Auto-eficácia e sintomas depressivos em doentes com dor crônica

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  BACKGROUND: Self-efficacy is the belief about one’s personal ability to perform a task or specific behavior successfully. Self-efficacy is a key concept to manage chronic diseases and the studies about it are insufficient in Brazil. OBJECTIVE: To
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  Artigo Original Auto-eficácia e sintomas depressivos em doentes com dor crônica Self-efficacy and depressive symptoms in chronic pain patients M  ARINA    DE  G ÓES  S  ALVETTI 1 , C IBELE  A  NDRUCIOLI   DE  M  ATTOS  P IMENTA  2 , L   AIS  V  ERDERAME  L   AGE 3 , J OSÉ  O SWALDO   DE  O LIVEIRA    J UNIOR  4 , R  OBERTO   DE  O LIVEIRA   R  OCHA  5 1 Enfermeira e aluna de doutorado do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem na Saúde do Adulto da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (USP). Bolsista CAPES. 2 Enfermeira e professora titular do Departamento de Enfermagem Médico-Cirúrgica da Escola de Enfermagem da USP. 3 Médica reumatologista do Departamento de Clínica Médica da Disciplina de Reumatologia da Faculdade de Medicina da USP. 4 Médico neurocirurgião e diretor da Central da Dor do Hospital do Câncer A. C. Camargo. 5 Médico anestesiologista da Clínica de Dor do Hospital Santa Cruz. Recebido: 08/12/05 – Aceito: 23/08/06 Resumo Contexto:  Auto-eficácia é a crença na habilidade pessoal de desempenhar com sucesso tarefas ou de apresentar com-portamentos para produzir um resultado desejável. É conceito-chave para o adequado controle de doenças crônicas e estudos sobre o tema são incipientes no Brasil. Objetivo:  Avaliar a crença de auto-eficácia de pacientes com dor crônica e relacioná-la a variáveis sociodemográficas, de características da dor e à presença de sintomas depressivos. Métodos:  A amostra, de conveniência, foi de 132 sujeitos. Os instrumentos utilizados foram a Escala de Auto-Eficácia para Dor Crônica (AEDC) e o Inventário de Depressão de Beck (IDB). Resultados:  O escore médio de auto-eficácia foi 170,8 (DP = 56,7). Auto-eficácia menor foi observada nos pacientes com até 8 anos de escolaridade, quando com-parada à de pacientes com escolaridade entre 9 e 11 anos (p = 0,015). Auto-eficácia mais elevada foi observada nos doentes com dor menos intensa (p = 0,042). A Escala AEDC apresentou correlação negativa com o IDB (r = - 0,48; p < 0,01). Conclusões:  Os doentes com escolaridade de até 8 anos apresentaram auto-eficácia menor que os doentes que tinham entre 9 e 11 anos de escolaridade. Os pacientes com dor menos intensa e os doentes com menos sintomas depressivos apresentaram maior auto-eficácia. Salvetti, M.G. et al. / Rev. Psiq. Clín. 34 (3); 111-117, 2007  Palavras-chave:  Auto-eficácia, dor crônica, depressão, crenças. Abstract Background:  Self-efficacy is the belief about one’s personal ability to perform a task or specific behavior successfully. Self-efficacy is a key concept to manage chronic diseases and the studies about it are insufficient in Brazil. Objective:   To evaluate chronic pain patient’s self-efficacy belief and relate to social demographic variables, pain and depressive symptoms. Methods:  The convenience sample was 132 subjects. The instruments utilized were Chronic Pain Self-efficacy Scale (CPSS) in Portuguese version (AEDC) and Beck Depression Inventory (BDI). Results:  The self-effi-cacy average score was 170.8 (DP = 56.7). Low self-efficacy was observed in 8 year education