Universidade Federal do ABC – UFABC
 
Bacharelado em Políticas Públicas
 
A política de Big Data do México: uma perspectiva schumpeteriana e neo-schumpeteriana
Mudança Tecnológica e Dinâmica do Capitalismo Professor: Sérgio Amadeu São Bernardo do Campo 2019
 
Introdução
Emmaiode2017,TheEconomistpublicouumartigoquedizia“orecursomaisvalioso domundonãoémaispetróleo,masdados,comoalertaemseusubtítulo,paraa 
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necessidadedeumanovaregulaçãocontraomonopóliodosgigantesdoValedo Silício.Anova“commoditie”geraumainstrialucrativaepidocrescimentoparaos gigantesquelidamcomdados:Google,Amazon,Apple,FacebookeMicrosoft,as cincoempresasmaisvaliosasdomundoquejuntas,tiveramumlucrolíquidodemais de US$ 25 bilhões apenas no primeiro trimestre de 2017.
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 Odadopodeserdefinidocomoumavariáveldeinformaçãoquetemacapacidadede sercoletado,armazenadoeanalisado.Sãodivididosentreestruturados,quesão organizadosedefácilanálise,seguemumahierarquiadeinformãoeorespostas aumaperguntaemformatodetabela,eosnãoestruturados,quesãoutilizadoscom finalidadediferentedoqueforamcoletados(comotweets,fotos,deos),oseguem umahierarquiadeorganizaçãoenãosãofacilmenteutilizáveisparaanálises automatizadas (LETOUZÉ, 2017). Comarevoluçãodosdados,intensificadanaúltimacada,muitascoisasmudaram.O casodeEdwardSnowden,acusadodeespionagemporvazarinformõessigilosasde segurançadosEstadosUnidos,revelouemdetalhesalgunsdosprogramasde vigilânciaqueopaísusaparaespionarapopulãoamericanautilizandoservidores deempresascomoGoogle,AppleeFacebook.Essecasomudouaformacomo governos,empresas,organizaçõesciviseoutrosatorestratamosdadoseas implicõesalongoprazodestenovomundo.Areferênciaaopetróleodeixaevidenteo potencialdeseextrairvalorapartirdasinformões,achamadaeconomiadedadose chama atenção para a necessidade da discussão do controle, direitos e regulação.
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 Cf: The Economist (June. 2017). Disponível em: <https://www.economist.com/leaders/2017/05/06/the- worlds-most-valuable-resource-is-no-longer-oil-but-data>.
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 Idem
 
 Entretanto,oBigDatanãopodeserreduzidoaumgrandeconjuntodedadose tampoucodizrespeitoapenasaquantidadedematéria-prima,poisdependeda qualidadeedanaturezadestamatéria,doecossistemaquearodeiaedofenômeno sócio-tecnológicoqueasustenta.Letouze(2017)propõeas3CsdeBigData,em inglêsrepresentam“Crumbs”,“Capacities”e“Communities”,quepodemsertraduzidos como migalhas, capacidades e cultura, respectivamente.  Asmigalhasdigitaissãoospedaçosdedadosemitidosecoletadosquecompõeofluxo dedados,umsubprodutodainteraçãodaspessoascomosdispositivosdigitais.A capacidadedeBigData
 
