A Antropóloga e a Máquina Fotográfica em Movimento

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  Para além da dimensão estética, as práticas do graffiti possuem uma dimensão dos usos que é igualmente relevante, a qual desloca e cria fronteiras, fazendo emergir cidades imaginadas que se sobrepõem à cidade planejada. Pesquisar tais usos requer o
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   Reuni—n de Antropolog’a del Mercosur Ð Del 4 al 7 de diciembre de 2017 1   GT 23 - IMçGENES Y CIUDADES: LA IMAGEN EN LA INVESTIGACIîN ETNOGRçFICA EN CIUDADES A ANTROPîLOGA E A MçQUINA FOTOGRçFICA EM MOVIMENTO Autora: Gabriela Leal *   Resumen:   Para alŽm da dimens‹o estŽtica, as pr‡ticas do graffiti possuem uma dimens‹o dos usos que Ž igualmente relevante, a qual desloca e cria fronteiras, fazendo emergir cidades imaginadas que se sobrep›em ˆ cidade planejada. Pesquisar tais usos requer o acompanhamento dos processos de  pintura na rua e um intenso deslocamento, colocando desafios ˆ pr‡tica etnogr‡fica. O uso da m‡quina fotogr‡fica surgiu neste contexto e me levou a desenvolver uma atividade ao mesmo tempo reflexiva e produtiva. No entanto, as fotografias ganharam novas dimens›es dentro da  pesquisa, levantando perguntas n‹o previstas: como produzir uma narrativa etnogr‡fica dos usos da rua atravŽs de palavras e imagens? Partindo desta pergunta e deste contexto, procuro lan•ar um olhar sobre as possibilidades de constru•›es de narrativas a partir do processo de edi•‹o de document‡rios e da composi•‹o gr‡fica dos  zines  e publica•›es alternativas, os quais podem fornecer modelos e inspira•›es para este segundo campo etnogr‡fico. Palavras-chave:  graffiti; etnografia multisituada; narrativa etnogr‡fica; fotografia * Desenvolve pesquisa de mestrado cujo projeto se intitula ÒQuem desenha na cidade, desenha a cidade? As ÒS‹o PaulosÓ fabricadas pelos usos da rua das pr‡ticas do graffitiÓ, iniciada em dezembro de 2015 e desenvolvida no ‰mbito do Programa de P—s-Gradua•‹o em Antropologia Social da Universidade de S‹o Paulo (PPGAS-USP), sob orienta•‹o do Prof. Dr. Heitor Frœgoli Jr. e com apoio de bolsa concedida pela Coordena•‹o de Aperfei•oamento de Pessoal de  N’vel Superior Ð CAPES. E-mail: gabriela.leal@usp.br.   Reuni—n de Antropolog’a del Mercosur Ð Del 4 al 7 de diciembre de 2017 2   ÒVejo nesse caminho arriscado uma possibilidade de criar novas perspectivas, e, como em todo esfor•o de rompimento de fronteiras, lidamos com nossos pr—prios limitesÓ (AndrŽa Barbosa) A pesquisa antropol—gica Ž marcada por vivncias espiraladas, que promovem uma reflexividade cont’nua acerca do que se foi e do que ainda est‡ por vir. Encontra-se em constante constru•‹o, por vezes por uma, mas na maior parte das vezes por muitas m‹os. Escolher este  percurso Ž optar por um olhar e por uma forma de produ•‹o direta de conhecimento, aspecto inerente ao trabalho etnogr‡fico que ganha outras camadas na medida em que este fazer passa a incluir a produ•‹o de imagens. Nas p‡ginas que se seguem, procurou-se refletir sobre as dimens›es  produtivas e reflexivas que a produ•‹o fotogr‡fica adiciona ˆ experincia etnogr‡fica, seja durante o trabalho de campo, seja no processo de escrita. Um discuss‹o nova? Certamente n‹o. Muitas  p‡ginas foram escritas a respeito da rela•‹o nem sempre harmoniosa entre antropologia e imagem, que Òpassou por inœmeras dificuldades desnecess‡riasÓ (Becker, 1996, p. 95). O que se prop›e aqui n‹o Ž a retomada e revis‹o