Estudos Teológicos foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição – NãoComercial – SemDerivados 3.0 Não Adaptadahttp://dx.doi.org/10.22351/etv59i2.3523
L
EGIÃO
 
ROMANA
 
E
 
CRUZ
:
A
 
DESCONSTRUÇÃO
 
DO
 
IMAGINÁRIO
 
POPULAR 
 
PALESTINENSE
 
POR 
 J
ESUS
 
NO
 E
VANGELHO
 
DE
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ARCOS
 
A
 
PARTIR 
 
DE
 
CASOS
 
DE
 
EXORCISMOS
1
 Roman legion and cross: the deconstruction of the Palestinian popular imaginary by Jesus in the Gospel of Mark from cases of exorcisms
Natalino das Neves
2
Luiz Alexandre Solano Rossi
3
Resumo:
 O objetivo deste artigo é realizar uma releitura dos atos de exorcismo no Evan-gelho de Marcos sob a perspectiva dos povos colonizados, dominados por meio das legiões romanas e pela pena de morte na cruz, que formavam o imaginário popular na Palestina no  primeiro século. Para atingir esse objetivo será apresentada uma leitura anti-imperialista dos exorcismos de Jesus em Marcos. Em seguida será demonstrado qual foi a gênese do imaginário popular palestinense (legião e cruz) e como os atos de exorcismos no Evangelho de Marcos representam um movimento de resistência ao imaginário popular. Trata-se de
uma pesquisa essencialmente bibliográca, por isso não se pretende fazer análise exegética
das perícopes do Evangelho de Marcos. Como resultado se pretende evidenciar que os atos de exorcismos de Jesus, numa leitura anti-imperialista podem ser interpretados como um movimento de resistência popular não violenta à opressão romana.
Palavras-chave:
 Legião Romana. Cruz. Palestina. Evangelho de Marcos. Exorcismo.
Abstract:
 The purpose of this article is to perform a rereading of the acts of exorcism in the Gospel of Mark from the perspective of the colonized peoples, dominated by the Roman legions and the death penalty on the cross, which formed the popular imaginary
in Palestine in the rst century. To achieve this goal, an anti-imperialist reading of
the exorcisms of Jesus in Mark will be show. It will then be shown the genesis of the Palestinian popular imagination (legion and cross) and how the acts of exorcism in the Gospel of Mark represent a movement of resistance to the popular imagination. This is essentially a bibliographical research, so it is not intended to make an exegetical analysis of the perícopes of the Gospel of Mark. As a result it is intended to point out
1
 O artigo foi recebido em 30 de novembro de 2018 e aprovado em 22 de fevereiro de 2019 com base nas avaliações dos pareceristas
ad hoc
. Pesquisa nanciada pela CAPES.
2
 Doutor. Pontifícia Universidade Católica do Paraná,
 
Curitiba, PR. E-mail:
 
natalino6612@gmail.com, natalino.neves@ig.com.br 
3
 Doutor. Pontifícia Universidade Católica do Paraná,
 
Curitiba, PR. E-mail:
 