level patients compared to 9 to 11 year education level (p = 0.015). Higher self-efficacy was observed in patients with lower pain intensity (p = 0.042). The AEDC was negative correlated to IDB depression (r = - 0.48; p < 0.01). Conclusions:  Patients with 8  year education level showed low self-efficacy than patients with 9 to 11 year education level. Subjects with lower pain intensity and fewer depressive symptoms showed higher self-efficacy scores. Salvetti, M.G. et al. / Rev. Psiq. Clín. 34 (3); 111-117, 2007  Key-words:  Self-efficacy, chronic pain, depression, beliefs. Endereço para correspondência: Marina de Góes Salvetti. Rua D. Pedro II, 20, ap. 11 – 18130-535 – São Roque, SP. Fone: (11) 4784-2032. E-mail: mgsalvetti@usp.br  112 Salvetti, M.G. et al. / Rev. Psiq. Clín. 34 (3); 111-117, 2007  Introdução  Auto-eficácia é a crença na habilidade pessoal de de-sempenhar com sucesso determinadas tarefas ou de apresentar determinados comportamentos para produ-zir um resultado desejável (Bandura, 1977).  A crença de auto-eficácia é composta pelas expec-tativas de auto-eficácia e de resultados. Expectativa de auto-eficácia é a convicção (crença) de que se pode apresentar o comportamento necessário para se atingir determinados resultados e expectativa de resultados é a crença (convicção) pessoal de que dado comportamento levará a determinados resultados. A expectativa de auto-eficácia é alimentada por quatro fontes de informação: realizações pessoais, observação de experiências, persuasão verbal e respostas emocio-nais. Realizações pessoais são as fontes de informação mais importantes para a expectativa de eficácia, pois são baseadas em experiências próprias. A observação de experiências refere-se à observação de pessoas de-sempenhando atividades sem conseqüências adversas, o que pode gerar no observador a expectativa de que ele também é capaz de realizá-las. A persuasão verbal é uma estratégia amplamente utilizada, na qual as pessoas são estimuladas a enfrentar situações que imaginavam superar suas habilidades. As respostas emocionais a situações estressantes eliciam respostas emocionais que podem interferir na percepção de competência pessoal. Minimizar o desgaste emocional melhora a percepção de auto-eficácia e o desempenho.O conceito de auto-eficácia pode ser aplicado a uma  variedade de condições de saúde, incluindo a de dor crônica. Estudos sobre auto-eficácia e dor mostraram que as crenças de auto-eficácia relacionam-se com incapacidade, tolerância à dor, manifestação de compor-tamentos dolorosos e sintomas depressivos (Litt, 1988; Cipher e Fernandez, 1997).Em um estudo que analisou a influência da auto-efi-cácia na tolerância e evitação da dor em pacientes com dor crônica, observou-se que a expectativa de tolerância predisse a tolerância real, e a expectativa de perigo pre-disse a evitação da dor (Cipher e Fernandez, 1997). Um estudo sobre efeitos da auto-eficácia nos compor-tamentos dolorosos de pacientes com artrite reumatóide mostrou correlação negativa entre escores de auto-eficá-cia, número de comportamentos dolorosos e sintomas depressivos, isto é, quanto maior a auto-eficácia, menor o número de comportamentos dolorosos e de sintomas depressivos (Buescher et al  ., 1991). Em estudos sobre a mediação da auto-eficácia na intensidade da dor, incapacidade e depressão, observou-se que dor intensa e baixa auto-eficácia contribuíram para o desenvolvimento de incapacidade e depressão em pacientes com dor crônica (Arnstein et al  ., 1999;  Arnstein, 