EMÍLIO: ESBOÇO DE UMA APRESENTAÇÃO

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  Este texto é o primeiro esboço para a Apresentação de minha tradução de "Emílio, ou da Educação". Críticas e sugestões podem ser enviadas para meu e-mail (kawauche@gmail.com).
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   EMÍLIO  : ESBOÇO DE UMA APRESENTAÇÃO 1   Thomaz Kawauche (Doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo) Publicado em 1762,  Emílio, ou Da educação  permanece inclassificável. Seu conteúdo é demasiadamente abstrato para aplicações imediatas e, no entanto, nada do que ali se lê aparta-se dos fatos e costumes da época. Diferindo tanto dos tratados filosóficos quanto dos manuais de pedagogia  –   deixemos de lado a possibilidade de ser ainda um romance pedagógico  –  ,  Emílio  tornou-se objeto de diversas interpretações, algumas até mesmo incompatíveis entre si. Polêmicas exegéticas à parte, a indeterminação da obra quanto ao seu lugar nas prateleiras de nossas  bibliotecas não deixa de parecer sintomática quando nos lembramos do espírito variado de seu autor, o genebrino Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), que de bom grado tomava para si a alcunha de “homem de paradoxos”. Há quem rejeite com veemência esse escrito alegando o sexismo do autor (pois, para ele, a mulher deve ser educada a fim de servir o marido) ou sua hipocrisia (questiona-se: como pode um pai que abandona os cinco filhos escrever sobre educação?). Mas há também leitoras e leitores que, evitando jogar a água da banheira  junto com o bebê, apreciam as contribuições teóricas de Rousseau.  Mutatis mutandis  , a corrente pedagógica da Escola Nova e os diversos projetos de escolas democráticas  –   Summerhill na Inglaterra e a Escola da Ponte em Portugal, para citarmos apenas dois casos  –   seguem em grande medida os preceitos do sistema educativo de  Emílio . Para além dos méritos e deméritos dessas tentativas, o fato é que elas existem e, enquanto instituições históricas, sinalizam que a discussão inaugurada há mais de 250 anos ainda produz efeitos sociais significativos. E com certeza, seria temerário censurar a pedagogia do  Emílio  sob a  justificativa de que a vida do autor não era exemplar. Se, por exemplo, desabonássemos Jean-Jacques com as provas de seus fracassos enquanto preceptor contratado, primeiro, pelo Sr. Mably, e depois, pela Sra. Dupin, ficaríamos embaraçados, para dizer o mínimo, quando tivéssemos que explicar as razões pelas quais um escrito sobre educação fora condenado tanto pelo Parlamento de Paris quanto pelos conselheiros de Genebra. Afinal, qual o sentido de se chamar tanta atenção para um mestre sem talento e com currículo medíocre, cujos disparates sentimentais mostravam-se tão pouco dignos da fogueira em praça pública? Justiça significa, entre outras coisas, a proporção adequada entre o crime e a pena. Não seria, 1  Este texto é o primeiro esboço para a Apresentação de minha tradução de  Emílio, ou da Educação . Críticas e sugestões podem ser enviadas para meu e-mail (kawauche@gmail.com).  T. Kawauche, Emílio : esboço de uma apresentação (2019) 2 então, mais justo descobrir o que haveria de tão perigoso no  Emílio , isto é, em seu conteúdo,   aos olhos das autoridades? Convém, portanto, deixarmos de lado as questões de gênese da obra, pois elas nos desviam daquilo que realmente importa notar: no século XVIII, a educação de crianças é objeto de estudo da filosofia. Não podemos negar que, em sua “coletânea de reflexões e observações sem ordem e quase sem sequê ncia” , Rousseau traz contribuições decisivas para o debate filosófico do Iluminismo; o aspecto mais inovador, sem dúvida, está em tratar da ciência do homem, que é o saber ancestral de nossa antropologia, mediante a descrição do desenvolvimento de uma criança. É preciso muito fôlego para recuperar temas clássicos, como a liberdade e a