luiz.rossi@pucpr.br 
 
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that the acts of Jesus’ exorcisms, in an anti-imperialist reading, can be interpreted as a movement of nonviolent popular resistance to Roman oppression.
Keywords:
 Roman Legion. Cross. Palestinian. Gospel of Mark.
E
xorcism.
Introdução
A interpretação dos evangelhos é inuenciada pelo contexto discursivo de seus
intérpretes. Os leitores tradicionais, muitas vezes, não percebem os efeitos do impe-rialismo romano, amparado pelas legiões, no cotidiano dos camponeses na Palestina
4
 do primeiro século. A leitura anti-imperialista
5
 desaa a interpretação padrão e propõe
a releitura dos textos evangélicos sob a perspectiva dos povos colonizados que so-
friam com a atuação das legiões romanas e a consequente punição pela crucicação,
que formavam o imaginário popular na Palestina. Ao falar do “imaginário” do povo da Palestina, recorro ao conceito de imaginário estabelecido por Hilário Franco Jú-nior 
6
 como “um conjunto de imagens visuais e verbais gerado por uma sociedade (ou  parcela desta) na sua relação consigo mesma, com outros grupos humanos e com o universo em geral”. Dessa forma, é possível concluir que todo imaginário – deve-se salientar a ne-cessidade de se perceber os muitos imaginários possíveis e não cair no erro de reduzir a “um só imaginário” – é eminentemente coletivo e, portanto, não poderia ser confundido com atividade psíquica individual ou ainda à somatória de imaginações. Mas ainda é  preciso salientar que as imaginações também se manifestam em quadros históricos, pois “mesmo ao imaginar, cada indivíduo não deixa de ser membro de uma sociedade e de seus valores objetivos e subjetivos. Porém, por englobar o denominador comum das imaginações, o imaginário as supera, interfere nos mecanismos da realidade palpável (política, econômica, social, cultural) que alimenta a própria imaginação”.O Evangelho de Marcos é o mais breve dos evangelhos, mas “em nada dimi-nui, do ponto de vista qualitativo e global da mensagem, o seu valor literário, a sua força de anúncio e sua intenção teológica”
7
. Ele é o primeiro do gênero e, conse-quentemente, o mais próximo do Jesus histórico e escrito em um período de grande
4
 A Palestina do século I correspondia à “designação romana para a vasta extensão de terra que abrange os atuais Estados de Israel/Palestina, bem como grande parte da Jordânia, Síria e Líbano” (ASLAN, Reza.
 Zelota
: a vida e a época de Jesus de Nazaré. Rio de Janeiro: Zahar, 2013. p. 22). 
5
 A leitura contraimperial dos evangelhos assim como a fundamentação teórica sobre o conceito de império  pode ser observada na seguinte literatura: ROSSI, Luiz Alexandre S. (Org.).
 Leitura anti-imperialistas e libertadoras da Bíblia
. São Paulo: Terceira Via, 2018. CARTER, W.
O evangelho de São Mateus
. Comentário sociopolítico e religioso a partir das margens. São Paulo: Paulus, 2003. MIGUES, N. et al.
 Para além do espírito do império
. São Paulo: Paulinas, 2013. CARTER, W.
 John and Empire
: Initial Exploration. New York: T&T Clark, 2008. CARTER, W.
 Matthew and Empire
: Initial Exploration. Fort Worth: Trinity Press International, 2001.
6
 FRANCO, H. Jr.
Cocanha – a história de um país imaginário
. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p. 23.
7
 GRENZER, Mathias; FERNANDES, Leonardo Agostini.
 Evangelho Segundo Marcos
: eleição, partilha e amor. São Paulo: Paulinas, 2012. p. 7.
 
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enfrentamento ao Império Romano pela comunidade judaica. Desse modo, torna-se
um excelente conteúdo para identicar como a literatura evangélica é utilizada para demonstrar, além da experiência religiosa, o conito que estava presente na pregação
do evangelho e nos atos de Jesus, em especial, nas práticas de exorcismo.
Os exorcismos de Jesus em Marcos em chave de leitura contraimperial
Os evangelhos apresentam Jesus como camponês judeu que atraiu multidões  por meio de discursos elaborados, curas, milagres e sinais que realizava. O Evangelho
de Marcos, especicamente, inicia o primeiro ato milagroso com um exorcismo de
Jesus que faz sua fama se espalhar por toda região (Mc 1.21-28). Atos semelhantes se repetem por mais duas vezes, a saber, a) expulsão da “Legião” de demônios no seu desembarque em Gerasa, na Decápole (Mc 5.1-20); b) a expulsão do espírito impuro
da lha de uma mulher, quando chega em Tiro (Mc 7.24-30)
8
.
Brown, ao analisar o Evangelho de Marcos, arma que a compreensão sobre
Jesus e a vocação de seus seguidores somente é possível se o estudo estiver “inti-mamente ligado ao quadro de sua vitória por meio do sofrimento”
9
. Defende que as narrativas de exorcismo são partes indissociáveis do ensinamento que acompanha a
 proclamação do reino e indica que “a presença do mal, visível na aição humana,
no sofrimento e no pecado precisa ser contraposta; o demônio, por sua vez, deve ser derrotado”
10
. Ressalta ainda que as pessoas do primeiro século tinham uma mentali-dade “bem diferente da nossa”
11
, mas não esclarece que se diferenciavam também na maneira como viam a relação entre religião e política; saúde e doença. Ele assevera que os distúrbios e tensões a que os palestinos estavam submetidos era algo “comum em governo estrangeiro” e que, apesar da atuação de dois prefeitos estrangeiros atu-ando por 20 anos seguidos, aquele não foi “um tempo de revolução violenta”. Assim, as multidões se aglomeravam em torno de Jesus e seu movimento em busca de curas, expulsão de demônios e outros males como algo independente das mudanças sociais, econômicas, políticas e culturais estabelecidas pelo Império Romano, ou seja, esses males precediam a chegada dos romanos.
12
 Nessa visão padrão, Jesus é apresentado
como condescendente com o Império Romano e reduzido a uma mera gura religiosa,
sem relevância ou implicações contrárias ao
 status quo
 romano.
A inuência preponderante do pensamento de Brown perdurou até a década de
1970. Após essa data, alguns pesquisadores demonstram um interesse mais acurado sobre o contexto social dos evangelhos. Entre eles, Malina investiga a solução que
8
 