2000).Da análise da relação entre a percepção de auto-eficácia e os resultados do tratamento em doentes com dor crônica, observou-se que a crença de auto-eficácia estava associada ao nível de funcionalidade e à resposta ao tratamento (Kores et al  ., 1990).O conceito de auto-eficácia em dor crônica é pouco explorado no Brasil e pode ser muito útil no tratamento desses pacientes. A percepção de auto-eficácia pode ser modificada com intervenções específicas, contribuindo para melhorar a incapacidade, a adesão ao tratamento, os sintomas depressivos e a tolerância à dor.Marks et al  . (2005) afirmam que o construto da auto-eficácia permite o desenvolvimento de intervenções capazes de afetar positivamente o comportamento, produzindo impacto significativo nos problemas rela-cionados às doenças crônicas.  As intervenções propostas na literatura para me-lhorar a auto-eficácia dos doentes incluem estratégias educativas, envolvimento dos familiares no tratamento, prática de exercícios, promoção do autocuidado, auto-avaliação das respostas emocionais e fisiológicas, enco-rajamento, desenvolvimento de técnicas de tomada de decisão e resolução de problemas. A abordagem pode ser individual ou em grupos pequenos, com ênfase na colaboração e nas estratégias de participação ativa dos doentes (Marks et al  ., 2005).Intervenções no modelo comportamental-cognitivo também podem ser utilizadas para melhorar a auto-eficácia dos doentes.O objetivo deste estudo foi avaliar a crença de auto-eficácia de pacientes com dor crônica e relacioná-la a  variáveis sociodemográficas, de características da dor e à presença de sintomas depressivos. Casuística e método O estudo foi desenvolvido em quatro serviços de saúde simultaneamente: Ambulatório de Clínica Médica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Uni- versidade de São Paulo – Ambulatório de Reumatologia (Serviço A), Ambulatório do Grupo de Dor do Hospital Santa Cruz (Serviço B), Ambulatório da Central da Dor do Hospital do Câncer A. C. Camargo (Serviço C) e Serviço de Medicina Preventiva – (Qualivida) Unimed São Roque (Serviço D). Nos ambulatórios onde se realizou a coleta de dados, o projeto foi submetido às Comissões de Ética em Pesquisa e em todas obteve aprovação (Comissão de Ética para a Análise de Projetos de Pesquisa do Hospital das Clínicas – FMUSP, Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Santa Cruz e Comissão de Ética em Pesquisa do Hospital do Câncer). No Serviço de Medicina Preventiva da Unimed São Roque, o projeto foi encaminhado à Diretoria da Unimed São Roque e aos médicos responsáveis pelo Grupo de Dor, pois o Serviço não contava com Comissão de Ética em Pesquisa e sua realização foi aprovada. A amostra de conveniência foi constituída por 132 pacientes com dor crônica não oncológica de etiologia  113 Salvetti, M.G. et al. / Rev. Psiq. Clín. 34 (3); 111-117, 2007   variada. Os critérios de inclusão foram: dor havia pelo menos 6 meses, diagnóstico médico de dor crônica, ida-de superior a 18 anos e 4 anos de escolaridade, no míni-mo. Dos avaliados, 43 eram do Hospital das Clínicas, 23, do Hospital Santa Cruz, 38, do Hospital do Câncer e 28, da Unimed São Roque. Os dados foram coletados entre os meses de setembro de 2003 e fevereiro de 2004.  