O qì do taoismo antigo Nèijīng e as dificuldades na transmissão no ocidente The qì of the Nèijīng ancient Taoism and the transmission difficulties in the West Orley Dulcetty Junior* Resumo

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  O qì do taoismo antigo Nèijīng e as dificuldades na transmissão no ocidente The qì of the Nèijīng ancient Taoism and the transmission difficulties in the West Orley Dulcetty Junior* Resumo
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    PLURA, Revista de Estudos de Religião, ISSN 2179-0019, vol. 3, nº 2, 2012, p. 56-81   O qì   do taoismo antigo N  èijīng   e as dificuldades na transmissão no ocidente  The qì of the N  èijīng   ancient Taoism and the transmission difficulties in the West Orley Dulcetty Junior  *    Resumo O pensamento chinês da sabedoria taoista, que se desenvolveu ao longo dos tempos e atingiu maturação no período clássico da China durante os Reinos Combatentes (403-256 a.C.) e Hàn   (206 a.C. - 229 d.C.), influenciou o pensamento médico na elaboração do livro taoista da medicina antiga chinesa o "Clássico Interno do Imperador Amarelo"   ( Huángdì Nèij  īng    ou simplesmente   Nèijīng  ). A noção do qì   é tema central no taoismo antigo e na medicina tradicional. Discute-se aqui a evolução do qì   nesse contexto, seu valor polissêmico e as dificuldades na transmissão escrita nas traduções ocidentais do Nèijing   compilado por Wáng Bing (720 d.C.). Essa obra serviu e serve para se regrar os ensinamentos médicos taoistas na China e nos países de idiomas indo-europeus. Os modelos teóricos de hibridação e neofigurismo de Lackner, fecundidade cultural de Jullien, intertextualidade de Genette procuram explicar as diferenças culturais, linguístico-filológicas com as dificuldades na transmissão do texto srcinal para as traduções ocidentais do "Clássico Interno", que preserva a ancestralidade da sabedoria do Imperador Amarelo. Palavras chave: Qì  ; Taoismo Antigo; Nèijīng;  Tradução; Dificuldades na transmissão. Abstract  The wisdom of Chinese Taoist thought, which was developed over time and reached maturity in the classical period in China during the Warring States (403-256 BC.) and Hàn (206 BC - 229 AD), influenced medical thinking in drafting the  Taoist book of the ancient Chinese medicine "Yellow Emperor's Inner Classic" ( Huángdì Nèijīng   or simply Nèijīng  ). The concept of qì   is a central theme in Taoism and traditional medicine. It is discussed here the evolution of qì   in that context, its polysemic value and the difficulties in writing transmission in Western translations of the Nèijīng   compiled by Wáng Bing (720 AD). This work has served and serves to regulate the Chinese medical teachings in China and Indo-European language countries.    The theoretical models of hybridization and neofigurism of Lackner, Julien’s cultural fecundity, Genette’s intertextuality  seek to explain cultural, linguistic-philological differences with the difficulties in the transmission of the srcinal text to the Western translations of the "Inner Classic", which preserves the ancestrality of the Yellow Emperor wisdom. Keywords: Qì  ; Ancient Taoism; Nèijīng  ; Traduction; Transmission difficulties. *  Doutor em Ciências da Religião pela PUC-SP. Membro do CERAL da PUC- SP. Membro de l’AFEC  - Association Française d’Etudes Chinoises, École des Hautes Études en Sciences Sociales, Centre d’Études sur la Chine , Paris. Membro do SBEC.  57 PLURA, Revista de Estudos de Religião, ISSN 2179-0019, vol. 3, nº 2, 2012, p. 56-81   O. Dulcetti Junior - O qì  do taoismo antigo Nèijing   Introdução Inicialmente, será analisada a concepção do pensamento chinês como forma tradicional de expressão da fecundidade da inteligibilidade e vivência chinesa. Após, nesse contexto discutir-se-á a noção do qì   do pensamento da China Antiga, a sua evolução, polissemia, a presença do qì no "Clássico Interno do Imperador Amarelo", da alteridade cultural chinesa de medicina antiga. Para então, abordar a dificuldade linguística das traduções do Nèijing dessa transmissão para o ocidente, que serviu e ainda serve para se guiar a prática da medicina antiga chinesa, até os dias atuais. O pensamento chinês O vocábulo pensamento no idioma chinês costuma ser a tradução do sinograma ( sī    思 ). O caractere chinês sī   ( 思 ) constitui-se do sinal chinês abaixo com significado de depósito central do entesouramento do shén   ( 神 ), o ( xīn    心 ), acima o radical da caixa do alto do formato do homem, com a abertura acima. Pode se entender