SCHIAVO, Luigi. 2000 Demônios na Decápole: exegese, história, conitos e interpretações de Mc 5,1-
20. 1999. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) – Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 1999. p. 206.
9
 BROWN, Raymond Edward.
 Introdução ao Novo Testamento
. São Paulo: Paulinas, 2004. p. 205.
10
 BROWN, 2004, p. 205.
11
 BROWN, 2004, p. 213.
12
 BROWN, 2004, p. 125.
 
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Jesus pretendia apresentar ao proclamar a chegada do reino de Deus. Ele chega a con-clusão de que a resposta era “política, não metafórica e muito menos, ‘espiritual’”
13
. Acrescenta que a Bíblia será “necessariamente mal compreendida se algum leitor dela não está fundamentado numa apreciação dos sistemas sociais nos quais seus docu-mentos surgiram”
14
. No caso especíco das narrativas de exorcismos, defende a abor 
-dagem sociológica da época e na forma como as sociedades se relacionavam com religião e política, saúde e doença. Crossan
15
, por sua vez, defende que remover o que é radicalmente subversivo, socialmente revolucionário e politicamente perigoso das
ações de Jesus é deixar sua vida sem signicado e sua morte inexplicável.Outro pesquisador que vem contribuindo de forma signicativa para uma nova
abordagem dos evangelhos com uma série de livros é Horsley. Ele vem combatendo a despolitização de Jesus, da Judeia, da Galileia e do Império Romano.
16
 Para ele, não há como compreender as palavras e as ações de Jesus desconsiderando “como o im- perialismo romano determinava as condições de vida na Galileia e em Jerusalém”
17
. Horsley defende uma nova forma de compreender o poder, a política e a religião do Império Romano, pois “não havia separação entre política e religião”
18
. Ele defende que a condição colonial a que estavam submetidos os palestinos, como povo coloni-zado, era propícia à formação de movimentos revolucionários em busca de renova-ção do modo de vida habitual.
19
 O biblista sugere que seja observado o contexto dos evangelhos, em que a violência na região era “institucionalizada” para atender os interesses dos romanos. A conquista imperial era marcada pelo uso abusivo da vio-lência e regida por uma ideologia autolegitimadora que defendia os amigos e aliados e tinha como objetivo instaurar em todo território do império a “civilização” e “paz”, uma nova ordem imperial.
20
 Ele arma que “a violência estrutural foi construída e
inserida na própria estrutura da sociedade e manifesta-se como um poder desigual e, consequentemente, como chances desiguais na vida”
21
. Dessa forma, Horsley questiona a legitimidade da força utilizada pelos roma-nos: “violência seria então o uso ilegítimo ou não autorizado de poder contra a vonta-de ou desejo de outros. Dessa maneira, um governo legítimo usaria força para reter e eliminar o abuso e dano criminal em relação a seus cidadãos”
22
. Para ele, o Evangelho de Marcos retrata uma luta envolvendo o projeto de renovação de Israel por Jesus no
13
 MALINA, Bruce J.
O Evangelho Social de Jesus
: o Reino de Deus em Perspectiva Mediterrânea. São Paulo: Paulus, 2004. p. 11.
14
 MALINA, 2004, p. 15.
15
 CROSSAN, John Dominic. O essencial de Jesus: frases srcinais e primeiras imagens. Belo Horizonte: Jardim dos Livros, 2008. p. 15.
16
 HORSLEY, Richard A.
 Jesus e o império
: o Reino de Deus e a nova desordem mundial. São Paulo: Paulus, 2004a. p. 11-18.
17
 HORSLEY, 2004a, p. 19.
18
 HORSLEY, Richard A.
 Paulo e o império
: religião e poder na sociedade imperial. São Paulo: Paulus, 2004b. p. 21.
19
 HORSLEY, Richard A.
 Jesus e a Espiral da Violência
. São Paulo: Paulus, 2010. p. 13
20
 HORSLEY, 2010, p. 29.
21
 HORSLEY, 2010, p. 21.
22
 HORSLEY, 2010, p. 20.
 