A tabela 1 apresenta as principais características da amostra estudada.Consentimento Informado e responderam ao Instrumen-to de Identificação, à Chronic Pain Self-Efficacy Scale (CPSS)   (Anderson et al  .,   1995), validada para a língua portuguesa (Escala de Auto-Eficácia para Dor Crônica [AEDC]) (Salvetti e Pimenta, 2005) e ao Inventário de Depressão de Beck (IDB) (Beck, 1982; Gorenstein e  Andrade, 1998). Os doentes optaram por responder aos instrumentos sozinhos ou acompanhando a leitura com a pesquisadora.O Instrumento de Identificação foi composto por da-dos demográficos e de características da dor, incluindo uma escala numérica para mensuração da intensidade da dor. A CPSS foi desenvolvida para medir a percepção de auto-eficácia e a capacidade de lidar com as conseqüên-cias da dor em pacientes com dor crônica. É composta de 22 itens divididos em três domínios: auto-eficácia para a dor (AED), auto-eficácia para a funcionalidade (AEF) e auto-eficácia para outros sintomas (AES). Cada crença é avaliada numa escala do tipo Likert que varia de 10 a 100 e corresponde à certeza que se tem em relação a cada item. É possível obter um escore para cada domínio (AED, AEF, AES), somando-se os valores de cada um dos itens daquele domínio e dividindo-se pelo número de itens. O AED possui 5 itens, o AEF, 9 e o domínio AES, 8 itens. O escore por domínio varia entre 10 e 100. A soma dos escores dos três domínios fornecerá o escore total da escala, que varia entre 30 e 300 (Anderson et al  ., 1995). A escala não estabelece pontos de corte para auto-eficácia. Na validação para a língua portuguesa, foram confirmados os três domínios da escala srcinal e obteve-se boa confiabilidade para a escala total (  α  de Cronbach = 0,94) e para os domínios AED, AEF e AES, em que o α  Cronbach foi de 0,76, 0,89 e 0,92, respectivamente (Salvetti e Pimenta, 2005).O Inventário de Depressão de Beck (IDB) validado para a língua portuguesa por Gorenstein e Andrade (1998)   é composto de 21 itens com afirmações gradua-das de 0 a 3, que refletem a intensidade do sintoma. O escore máximo é 63 (maior nível de depressão). As categorias avaliadas nos 21 itens são as seguintes: humor deprimido, pessimismo, sensação de fracasso, perda de satisfação, sentimentos de culpa, sensação de punição, auto-rancor (ódio, aversão), auto-acusação, ideação suicida, choro, irritabilidade, isolamento social, indeci-são, imagem corporal alterada, inibição para o trabalho, anormalidades do sono, fatigamento, perda de apetite, perda de peso, preocupações somáticas e perda de li-bido. Segundo Gorenstein e Andrade (1998),   os pontos de corte para indivíduos sem diagnóstico prévio de de-pressão são os seguintes: 0 a 15: ausência de depressão; 16 a 20: disforia; e acima de 20: depressão. Para analisar as associações entre as escalas e as demais variáveis quantitativas, foram utilizados coefi-cientes de correlação de Pearson e de Spearman, no caso de variáveis sem distribuição normal. Alternativa- Tabela 1. Características sociodemográficas e da dor dos doentes, São Paulo, 2004 CaracterísticasAmostra totalSexo  (n = 132)FemininoMasculino116 (87,9%)16 (12,1%) Idade (n = 132)Média (DP)MedianaVariação45,91 (12,68) 45,0022 – 82 Escolaridade (n = 132)4 a 8 anos 9 a 11 anos 12 anos e mais 48 (36,3%)46 (34,8%)38 (28,7%) Renda* (n = 109)Média (DP)MedianaVariação3,31 (3,24)2,000,4 – 20,8 Etiologia da dor  (n = 132) FibromialgiaDor neuropáticaOrigem desconhecidaCefaléia Outras**72 (54,5%)32 (24,2%)8 (6,1%)6 (4,5%)14 (10,6%) Intensidade da dor  (n = 132)Média (DP)MedianaVariação6,83 (2,3) 71 – 10 Tempo de dor  (em anos) (n = 132) Média (DP) Mediana Variação7,4 (7,7)50,5 – 40 *A renda foi obtida em salários mínimos (R$ 240,00) e o n foi 109, pois nem todos os sujeitos da pesquisa souberam ou quiseram especificar a renda.