o pensar chinês em correspondência e comunicação entre ambos, o palácio do alto e o depósito central. Dessa maneira, o pensamento chinês é um modo de viver com o shén no centro do peito   na orientação do pensamento, sendo que, as relações justas entre a ordem reguladora do céu e terra, no interior do depósito central do humano, permitem o discernimento, inteligência em concordância com as relações yīnyáng  , a dupla face do único qì  , principalmente, entre as cinco fases do movimento do yinyángqì   (Rochat, 2009). O pensamento chinês antigo não possui mitos, nem narrativas, nem conceito de caos, nem cosmos . Mas, começa com a escrita chinesa portadora de sentido feita nos rituais na carapaça da tartaruga. Famílias eruditas de diferentes regiões culturais da China antiga ligadas ao Imperador interpretam variações do pensamento sobre o dào que se intercomunicam   e se complementam, diferente do que ocorreu na separação entre o pensamento mítico e filosófico helênico e as sucessivas investidas na formulação de filosofemas europeus da atualidade. O pensamento da sabedoria chinesa não se categoriza como uma filosofia, pois não possui  epistemé  , objeto, nem  logo. Embora,   o sábio chinês conheça a causa e o efeito, especula o trânsito, o  58 PLURA, Revista de Estudos de Religião, ISSN 2179-0019, vol. 3, nº 2, 2012, p. 56-81   O. Dulcetti Junior - O qì  do taoismo antigo Nèijing   processo intermediário, entre a causalidade e a finalidade com o objetivo, e efeito. A preocupação intelectual chinesa antiga denominada de eficiência ( dé 德 ) despreocupa-se da formulação teórica e da prática, por não ser dualista, nem com a virtude, com o bem e o mal. Situa o pensamento chinês na ordem ( l  ǐ    理 ), que na sua ausência consiste na ruptura da ordem intrínseca das coisas, a desordem. Não se baseia em conceitos, nem em definições, mas dá volta nos assuntos, por ser um pensamento circular, sem meta, e no momento propício o mestre chinês não tem a eidos  , a ideia, mas, segue a espontaneidade do dào. Por isso não tem necessidade de objetivar, nem de teorizar. O principal é vivenciar a espontaneidade, do latim sponte sua   da vida, principalmente, na visão do L  ǎ  oz  ǐ    ( 老子 ), Zhuāng  z  ǐ   ( 莊子 ), Huáinánz  ǐ   ( 淮南子 ) (Jullien, 1999, 2012). São pensadores que, entre outros, influenciaram fortemente a medicina chinesa atribuída ao Imperador Amarelo, mas que, segundo Keegan (1988), não foi o autor do Nèijīng  . O pensamento de unicidade chinês antigo não dá lugar para a dualidade, não separa, pois possui uma visão conjuntiva de tudo que apresenta configuração na forma, que se percebe considerado, que provém do desdobramento do processo espontâneo do qì,  ou sopros-ventos espontâneos não soprados por ninguém, muito menos possui conceito transcendente. Por isso, tudo tem o seu lugar no mesmo nível do dào  . O pensamento chinês antigo desconhece a noção de verdade, perfeição, eternidade (Jullien, 1999, 2012). O tempo é cíclico, circular, fruto do pensamento cultural chinês. Sem o conceito de srcem ou princípio (do latim,  principia  ), os chineses ficam no pensamento da propensão. Se não há imitação da realidade do mundo, do modelo, para os chineses, nem da imagem, eles não criam uma especulação racional de imitação, mas movem o pensamento na propensão espontânea no momento propício, sem intervenção de divindades. A relação entre o qì   do homem, entre o qì   do outro e entre o qì humano e o qì das coisas se desvia completamente do individual, ontológico, da essência, da existência. Haja vista, a escrita chinesa não tem o verbo ser na formação da linguagem do pensamento chinês antigo, mas possui singularidades que se expressam no pensamento médico do dào na cultura chinesa clássica (Jullien, 2010). O desdobramento da fecundidade cultural do pensamento chinês antigo produz a dimensão medicinal do dào   da China da antiguidade.  