de tais discuss›es, mas, ˆ sua luz, busca-se compartilhar pensamentos que inspirem outras possibilidades estŽticas no fazer antropol—gico. Um dos pontos de partida para tal elabora•‹o foi a minha experincia e trajet—ria etnogr‡fica na pesquisa de mestrado, ainda em curso, a respeito dos usos da rua das pr‡ticas do graffiti em S‹o Paulo, onde me deparei Ð este Ž o verbo exato, como relato a seguir Ð com a m‡quina fotogr‡fica e a  produ•‹o de imagens, que por fim, assumiram papel central na elabora•‹o do conhecimento e nos di‡logos estabelecidos em campo, ao mesmo tempo que trouxeram quest›es atŽ ent‹o n‹o previstas. O in’cio do processo de escrita, por sua vez, me levou a estabelecer uma nova rela•‹o com as imagens que eu produzira, trazendo ˆ tona um outro conjunto de desafios que me instigaram a  buscar em experincias pessoais em outros campos Ð como  zines  e publica•›es independentes 1  Ð e em outros processos de constru•‹o de narrativa Ð como o document‡rio Ð inspira•›es para a 1  Integro o coletivo APRA‚A, formado no in’cio de 2015, por mim e por uma amiga, Larissa Molina, com o objetivo de discutir diferentes dimens›es do direito ˆ cidade, tomado aqui enquanto categoria pol’tica, atravŽs de projetos culturais no campo das artes visuais e publica•›es independentes. Ver APRA‚A. Dispon’vel em: <http://www.apraca.cc>. Acesso em 22 de abril de 2017.   Reuni—n de Antropolog’a del Mercosur Ð Del 4 al 7 de diciembre de 2017 3   elabora•‹o da escrita textual e visual do meu trabalho. Nesta pesquisa estŽtica e metodol—gica assumi o desafio de explorar novas tŽcnicas narrativas de colabora•‹o entre imagem e texto que Òpossam contribuir para uma forma de divulga•‹o do conhecimento que seja menos autorit‡ria, mais interativa e talvez mais evidente no seu processo de reconstru•‹o da realidade que se quer revelarÓ (Novaes, 2009, p. 44). Mas, antes de avan•ar nestas contribui•›es, Ž preciso voltar um passo e apresentar a minha  pesquisa, cujo contexto, objeto e quest›es s‹o fundamentais para a compreens‹o dos empreendimentos e buscas estŽticas que venho trilhando. A hist—ria desta pesquisa come•a, pois, com os pŽs no asfalto, em meio a latas de  spray , rolinhos e gal›es de tinta l‡tex; exposta ˆs interferncias e surpresas meteorol—gicas de S‹o Paulo; envolta pela diversidade de rela•›es capazes de se darem no espa•o urbano e por um intenso (e extenso) deslocamento que esta mesma cidade nos leva a fazer para explor‡-la. S‹o corpos, tintas e movimentos que se entrela•am e, que neste fazer, desenham nos muros ao mesmo tempo em que redesenham o espa•o urbano. O corpo da antrop—loga entra em cena, com uma c‰mera na m‹o, imposs’vel de passar imune, e acumula experincias e vivncias compartilhadas que revelam que as pr‡ticas do graffiti est‹o muito alŽm dos muros, o que contraria certos usos correntes do termo, j‡ incorporado no vocabul‡rio ordin‡rio daqueles que vivem em centros urbanos e grandes metr—poles, e que muitas vezes traz a falsa impress‹o de ser autoexplicativo e homogneo. Desde o in’cio, ficou evidente que a compreens‹o do que era referido e identificado como graffiti exigiria o deslocamento do olhar: era preciso esquecer as superf’cies do espa•o urbano para descobrir n‹o somente a via de acesso aos usos da rua, objetivo central da investiga•‹o, mas tambŽm a chave de compreens‹o sobre o que Ž o graffiti em S‹o Paulo e, em particular, para os artistas com quem eu passei a trabalhar etnograficamente. Ë medida em que