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sentido contrário aos interesses de Roma e aos líderes judaicos colaboracionistas. Os exorcismos narrados nesse evangelho se constituiriam em componentes proeminentes do programa de Jesus
23
 e deveriam ser entendidos como batalhas na luta contra o im- perialismo romano e o colonialismo. Horsley cita como exemplo a perícope de Marcos 5.1-20 como exemplo dos “efeitos da violência imperial romana, um deslocado protesto contra esses efeitos e uma atitude de autoproteção contra um ataque suicida em relação aos romanos”. Comenta que o ato de Jesus é visto pelos proprietários de porcos, que pe-dem para que ele se retire da região, como ameaça ao seu relacionamento de equilíbrio à ordem romana.
24
 Myers
25
 reforça que as duas narrativas de exorcismos posteriores:
Marcos 7.24ss (libertação da lha da mulher siro-fenícia) e Marcos 9.14ss (libertação
do rapaz mudo), também estão ligadas às estruturas de poder e de alienação no mundo social. A primeira narrativa denota o profundo abismo existente entre judeus e gentios; na segunda, o esforço exaustivo para acreditar na nova ordem do Reino.As narrativas de Marcos que deram srcem ao gênero literário “evangelho” e serviram de base para os demais evangelhos se tornaram fundamentais para entender a repercussão, principalmente dos atos de exorcismos de Jesus que fornecem mais informações do que um simples relato de atividades de taumaturgo, comum à época. Eles representam o impacto econômico, social, ideológico e cultural produzido pelo  poder imperialista romano na vida dos judeus palestinenses do primeiro século. Um impacto social a partir de atos de cura e de exorcismo de Jesus muito bem descrito por Richter Reimer 
26
:
[...] podem ser interpretadas no plano da signicância, que permite uma interpretação
na qual interagem dois momentos distintos e interligados da narrativa: a pessoa doente/ possessa incorpora e representa a coesão social através de exclusão, a qual indica para a experiência pessoal e social de caos e desequilíbrio; a prática libertadora de Jesus in-dica para a ruptura com esse esquema através do perdão, da cura, do exorcismo. Assim, conclui-se que a ação de Jesus intervém nas relações sociais e simbólicas de corpos doentes e sofridos, reconstruindo, portanto, também identidades pessoais e sociais.
As legiões romanas e a nova ordem imperial
O início da dominação do Império Romano sobre a região da Palestina ocorre
em 63 a.C. com a conquista do território pelo general Pompeu, sem muitas diculda
-des. Ele reintegra Hircano como sumo sacerdote e impõe-lhe um novo controle, obri-gando-o a prestar contas de suas funções administrativas. A partir de então, a Palestina
23
 HORSLEY, Richard A.
 Hearing the whole story
: the politics of plot in Mark’s Gospel. Louisville: West-minster John Knox, 2001. p. 121.
24
 HORSLEY, 2001, p. 145.
25
 MYERS, Ched.
O Evangelho de Marcos
. Trad. I. F. L. Ferreira. São Paulo: Paulinas, 1992. p. 183-184.
26
 RICHTER REIMER, Ivoni.
 Milagre das mãos
: curas e exorcismos de Jesus em seu contexto histórico--cultural. São Leopoldo: Oikos; Goiânia: UCG, 2008. p. 66.
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