**Outras: artrite, LER/DORT, tendinite, bursite, síndrome miofascial, síndrome do intestino irritável e síndrome da articulação temporomandibular. Os dados foram coletados antes ou depois da consul-ta médica, nos três ambulatórios citados. No Serviço de Medicina Preventiva Qualivida – Unimed São Roque, os doentes faziam parte de um programa de atendimento multiprofissional em grupo para o controle da dor crônica e responderam à pesquisa no início do progra-ma. Os doentes assinaram, em duas vias, o Termo de  114 Salvetti, M.G. et al. / Rev. Psiq. Clín. 34 (3); 111-117, 2007  mente, as variáveis quantitativas foram categorizadas segundo os tercis da distribuição e, assim, transforma-das em qualitativas. Nesse caso, as associações foram analisadas comparando-se as médias dos escores em cada categoria. Para comparar as médias, utilizou-se a Análise de Variância (Anova), seguida pelo Método de Comparações Múltiplas de Tukey para localizar as diferenças duas a duas. A suposição de normalidade, necessária para a realização dos testes, foi verificada pelos coeficientes de assimetria e curtose, diagramas do tipo box-plot   e gráficos normais de probabilidade. Para se analisar a existência de correlação entre crença de auto-eficácia e depressão, utilizou-se o Teste de Corre-lação de Pearson.O nível de significância adotado foi 0,05. O programa estatístico utilizado para efetuar os cálculos foi o SPSS  versão 11.0. Resultados  A média, o desvio-padrão e a mediana do escore de auto-eficácia obtidos nos três domínios e na escala total estão apresentados na tabela 2.escolaridade entre 4 e 8 anos (Ensino fundamental), quando comparada aos doentes com escolaridade entre 9 e 11 anos (Ensino médio) (p = 0,015). O grupo com as maiores médias de auto-eficácia foi o com escolaridade entre 9 e 11 anos (Ensino médio). Não se observou uma relação linear do tipo quanto maior a escolaridade, maior a auto-eficácia, o que justifica a falta de correlação linear na análise quantitativa. As variáveis sexo, idade e renda não apresentaram diferença em relação ao es-core de auto-eficácia. Vale lembrar que a comparação da variável sexo foi prejudicada pela predominância do sexo feminino. Observou-se relação significativa entre auto-eficácia e intensidade da dor, isto é, auto-eficácia maior foi ob-servada nos pacientes com dor menos intensa (menor que 5), quando comparada aos doentes que classificaram a intensidade de sua dor como moderada (entre 5 e 7) (p = 0,042) e intensa (8 a 10) (p = 0,042). A auto-eficácia não apresentou diferença em relação ao tempo de dor. A distribuição dos escores do IDB na amostra estuda-da, por faixa de escore, como proposto por Gorenstein e  Andrade (1998), foi de 0-15 (52,3%; n = 69), 16-20 (18,9%; n = 25) e > 21 (28,8%; n = 38). Nas subamostras dos dife-rentes serviços de saúde estudados, não houve diferença significativa em relação aos escores do IDB. Observa-ram-se, em cerca de um quarto dos avaliados, escores iguais ou superiores a 21, indicativos de depressão. A correlação entre a Escala de Auto-Eficácia para Dor Crônica (AEDC) e o Inventário de Depressão de Beck (IDB) foi negativa (r = - 0,48) e estatisticamente significa-tiva (p < 0,01). O mesmo ocorreu com os domínios da es-cala, quando analisados separadamente, sendo r = - 0,29, r = - 0,41 e r = - 0,55, para os domínios AED, AEF e AES, respectivamente, indicando que quanto maior o escore na Escala de Auto-Eficácia (AEDC), menor o escore do IDB, isto é, escores elevados