sociabilidade, e rediscuti-los num registro diferente, fazendo uso simultâneo dos esquemas explicativos da ciência da legislação dos jusnaturalistas, da história natural de Buffon e da teoria do conhecimento de Condillac. Através dessa espécie de lente conceitual com múltiplos focos, o genebrino torna possível a análise crítica das tradicionais representações da natureza humana, numa perspectiva que, embora tenha impressionado muito o filósofo alemão Immanuel Kant, só será apreciada pelos doutos como saber respeitável no século XIX, com o advento dos modelos historicistas da sociedade no cenário teórico das ciências positivas. O esforço para representar a ordem do corpo infantil em crescimento é, nesse sentido, um sustentáculo discursivo (ou epistemológico, se nos permitirmos o anacronismo do termo) que torna possível certas reflexões sobre o homem em total harmonia com a estrutura de mentalidades marcada pela filosofia experimental dos séculos XVII e XVIII. O médico e pedagogo Edouard Claparède (1873-1940) vê Rousseau como o inventor da criança pelo fato de ter concebido “a arte da educação  base ada numa concepção científica da criança” , e por isso o chama de “o Copérnico da pedagogia” . Segundo Claparède, o  Emílio  seria responsável por uma verdadeira revolução científica no campo das ciências da educação na medida em que, expulsando as causas finais do quadro explicativo, propunha o conhecimento da infância considerando a criança enquanto criança, e não mais, à maneira de uma teleologia, como um adulto em potência. Mais do que apresentar um método específico do campo prático da educação infantil, trata-se no  Emílio  de teorizar acerca do homem segundo o estilo das ciências modernas. Quando Rousseau fala da educação negativa ou da liberdade bem regrada, que são ideias fundamentais em seu modelo pedagógico, ele tem em vista a cientificidade   do saber pedagógico, e não a ambição vulgar de oferecer um guia aos pais para a criação dos filhos. Como o próprio autor explica a um de seus críticos mais ferozes, as ideias contidas no  Emílio  dizem respeito a um sistema geral do ponto de vista de seu  plano , e não de sua mera aplicação: “ Trata-se de um novo sistema de educação, cujo plano submeto à análise dos sábios e não de um método para os pais e as mães, com o o qual nunca sonhei ”  (cf. Cartas escritas da montanha , Carta V).  T. Kawauche, Emílio : esboço de uma apresentação (2019) 3 Vale a pena notar a diligência de Rousseau para inserir o debate sobre a educação de crianças no quadro de mentalidades das ciências de seu tempo:  Emílio se inscreve simultaneamente em duas correntes de pensamento. Por um lado, nosso autor posiciona-se de maneira crítica em relação aos manuais de civilidade, que remontam ao  De civilitate morum puerilium  (1530) de Erasmo; no plano prático da educação, essa linhagem cultural se verifica na moda da fábrica de jovens fidalgos treinados para a vida na corte, e nela encontram-se obras paradigmáticas como, por exemplo, os  Pensamentos sobre a educação (1693) de Locke. Por outro lado, Rousseau aprofunda o debate srcinado com os tratados de medicina que, sobretudo na primeira metade do século XVIII, chamam a atenção para as necessidades específicas do corpo infantil: é inegável a influência dos aforismos sobre as doenças das crianças de Boerhaave comentados por Van Swieten, bem como do tratado de Desessartz sobre a “educação corporal” na prim eira infância. Aos olhos de Jean-Jacques, tudo se passa como se o corpo de Emílio fosse o lugar de confluência dessas duas maneiras de imaginar a criança moderna. Podemos então reconhecer no inventário das fontes do  Emílio  uma espécie de síntese das discussões sobre civilidade e fisiologia. Opondo-se a médicos como o autor de Orthopédie   (1741), Rousseau defende que a retidão moral não se produz necessariamente por meio da rigidez disciplinar dos corpos; lemos