acompanhava mais processos de pintura, participava de diferentes espa•os de sociabilidade e a adentrava um lŽxico particular, as representa•›es e significados entorno destas  pr‡ticas tiveram seus sentidos adensados: neste contexto, graffiti refere-se a uma maneira de ser e estar no mundo e a uma atitude diante do espa•o urbano, que possui uma dimens‹o estŽtica importante, mas um fazer que Ž igualmente relevante. No entanto, esta compreens‹o n‹o deve levar a uma defini•‹o monol’tica, pois o conteœdo que se nomeia n‹o Ž homogneo e est‡tico. Ele se amplia ou Ž reduzido de acordo com a vivncia dos sujeitos e encontra-se em constante negocia•‹o e disputa, muitas vezes abarcando nesta nomea•‹o coisas que em parte convergem e em parte se contradizem. Est‹o em jogo elementos estŽticos, epistemol—gicos, econ™micos e pol’ticos. Mas, se  por um lado o conteœdo pode ser dissonante, por outro lado parece haver uma concord‰ncia quanto   Reuni—n de Antropolog’a del Mercosur Ð Del 4 al 7 de diciembre de 2017 4   ao valor do r—tulo graffiti. Fazer graffiti n‹o se trata, pois, de um instrumento acionado pelos sujeitos em determinados momentos, mas de toda uma outra coisa: h‡ um investimento da subjetividade na a•‹o, Ž atravŽs da pr—pria pr‡tica que eles se constituem. Como uma vez me disse um dos meus interlocutores: Ògraffiti Ž existncia antes de ser resistnciaÓ. Uma antrop—loga e uma m‡quina em movimento  Foi em um s‡bado ensolarado de 5 de dezembro de 2015 que o trabalho de campo teve in’cio, com o processo de pintura de um mural no Vale do Anhangabaœ, centro de S‹o Paulo, que duraria cerca de 12 horas. O que esta primeira oportunidade logo indiciou Ž que o acompanhamento de outras situa•›es exigiria uma maior familiaridade com as din‰micas da cena e demais sujeitos que praticam o graffiti na cidade. Seria preciso criar la•os de inser•‹o no contexto, construir rela•›es de interconhecimento e, sobretudo, come•ar a  ser convidada  para acompanhar as pinturas na rua. Este aprendizado fez com que eu circunscrevesse um espa•o de partida, o qual pudesse me dar acesso ˆ uma rede de sociabilidade de sujeitos que pintassem na rua h‡ pelo menos 10 anos:  para isso, comecei a frequentar as aberturas de exposi•›es, em especial na A7MA Galeria. Estas escolhas de recorte do campo foram definidoras para a constitui•‹o do objeto da  pesquisa etnogr‡fica. O fator geracional Ð sujeitos que fizessem graffiti h‡ 10 anos ou mais Ð  permitiria com que eu me relacionasse com artistas que possu’ssem uma larga experincia de  pintura na rua e, consequentemente, um reposit—rio diverso de relatos, t‡ticas e modos de fazer relacionados ao espa•o urbano, de tal maneira que a pesquisa acabou por concentrar-se em redes de sociabilidade de artistas da primeira e segunda gera•›es da cena do graffiti de S‹o Paulo, ou seja, de sujeitos que come•aram a pintar na rua entre os anos 1980 e in’cio dos anos 2000 e que ainda est‹o ativos 2 . A escolha da A7MA Galeria tambŽm n‹o foi aleat—ria: trata-se de uma das primeiras 2  O conceito de gera•‹o n‹o est‡ delimitado por dŽcadas, mas sim por ÒescolasÓ, ou seja, certos estilos e tradi•›es de  pr‡ticas do graffiti que se desenvolveram na cidade de S‹o Paulo. Muitos artistas da primeira gera•‹o, ainda em atividade, tornaram-se mentores da gera•‹o seguinte, sendo respons‡veis pela transmiss‹o de tŽcnicas, conhecimentos e, sobretudo, de introdu•‹o e partilha de oportunidades de trabalhos remunerados. L’gia Ferro (2011), ao estudar as  pr‡ticas do graffiti em outros contextos (Lisboa, Barcelona, Nova Iorque, Paris e Rio de Janeiro) tambŽm aponta a import‰ncia destes artistas com largas experincias nas pr‡ticas do graffiti, os quais acabam por assumir papŽis  protagonistas: Òobviamente, existem muitos protagonistas jovens, mas quem realmente detŽm mais capital simb—lico s‹o, regra geral, os mais velhos.