de auto-eficácia estiveram relacionados a menos sintomas depressivos. Discussão Dor crônica é uma experiência complexa, multideter-minada e de difícil avaliação e controle, cuja etiologia e cujo tratamento não se restringem ao modelo clássico de doença. O modelo comportamental-cognitivo tem auxiliado na compreensão de como os comportamentos de dor são adquiridos e de como as crenças e erros cognitivos influem na apreciação e vivência de quadros dolorosos crônicos. Nessa ótica, a atribuição de signi-ficado ao fato “ter dor crônica” e o estilo de apreciação dos eventos, mais do que a etiologia ou a localização da dor, influem no modo como se lida com a situação. O conceito de auto-eficácia pode ser útil no manejo da dor crônica e na modificação de comportamentos pouco adaptativos relacionados à dor. As intervenções cognitivo-comportamentais podem modificar a crença de auto-eficácia e melhorar os resultados do tratamento (Dolce, 1987). Um estudo desenvolvido por Nicholas Tabela 2.  Distribuição dos escores da Escala de Auto-Eficácia para Dor Crônica (AEDC) por domínios e para a escala total, São Paulo, 2004 Crença de auto-eficácia (n = 132)Média (DP)Mediana Auto-Eficácia para Dor (AED)52,21(19,52)52,00Auto-Eficácia para Funcionalidade (AEF)62,37(24,68)63,30Auto-Eficácia para outros Sintomas (AES)56,24(20,32)55,00Escala de Auto-Eficácia para Dor Crônica (AEDC)170,80(56,66)173,05 O escore médio da Escala de Auto-Eficácia (AEDC) foi de 170,8 (DP = 56,7) e a mediana foi de 173,05, consi-derando-se o total da amostra. Observa-se que a média e a mediana foram semelhantes e a variação foi grande (66,40 a 296,9), sugerindo a existência de escores discre-pantes (8 sujeitos tiveram escores abaixo de 80 e 3 esco-res acima de 270). Em relação aos domínios da escala, a percepção de auto-eficácia mais elevada foi observada no domínio funcionalidade (AEF), seguido pelo domínio sintomas (AES) e controle da dor (AED). Não houve di-ferença significativa entre as subamostras dos diferentes serviços de saúde, onde o estudo foi realizado. As relações entre os escores de auto-eficácia e as  variáveis sociodemográficas e de características da dor são apresentadas na tabela 3. A auto-eficácia diferiu em relação à escolaridade, isto é, auto-eficácia menor foi observada nos doentes com  115 Salvetti, M.G. et al. / Rev. Psiq. Clín. 34 (3); 111-117, 2007  Tabela 3.  Relação entre os escores de auto-eficácia e variáveis demográficas relacionadas à dor, São Paulo, 2004 VariávelAED*média (DP)AED*medianaAEF**média (DP)AEF**medianaAES***média (DP)AES***medianaAEDC#média (DP)AEDC#medianaTesteSexo Feminino (n = 116)Masculino (n = 16)51,71 (19,21)55,88 (21,91)(p = 0,425)52,0054,0061,19 (24,02)70,88 (28,40)(p = 0,142)62,7686,6055,63 (20,14)60,70 (21,72)(p = 0,351)55,0060,00168,50 (55,42)187,45 (64,42)(p = 0,211)170,90206,58T deStudent Idade 22 a 40 anos (n = 47)41 a 50 anos (n = 40)51 a 82 anos (n = 45)54,55 (19,04)48,00 (19,57)53,51 (19,80)(p = 0,256)56,0046,0054,0061,57 (22,46)58,69 (27,39)66,47 (24,31)(p = 0,338)62,2059,4171,1054,28 (19,74)52,50 (20,53)61,61 (20,04)(p = 0,084)53,7550,0058,75170,41 (53,39)159,19 (59,84)181,53 (56,25)(p = 0,193)174,15153,87195,85Anova Escolaridade 4 a 8 anos (n = 48)9 a 11 anos (n = 46)Mais de 11 anos(n = 38)46,67 (19,32)55,65 (19,10)55,05 (19,18)(p = 0,046)47,0056,0054,0055,61 (24,59)68,10 (23,48)63,96 (24,80)(p = 0,043)50,5070,5571,6550,81 (16,34)60,73 (22,54)57,66 (20,96)(p = 0,052)51,2561,2560,63153,09 (53,58)184,48 (56,12)176,60 (56,70)(p = 