no  Emílio que a criança deve crescer com os membros folgados nas roupas, uma vez que os trajes apertados da realeza induzem à vida sedentária; o mesmo argumento é válido para a crítica ao costume de se enfaixar os bebês nos cueiros: os enfaixados choram mais e, limitados fisicamente, acostumam-se a contar com a ajuda dos pais e a obedecê-los, ao passo que as crianças que crescem soltas tornam-se mais rapidamente robustas e independentes. Rousseau também é famoso por revolucionar os sentimentos da nobreza ao incentivar que as próprias mães amamentassem seus filhos em vez de delegar essa tarefa às amas-de-leite. É bem conhecido o trabalho de Elisabeth Badinter,  L’Amour en plus   (1980), que coloca o  Emílio como uma das principais fontes implicadas na tese da produção social do amor materno. Não há nenhum exagero ao reconhecermos que, mais do que qualquer outro teórico da educação, Rousseau retraça a cartografia dos discursos acerca da sociedade ao colocar, por assim dizer, o sentimento e a razão na mesma curva de nível. A individualização da criança, para emprestarmos uma expressão de Jacques Gelis, ocorre tanto no âmbito dos discursos médicos quanto no dos códigos de etiqueta. Enquanto o aspecto público do corpo infantil se verifica nas regras de decoro, na esfera privada os pais adquirem consciência da fragilidade física de seus filhos e da necessidade de cuidados médicos para o prolongamento da vida desses que eram vistos como o rebento do ramo familiar. Conectado ao espírito de seu tempo, Rousseau entende que as necessidades da criança são diferentes das do adulto, e é essa especificidade que ele deseja evidenciar em afirmações de extrema  T. Kawauche, Emílio : esboço de uma apresentação (2019) 4 perspicácia como “ a infância tem o seu lugar na ordem da vida humana ” , ou “é preciso considerar o homem no homem e a criança na criança ”.  * * * É sobre o homem que Rousseau pretende falar. Devemos levar a sério esse objetivo, pois até mesmo quando o autor do  Emílio  fala sobre religião, seus princípios não são teológicos, e sim humanistas. Na  Profissão de fé do vigário saboiano , opúsculo do livro IV, Rousseau disserta sobre a religião natural  , contrapondo-a às religiões reveladas que, de modo dogmático, ordenam a crença em verdades sobrenaturais, como a da natureza pecaminosa do homem. O viés crítico da hipótese da bondade natural do ser humano é abrangente, não pelo fato de Jean-Jacques ser um iconoclasta, mas por exigência do próprio método adotado: partindo de pressupostos mais simples e mais gerais, a investigação do escritor genebrino em torno do homem em estado de natureza afronta, de modo sistemático, o dogma do pecado srcinal pregado pelo cristianismo. Ora, devemos reconhecer que tanta formalidade por parte de um herege “de boa fé” , nem católicos nem protestantes poderiam tolerar. Desse modelo, vale recordar a primeira versão, apresentada no  Discurso sobre a srcem da desigualdade   (1755). Naquele escrito, o genebrino imagina o homem primitivo segundo a regra de “deixar de lado todos os livros”  (cf. V. Goldschmidt,  Anthropologie et politique  , p. 115-125): a representação srcinária do indivíduo em estado de natureza é abstrata  –   o que é bem conveniente numa análise científica  –  , limitando-se apenas a três traços característicos: a distinção elementar entre amor de si e amor-próprio, a piedade natural, e a capacidade radicalmente humana de se aperfeiçoar em resposta às dificuldades do ambiente; com base nesse esquema, são inferidas todas as faculdades humanas. De um ponto de vista heurístico, a maior vantagem dessa maneira de estudar o homem é não ter que pressupor faculdades complexas como a razão, as quais podem ser consideradas aquisições do espírito: eis aí o esquema geral do ser humano que, semelhante a uma escala de medidas, Rousseau emprega como instrumento de observação para julgar os