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  A diferença faz a diferença? Pensando a questão da cor em nossos dias1 Emanuel Freitas2 Boa tarde. Quero agradecer aqui ao convite da organização deste Seminário, na pessoa da profa Dra Ady Canário. Agradecer a presença e atenção de todos vocês que aqui estão. Agradecer, na pessoa da mediadora, os demais participantes desta mesa. Eu vou abrir mão de, nestes vinte minutos que me foram dados, fazer um di
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   A diferença faz a diferença? Pensando a questão da cor em nossos dias 1   Emanuel Freitas 2   Boa tarde. Quero agradecer aqui ao convite da organização deste Seminário, na pessoa da profa Dra Ady Canário. Agradecer a presença e atenção de todos vocês que aqui estão. Agradecer, na pessoa da mediadora, os demais participantes desta mesa. Eu vou abrir mão de, nestes vinte minutos que me foram dados, fazer um diálogo com um viés mais teórico, conceitual, para concentrar- me em “cenários” que t enho percebido em diversos lugares e que, transversalmente ou diretamente, têm relação com a questão da “cor” em nossos dias, tal como prometi desde o título de minha contribuição a esse evento. Recuperei pequenos fragmentos, pequenas percepções que foram esquecidas e deixadas à crítica roedora dos meus neurônios e, alguns, à crítica roedora dos arquivos do meu computador. Depois, muito en passant  , oferecerei possibilidades de reflexão teórica. 1ª cena: 2014 foi o ano de mais uma excepcional obra ficcional da Rede Globo de Televisão. “Verdades Secretas”. Não por acaso, novamente (ou naturalmente, alguns diriam) a personagem central era uma linda moça branca. Natural. Normal. Obvio. Mas, quero ir além dessa crítica que, apesar de crítica, talvez soe como clichê. O que mais me chamou a atenção, nesta novela das 11, foi que, de toda a agência de modelos, apenas 1 era negra. Uma! Talvez, a emissor estivesse “cumprindo a cota”. Uma! E, mais ainda, foi justamente esta modelo, cujo nome era (alguém aí lembra?) Lyris, justo ela foi violentada sexualmente pelo personagem Alex e assassinada por seu namorado, um transtornado, ciumento, cujo nome era Edgar. Isso chamou muito minha atenção: a única modelo negra da agência é aquela que é violentada sexualmente (quem não lembra do velho ditado brasileiro “negra boa para foder” 3 ?) e que depois será 1  Palestra proferida na III SEADIS (Semana de Acessibilidade e Diversidade) da UFERSA. 2  Doutorando em Sociologia (UFC) e Professor Assistente I de Sociologia (UFERSA Campus  Pau dos Ferros). Contato: emanuel.freitas@ufersa.edu.br. 3  Sobre isso, ler o primeiro capítulo de Casa Grande &Senzala  (FREYRE, 2006).  assassinada por seu próprio namorado, que só poderia ser um “animal ciumento”. Por qual razão essa atriz, Jéssica Córez, não poderia ter interpretado a doce Angel? 2ª cena: em 21 de outubro deste ano o jornalista Alexandre Garcia, durante comentário na Globo News, afirmou que “o Brasil não era racista até criarem as cotas” . O referido  jornalista, dirigido por um outro, Ali Kamel, autor de um livro que vende-se a R$ 5 em bancas de jornal (“Não somos racistas”), afirmara ali, na tela, sem nenhum compromisso com a realidade, que o racismo é um subproduto da política de ações afirmativas em vigor no Brasil. Então, ficamos assim combinados: sua colega de emissora, Maria Júlia, agredida verbalmente 3 meses antes em uma rede social, só o foi por causa das cotas! Destaque-se que, logo depois das ofensas impetradas no  facebook  , Maju recebeu uma certa solidariedade de seus colegas que utilizaram a hastag #somostodosmaju. O mesmo aconteceu quando das ofensas contra a atriz Taís Araújo. Nada mais personalista, individualizante do que isto: não foi à Maju ou à Taís que a ofensa foi dirigida, mas a um grupo. Ser Maju, jornalista da emissora que monopoliza a radiodifusão, não é o mesmo que ser uma negra de qualquer lugar desse país. 3ª cena: o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), na seção do Ceará, lançou, em  julho último, uma massiva campanha para novos filiados, tendo à frente o senador Tasso Jereissati. Nos 30 segundos da peça publicitária duas imagens chamaram minha atenção: a representação da medicina e da engenharia. Ambas corporificadas em corpos masculinos (ratificando a ideia de profissões liberais e aristocráticas como próprias de homens) e, obviamente, em corpos brancos. O engenheiro, inclusive, mostra-se dando ordens a pedreiros que são, naturalmente, negros. Podemos juntar tal peça publicitária do partido, que se mostra veementemente contrário às cotas e à tudo que estamos aqui discutindo, com a ilustre fala de Alexandre Garcia: são complementares. 