0,019)150,98191,13187,98Anova Renda (n = 109)< de 1,5 SM1,5 a 3,0 SMMais de 3,0 SM52,38 (18,92)51,18 (19,74)52,22 (52,00)(p = 0,965)50,0052,0052,0062,68 (25,14)60,18 (22,88)63,07 (26,12)(p = 0,866)64,4160,5071,1055,90 (18,26)56,47 (18,99)57,22 (22,51)(p = 0,960)58,7554,3855,00170,95 (52,48)167,83 (55,30)172,45 (61,52)(p = 0,938)177,59160,38184,50Anova Intensidade da dor < de 5 (n = 23)5 a 7 (n = 47)8 a 10 (n = 62)62,35 (20,29)49,83 (16,85)50,26 (20,21)(p = 0,022)62,0050,0050,0074,50 (19,75)60,86 (26,31)59,01 (24,01)(p = 0,031)77,7067,7055,5061,85 (19,25)53,48 (21,11)56,25 (19,87)(p = 0,272)61,2553,7554,38198,69 (51,41)164,11 (55,15)165,52 (57,37)(p = 0,033)208,80169,86163,07Anova Tempo de dor < de 3 anos (n = 41)3 a 7 anos (n = 45)> de 7 anos (n = 46)57,41 (19,36)48,18 (18,88)51,52 (19,64)(p = 0,086)54,0050,0052,0064,87 (26,03)60,40 (24,10)62,07 (24,36)(p = 0,703)66,6062,2062,7658,66 (20,43)52,22 (21,06)58,02 (19,03)(p = 0,262)55,0052,5055,63180,94 (56,70)160,73 (56,14)171,60 (56,66)(p = 0,256)185,42163,53173,14Anova AED: Auto-Eficácia para a Dor; AEF: Auto-Eficácia para a Funcionalidade; AES: Auto-Eficácia para outros Sintomas; AEDC: Escala de Auto-Eficácia para Dor Crônica. et al  . (1991) implementou intervenções de natureza comportamental-cognitiva associadas à fisioterapia e observou melhora na funcionalidade, redução no uso de medicação para a dor, redução dos pensamentos disfuncionais sobre dor e melhora no uso de estratégias ativas de coping  .Um estudo desenvolvido por Nicholas  et al  . (1992), para verificar a eficácia do tratamento cognitivo-com-portamental que incluía treino de relaxamento em comparação com um grupo controle para pacientes com dor lombar crônica, constatou melhora significativa na funcionalidade, no uso de estratégias ativas de coping   e nas crenças de auto-eficácia, além de redução no uso de medicamentos. Essas diferenças se mantiveram no seguimento, após 6 meses para o uso de estratégias de coping   e em menor grau para as crenças de auto-eficácia e para funcionalidade.Neste estudo, a média de idade foi de 46 anos e a intensidade média da dor, de 6,8 (Tabela 1), dados que se assemelham aos de estudos realizados nos EUA, que apresentaram idade média de 44 anos e intensidade mé-dia de dor de 6,0 e 6,1 (Arnstein et al  ., 1999; Arnstein, 2000). Os doentes da presente pesquisa apresentaram média de tempo de dor de 7,4 anos (Tabela 1) e apenas 28,7% tinham mais de 11 anos de escolaridade (Tabela 3). Nos estudos desenvolvidos nos EUA, o tempo médio de dor foi de 3 anos e 68% e 72% dos doentes tinham mais de 11 anos de escolaridade (Arnstein et al  ., 1999;  Arnstein, 2000). O tempo de dor e a escolaridade no presente estudo diferiram dos estudos americanos. O escore médio de auto-eficácia observado no estudo de Arnstein et al  . (1999) foi de 151 (n = 136) e no estudo de Arnstein (2000) foi de 143 (n = 126), valores pouco inferiores ao obtido no presente estudo (171; n = 132), com amostras de tamanho semelhantes. É difícil classificar o escore de auto-eficácia como baixo ou adequado, pois não há pontos de corte esta-belecidos, há poucos dados para comparação e não há estudos nacionais sobre o tema. Não se conhece também a partir de que escores de auto-eficácia os resultados do tratamento ou a incapacidade são melhores ou piores. Há necessidade de estudos que estabeleçam pontos de corte indicativos de auto-eficácia adequada ou insufi-ciente, que correlacionem esses valores com resultados
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