homens existentes. Esse modelo antropológico simplificadíssimo é retomado no  Emílio , como vemos na seguinte passagem do livro I que é esclarecedora quanto ao plano da obra: “Devemos, pois, generalizar nossos pontos de vista e considerar em nosso aluno o homem abstrato, o homem exposto a todos os acidentes da vida humana” . Todo o trabalho filosófico de Rousseau é direcionado ao estabelecimento de uma ciência da natureza humana que fosse amplamente crítica, não apenas no tocante à Bíblia, mas também em relação aos cânones científicos fundados na lei natural. Pretender imaginar que no estado de natureza não é necessário supor a maldade humana significa fazer tabula rasa  de modelos como o do  Leviatã (1651) de Hobbes, cuja cientificidade até então muitos consideravam indiscutível. Veja-se por aí que a potência contestadora latente na história hipotética da criança vai de par  T. Kawauche, Emílio : esboço de uma apresentação (2019) 5 com o rigor metodológico de uma legítima ciência, ao menos da maneira como os pensadores modernos entendiam o rigor científico. Em  Emílio , Rousseau expõe a história conjetural da criança sob a égide do princípio da bondade natural do homem. Descreve-se ali a trajetória de um aluno imaginário que, do nascimento até o início da idade adulta, é acompanhado por seu extraordinário educador. Este intervém sabiamente a cada momento da história, tendo como missão desenvolver a mente e o corpo de seu pupilo, de tal modo que um dia Emílio tenha condições de escolher por conta própria a sociedade onde levará uma vida feliz. A longa dissertação é dividida em cinco livros, cada um correspondendo a certa faixa etária de Emílio: de zero a dois anos (livro I), de dois a doze anos (livro II), de doze a quinze anos (livro III), de quinze a vinte anos (livro IV), de vinte a vinte e cinco anos (livro V). Organizado dessa maneira, o problema da formação de Emílio pode ser examinado por partes  –   as etapas da vida  –   a serem analisadas uma a uma, sucessivamente. De um ponto de vista panorâmico, o movimento a que assistimos nos livros I, II e III é o da criança passando lentamente das necessidades puramente físicas e dos objetos sensíveis às necessidades adquiridas graças a certos hábitos e ao conhecimento de algumas ideias abstratas. A perspectiva filosófica adotada por Rousseau, como se sabe, é a do empirismo, ou seja, ele aceita o princípio segundo o qual somente os conhecimentos pautados pela observação e pela experiência dos sentidos são verdadeiros. No interior desse quadro, o leitor acompanha uma sucessão de estágios, começando com os instintos do bebê até chegar aos comportamentos produzidos na puberdade, e aos poucos vai se familiarizando com aquilo que filósofos como Montaigne e Pascal chamam de “ segunda natureza ” , em oposição à natureza primeira que, no entendimento das ciências empíricas, é inacessível. Seguir a natureza: eis a máxima estoica que Rousseau transpõe para o contexto da modernidade em sua teoria pedagógica. Emílio cresce de acordo com a natureza  segunda , ou seja, uma natureza   cuja experiência é sempre preparada com muita arte pelo educador. A arte da educação no Emílio, que para nós seria semelhante a um ensaio controlado de laboratório, consiste em ordenar a constituição da criança . Ora, o que isso significa? A palavra constituição  vem da medicina hipocrática; o termo em grego, katastasis  , refere-se não apenas ao corpo humano, mas também ao seu entorno, isto é, ao ambiente em que se situa. É o exame semiológico da constituição que leva o médico ao diagnóstico das doenças de seu paciente, podendo a boa ordem ser entendida como sinônimo de saúde. No caso do  Emílio , a constituição diz respeito também ao meio social, o que nos faz notar que as expressões “ordem da infância” , “ordem da natureza”   e “ordem civil”  são correlatas.
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