4ª cena: em setembro último, durante pesquisa doutoral, fui à missa de abertura do retiro das autoridades da Comunidade Católica Shalom, presente em vários lugares do Brasil e do mundo. Suas maiores casas de missão estão em Fortaleza, Aracaju, Salvador e Rio de Janeiro. Lugares em que considerável é a população negra. Pois bem, nesse retiro de autoridades, para onde vieram mais de 200 autoridades da comunidade, quase inexistia alguém negro. Ali estavam reunidos os dominantes” da Comunidade, vamos assim dizer, comunidade esta que é reconhecida pela pertença de classe de seus  adeptos, bem como pela classe à qual destinam sua “ação missionária”: apesar de , no discurso, ser “aos pobres”, não são estes que vemos em suas fileiras. Só um adendo: segundo o Censo 2010, ficamos a saber qual seria a religião “negra” por excelência, ou seja, aquela em que os negros autodenominados estão em maior percentual. São os “neopentecostais” (IURD, Mundial, Internacional) quem mais abocanham fiéis de cor negra, exatamente porque estes são os missionários que vão aos rincões, às periferias, aonde estão os pobres e negros. A RCC está, predominantemente, nos grandes centros urbanos, quase inexistindo negritude entre suas autoridades ou mesmos estre suas “estrelas cantoras”.  5ª cena: O perfil médio de quem participou da manifestação contra o atual governo federal, neste domingo (16/08), em Belo Horizonte é: Cor branca, renda superior a cinco salários mínimos, estudou curso superior, eleitor do senador Aécio Neves e do PSDB, a favor do porte de arma e da redução da maioridade pena, contra o aborto, cotas raciais e programas como o Mais Médicos e o Bolsa Família. Foi o que traçou um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A pesquisa ouviu 434 pessoas presentes na manifestação realizada na Praça da Liberdade, na região Centro-Sul de BH. 64,7% concordam totalmente ou em parte que as cotas raciais são um erro, e o governo deve acabar com elas; 52,1% concordam totalmente ou em parte que os nordestinos têm menos consciência política na hora de votar do que as pessoas de outras regiões do país; 74,5 concordam totalmente ou em parte que pessoas ajudadas por programas sociais, como o Bolsa Família, ficam preguiçosas; 61,3% discordam totalmente ou em parte que é bom trazer médicos cubanos para atuar na rede pública de saúde; 58,8% se diziam com a cor de pele branca; 64,5% estudaram superior incompleto, completou ou fez pós-graduação; 56,6% têm rendimento mensal da família superior a cinco salários mínimos. Findo aqui as “cenas” por mim problematizadas e apresento, a seguir, uma proposta de problematização mais conceitual. Com demasiada frequência, os estudos que versam sobre a temática da afro-descendência operam abundantemente com a noção de identidade, com a ideia de ser negro, ou mesmo com a substantivação do que seria o estado de ser negro: a negritude. Em muitas outras circunstâncias, a alusão a uma cultura negra ou  afrodescendente é realizada quando falamos não somente de uma música, de uma pintura ou de uma literatura produzida por sujeitos/indivíduos/pessoas que pertencem a tal agrupamento racial-étnico-político-cultural(...), mas sim de uma música, de uma pintura, de uma dança que é, ela mesma, qualificada de negra ou afro-descendente. Neste sentido, podemos falar, no sentido amplo, irrestrito, geral (e, por essa mesma razão, vago, impreciso, misterioso e etéreo) de uma cultura afro-descendente? Em Cartografias do Desejo, Felix Guattari & Suely Rolnik (1986, pp. 69, 69) irão precisar a diferença entre identidade e singularidade indicando que a identidade consiste em um plano específico dos processos de subjetivação, sendo entendida como “aquilo que faz passar a singularidade de diferentes maneiras de existir por um só e mesmo quadro de referência identificável ”. Neste sentido, portanto, “a identidade cultural constitui, a meu ver, um nível da subjetividade: o nível da territorialização subjetiva ” (p. 73). Para Felix Guattari & Suely Rolnik, as forças de resistência às formas opressivas que instauram padrões de sobrecodificação e de tradutibilidade geral das expressões semióticas singulares no contexto do capitalismo mundial integrado  –  toda esta máquina de resistência  –  não podem operar no registro do reconhecimento. Em outras palavras, não podem operar pela via da representação (Deleuze, 1988/2009), mas pela via da criação, da invenção e da experimentação de novos possíveis, de novas singularidades e formas de vida não imediatamente traduzíveis, territorializáveis e referenciáveis àquilo que já conhecemos, mas perdemos e devemos reencontrar. Para mim, esta é a mola-mestra da problemática das minorias: é uma problemática da multiplicidade e da pluralidade, e não uma questão de identidade cultural, de retorno ao idêntico, de retorno ao arcaico. (...) Assim, poderíamos dizer que toda vez que uma problemática de identidade ou de reconhecimento aparece em determinado lugar, no mínimo estamos diante de uma ameaça de bloqueio e de paralisação do processo (Guattari & Rolnik, 1986, p. 74). Homi Bhabha (1998), ao discorrer sobre essa questão, alerta para os problemas da essencialização da negritude em decorrência da defesa da herança cultural, uma vez que para esse autor as diferenças sociais não são simplesmente dadas à experiência através de uma tradição cultural já autenticada. Para Bhabha (1998), a
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