59 PLURA, Revista de Estudos de Religião, ISSN 2179-0019, vol. 3, nº 2, 2012, p. 56-81   O. Dulcetti Junior - O qì  do taoismo antigo Nèijing   A inteligibilidade chinesa tem a preocupação de ordem, que evoca a noção de l  ǐ    ( 理 ), ou ordem estruturante do mundo. O homófono l  ǐ    ( 禮 ), ou inteligência ritual, de acordo com o pensamento de correlação, tem uma perspectiva não linear, não-dualista, circular, como interpretação da realidade, complementada pelo vivenciar do assunto que foi refletido na situação, acrescido da combinação com o sinograma, que funciona como unidade de sentido independente da sua expressão falada, sem o encadeamento alfabético da linguagem indo-europeia (Gernet, 1999; Cheng, 2009). O pensamento chinês foi maturado ao longo dos tempos como fruto do acúmulo de vivências, desenvolvimentos de textualidade, a partir de rituais de inscrição, escriturais feitas pelos mestres chineses das artes (  fāngshì 方士 ), numa China pré-dinástica, até se chegar à culminação, por meio das diversas correntes da sabedoria chinesa, com as especulações da inteligibilidade dos pensadores ocorridas durante os Reinos Combatentes à dinastia Hàn   (Cheng, 1997). Dos aspectos de correntes variadas da sabedoria do pensamento chinês, selecionou-se a noção do qì ( 氣 ), assim como foram incorporadas algumas versões de coleções de textos taoistas, que foram também assimiladas pelo livro médico escrito em chinês clássico ( wényánwén 文言文 ), denominado de "Clássico Interno", que se discute mais adiante. A noção do qì   ( 氣 ) do pensamento chinês A noção do  qì    氣  que foi desenvolvida gradualmente desde a Antiga China possui valor linguístico polissêmico comum à língua e cultura chinesa. Nessa progressão do conhecimento, consolidaram-se as noções referentes ao qì no pensamento chinês, na construção do yīnyáng   ( 陰陽 ), do w  ǔ xíng   ( 五行 ), ou cinco fases que se completam (Rochat, 2009). O sinograma qì  , ainda não havia surgido nas inscrições datadas por volta do século XIV, antes da era cristã, feitas nos ossos de ovinos, bovinos e nas de bronze. Segundo os estudos de Akatsuka (1960), o vento (  fēng    風 ) é um caractere ancestral do qì, que posteriormente foi associado à noção desse mesmo qì ( 气 ) presente nos textos clássicos chineses de diversas correntes de pensamento, que teve, também, forte influência de clássicos do taoismo, nos clássicos de medicina chinesa e no Nèijīng.   Enquanto que, a noção de grãos da terra ( mi  米 ) foi incluída  60 PLURA, Revista de Estudos de Religião, ISSN 2179-0019, vol. 3, nº 2, 2012, p. 56-81   O. Dulcetti Junior - O qì  do taoismo antigo Nèijing   posteriormente no caractere do qì ( 氣 ) (Akatsuka, 1960). Por isso, para se entender o qì   ( 氣 ) precede-se ao estudo do caractere do vento (  fēng  風 ) que possui a pronúncia em chinês  fēng  . O termo  fēng    contém dois radicais: o de cima e o de dentro. O radical superior   fornece o significado de movimento do ar, ou vapor, que depois será referente no termo qì  . O radical de dentro é o do inseto que indica a metamorfose, pequenas espécies que são impulsionadas a se mover pelo vento (Rochat, 2009). Posteriormente, o pensamento chinês entende a noção de vento como transformações-nascimento ( shēng  huà    生化 ), ou, dar nascimento a, incluídos depois na noção do qì.  O vento, antigamente, na China no século XIV a. C., nos vasos de bronze, surgia num contexto com significado de uma potência invisível de vida, que se mobiliza no visível num trânsito constante e unitário, inseparável. O sinograma homófono de  feng   para o vento é também  fèng   ( 鳳 ), comumente traduzido como ave magnífica, uma instância reguladora dirigente do vento, também, da potencialidade da vida, da possibilidade das coisas. Era a representação dos ventos vivificadores partindo do céu até a terra, na fertilização do solo, uma poderosa vitalidade. Essas noções de ventos reguladores, com potencialidade de vida, serviram de base para se desenvolver o pensamento do qì   (Akatsuka, 1960). Assim, tem-se a unidade do vento ou ventos numéricos, sendo que o numeral chinês funciona como modificador do sentido nos caracteres chineses. Um vento, o vento fonte, do idioma chinês, yuánqì ( 元氣  ou 原氣 ), espontâneo, a primordialidade da vida. Os oito ventos ( bāfēng  八風 ) foram considerados variações da manifestação do movimento, com potencial de vida acompanhado de imagens, como realidades do modo de viver chinês, contribuiu também no desenvolvimento da formação da noção do qì.  O vento se torna o próprio do qì,  como o indefinido, sem forma, infinito, invisível que se manifesta, sutil que se densifica de modos particulares, numa continuidade transformadora e silente. O surgimento do caractere qì ocorreu após o do vento, somente em textos clássicos chineses posteriores ao Shījīng   ( 詩經 “ ), o "Clássico das Odes", e ao Shūjīng   ( 書經 ), o "Clássico dos Documentos", textos surgidos na dinastia dos Zhou,  em torno do ano 1000 a. C. A parte superior do termo qì ( 气 ) aparece em textos antigos e nas inscrições rituais com significado de pergunta, ritualística de oferendas (Rochat, 2006).
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