Ó (Ibidem, p. 10).   Reuni—n de Antropolog’a del Mercosur Ð Del 4 al 7 de diciembre de 2017 5   galerias em S‹o Paulo criada e gerida por artistas do graffiti, frequentada sobretudo por sujeitos da cena e com exposi•›es de artistas que pintam na rua 3 . Tratou-se, assim julgo, de uma decis‹o acertada, onde pude estabelecer uma diversidade de conex›es pois, apesar de haver uma circula•‹o mais intensa de um grupo restrito de artistas do graffiti que s‹o agenciados pela galeria, tambŽm foi poss’vel ter contato com uma rede mais ampla, marcada por nodosidades que se espalham espacialmente pela cidade e que est‹o em constante deslocamento. As aberturas de exposi•‹o, alŽm de serem situa•›es privilegiadas para o mapeamento de redes e estabelecimento de contatos, constitu’ram oportunidades de aprendizado e apreens‹o de um lŽxico particular que envolve as pr‡ticas de graffiti na cidade de S‹o Paulo. A medida em que me inseria na rede e passava a adentrar este sistema de nomenclaturas, come•aram a surgir os  primeiros convites para acompanhar processos de pintura, o que levou a um segundo momento do trabalho de campo: o desenvolvimento de pr‡ticas etnogr‡ficas que me auxiliassem no contexto  particular das pinturas na rua.   Ap—s acompanhar os primeiros processos, sobretudo os de murais (ou painŽis, como tambŽm s‹o chamados), que costumam levar cerca de 10 a 15 horas para serem conclu’dos, notei que era preciso me integrar de alguma forma ˆquelas situa•›es, pois somente observar ou anotar algo durante esse longo per’odo causava inevitavelmente um certo inc™modo nos artistas, o que n‹o influenciava negativamente apenas o momento de pintura, mas a possibilidade de eu ser convidada  para acompanhar outros processos e modalidades. Desde o in’cio eu percebera a import‰ncia do registro fotogr‡fico, devido a efemeridade das inscri•›es na cidade, ao mesmo tempo que a maior  parte era feita atravŽs de aparelhos celulares com recursos limitados para situa•›es de movimento ou de pouca luminosidade. Eu j‡ possu’a algum contato com o universo da fotografia, dada as minhas atividades relacionadas ˆs artes visuais no coletivo APRA‚A e, mais especificamente, a um workshop  que eu participara no in’cio de 2016, ministrado por um coletivo de fot—grafos chamado Rol SP, especializado em fotos noturnas no espa•o urbano de S‹o Paulo 4 . Decidi ent‹o investir em uma m‡quina fotogr‡fica semiprofissional, optando por um modelo compacto (Sony Alpha 6000) que oferecesse recursos avan•ados, mas que tambŽm fosse facilmente armazenado em uma mochila de maneira a n‹o interferir na minha mobilidade. Apesar das experincias j‡ mencionadas, logo de  partida esta decis‹o trouxe desafios novos, sobretudo relativos ao manuseio da m‡quina fotogr‡fica, agora mais frequente, e da descoberta das possibilidades de registro que ela oferecia. Entre manuais 3  Ver A7MA Galeria. Dispon’vel em: <http://a7ma.art.br/about/>. Acesso em 3 de janeiro de 2017. 4  Ver Rol SP. Dispon’vel em: < https://www.instagram.com/role_sp>. Acesso em 22 de abril de 2017.
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