, p. 195). Já outros pensadores, como Lawrence Kramer, afirmam que a força de um poema, quando aliado à música e transformado em canção, repousa em sua própria ininteligibilidade: (...) A imaginação do poeta é inicialmente despertada pelo impulso de inserir suas próprias palavras na fenda linguística encontrada na melodia. Uma vez inseridas, as palavras gradativamente se dissolvem como a  própria canção, deixando o poeta mudo e transfigurado, usualmente numa  postura de intensa audição (KRAMER apud   OLIVEIRA, Op. cit. , p. 31).  Revista Brasileira de Estudos da Canção  –   ISSN 2238-1198  Natal, n.4, jul-dez 2013  –   www.rbec.ect.ufrn.br 158 Interessante notarmos que ao projetar as palavras poéticas em melodia, o poeta transfigura e dissolve seu poema em uma nova entidade física, deixando seu corpo como que mergulhado na esfera da subjetividade da canção: um “ lugar aprazível ”  capaz de diluir as palavras poéticas em forma de canto, e assim, dissolver a materialidade do poema em um  processo que poderíamos talvez chamar de “encantamento”.   A palavra encantada Se tomarmos esse termo como um atalho epistemológico, devemos olhar para sua etimologia latina (derivada do verbo incantare )   que tem múltiplos valores semânticos, representando desde o ato de se deliciar emocionalmente com algo, até a ação de se transformar algo ou alguém em uma outra coisa 2 . Ou seja, a poesia quando “ maravilhada ”  e “ enfeitiçada ”  pela musicalidade latente de uma melodia (com altura, duração, intensidade e timbre), tornar-se-ia, então, palavra “ encantada ” :  No uso comum da língua, o falado utiliza apenas uma pequena parte dos recursos da voz; nem a amplitude, nem a riqueza do seu timbre são linguisticamente pertinentes. O papel do órgão vocal consiste em emitir sons audíveis conforme as regras de um sistema fonemático que não  procede, como tal de exigências fisiológicas, mas constitui uma negatividade pura, uma não substância. (...) Mas eis que, por vezes, ela (a voz), sacode suas limitações (pronta para aceitar outras, positivas): então se eleva o canto, desabrochando as potencialidades da voz e, pela  prioridade que ele concede a elas, desalienando a palavra (ZUMTHOR, Op. cit. , p. 187). Desse modo, ao ser encantada pela potencialidade do canto, a voz se libertaria de suas limitações e exigências fisiológicas deixando desabrochar sua substância plena: (...) Dita, a linguagem submete-se à voz; cantada, ela exalta sua potência, mas, por isso mesmo, glorifica a palavra... mesmo ao preço de algum obscurecimento do sentido, de uma certa opacificação do discurso: exaltada menos como linguagem que como afirmação de potência (ZUMTHOR, idem, ibidem ). 2   “Encantar”, segundo o Dicionário Aurélio, significa: 1. Lança r encantamento ou magia sobre; enfeitiçar. 2. Transformar (pessoa) em outro ser, por artes mágicas. 3. Seduzir, cativar; maravilhar, arrebatar. 4. Causar extremo prazer a; deliciar. 5. Tornar invisível, fazer desaparecer. 6. Tomar-se de encantos; maravilhar-se, arrebatar-se. 7. Transformar-se em outro ser por meio de encantamento ou sortilégio. (FERREIRA, 1986, p. 642).  Revista Brasileira de Estudos da Canção  –   ISSN 2238-1198  Natal, n.4, jul-dez 2013  –   www.rbec.ect.ufrn.br 159 Esse processo de exaltação da palavra em canto levaria a uma certa dessemantização do texto, em prol do triunfo da melodia sobre o discurso literário (eis o motivo pelo qual muitos músicos e intérpretes não prestam muita atenção ao sentido das letras das canções que tocam ou escutam). Ao ser questionado sobre a relação de sua produção artística musical com a literária, Chico Buarque nos fornece uma pista bem instigante neste sentido: A melodia de certa forma adocica o que poderia haver de literatura em uma letra de música. Tanto é que escrevo livros sem música, quer dizer, é uma literatura desprovida de música, muito mais seca que a letra das canções que são escritas em função daquelas melodias (BUARQUE, 1998, p.08). Assim, na criação de uma canção, o canto suavizaria a palavra poética em oposição ao terreno árido da literatura em prosa? O lugar aprazível da esfera da subjetividade  –   a canção  –   versus o campo árido do discurso literário? A reflexão buarquiana, além de gerar uma imagem metafórica da esfera culinária, pois a melod ia “adocica” o texto literário e que é bem pertinente à reflexão já mencionada de Lawrence Kramer, ao afirmar que as palavras  poéticas ao serem musicadas se “dissolvem” como a canção, pode nos reconduzir ao caminho investigativo de Zumthor: Desde seu jorrar inicial, a poesia aspira, como a um propósito ideal, a se depurar das limitações semânticas, a sair da linguagem, ao alcance de uma  plenitude, onde tudo que não seja simples presença será abolido. A escrita reprime ou esconde essa aspiração. A poesia oral, ao contrário, acolhe seus fantasmas e tenta lhes dar forma; daí os procedimentos universais de ruptura do discurso: frases absurdas, repetições acumuladas até o esgotamento do sentido, sequências fônicas não lexicais, puros vocalises. A motivação cultural varia, o efeito permanece (ZUMTHOR, 1997, p. 169). Ora, se a palavra poética almeja purificar-se de suas limitações de sentido, naquilo que Zumthor denomina como uma forma de “desalienação da  palavra ”, a escrita literária seria, então, o lugar e a forma de aprisionamento dessa intenção primordial. Ao passo que o canto seria a materialização redentora da palavra poética, ao ser convertida no entrelaçamento da linguagem com a melodia, com o timbre e com o ritmo, tornando-se  palavra cantada. Vale lembrarmos que desde os primórdios de nossa civilização, a
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