éoconjuntodeferramentasetodos,hardwareesoftware, know-howehabilidadesnecesriasparaprocessareanalisaressesdados.Porfim, culturadizrespeitoaosdiferentesatoresenvolvidosnoecossistemadeBigData, desde os geradores de dados até seus analistas e usuários finais (LETOUZÉ, 2017). ParacompreendercomoosdadoseoBigDatapodemtransformaromundo,épreciso revisarosaprendizadosdastrêsrevoluçõestecnológicaspassadas,oadventodeuma novatecnologiapõeàprovaasestruturaseossistemasexistentes.APrimeira RevoluçãoIndustrialveiocomainvençãodasmáquinasmovidasavapor;aSegunda Revoluçãocomaintensificãoindustrialeadescobertadefontesdeenergiafóssil;e aTerceiraRevoluçãoocorrecomaeletnica.Inicialmenteessasnovastecnologiasse limitamàselitesegruposrestritos,depoisocorreumprocessodedifusãoe democratizaçãodoacessoaorecursochavedaépoca(nestecaso,osdados) (LETOUZÉ, 2017). ParaSchumpeter(2017),ainovaçãotemorigemcomumimpulsoqueéintrínsecoao sistemacapitalistaquetransformaavidaeconômicaequegeradesenvolvimento.A inovaçãoéconsideradaoimpulsoprincipalqueoriginaemantémomovimentodo 
 
capitalismodecorrentedebensdeconsumo,denovasformasdeproduçãoe transporte, de novos mercados e das novas formas de organização. Historicamenteavalorizaçãodasatividadesdeciência,tecnologiaeinovaçãono Méxicoforambaixas(Dutrénitetal,2010),principalmentedevidoaoambiente macroecomicoeconcornciainsuficientes,quedeterminarammercadoscomaltos níveisdeassimetriaemtermosdeprovisãoeacessoàinformação,afetando diretamenteapromoçãodepolíticasdeCT&Iedebigdata,situaçãoessa condicionadaportrêsprincipaisfatores:aindustrializaçãotardiaedependência estrangeira-fortementeobservadaempaísesemdesenvolvimento-,acriseeconômica intensaqueacometeuopaísnosanos90ea
 
desregulamentação(1988-2008)no âmbitoliberal,quepropôsreformasestruturaisorientadasparaomercad
 
o
 
(Dutrénitet al, 2010)
 
.  Aaberturaeconômicaeadoçãodepolíticasneoliberaiscomotentativadogovernode controlaracriseeconômicaqueopaíssofrianoiníciodosanos80eoesgotamento 
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domodelodedesenvolvimentoporsubstituãodeimportões
 
,somadosaoingresso dopaísaoGATT(AcordoGeraldeTarifaseComércio)
 
,em1986,aoavançoda privatizaçãodaeconomiaeconsequentementeachegadadeinvestimentoestrangeiro, nãogeraramastransformaçõestecnológicasdaplantaprodutivaparatorná-la competitivacomoseimaginava,esimgeraramumaumentodainflação,quedados saláriosreaise
 
encarecimentodasimportões,queculminaramnumaprofundacrise que viria a eclodir no início dos anos 90. Comosolução,oxicoseaproximoueconomicamentedosEstadosUnidos,atras doTratadodeLivreComércio(TLC)numaorientaçãoneoliberalqueprocurava facilitaroinvestimentodireto,eliminardocontroledecâmbio,amortizarasterras 
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Noiníciodosanos80opaíssofriacomadificuldadedepagamentodavidaexterna,provenientedo fimdasfontesdefinanciamentoexterno,doaumentobitodastaxasdejurosinternacionais,quedade preços de exportações durante os anos 80, além da proteção irresponsável e corrupção (PEÑA, 1997)
 
blicasincorporando-asaomercado,alémdecontinuarpromovendoaprivatizãode empresasestataisdirecionando-asaintervencionistasnativosemcondiçõesde privigio(PINÃ,1997);arendaprovenientedessaspoticasfoiaplicadapelogoverno noabatimentodasfinançasblicas-quenaquelemomentoestrangulavaopaíseem programassociaisparadiminuiçãodamiséria,nãocolocandocomoprioridadeas políticas de CT&I. Emparalelo,nocenárioexterno,aumentavam-seaofertadecapitaisquetambém adentravaemabundânciaaopaís,inclusivePenã(1997),afirmaqueesseapetite insaciáveldecapitalfezquefossemaceitostodososinvestimentosefinanciamentos possíveis,semmoderaçãonemprudência,resultandonumexcessodecapital externomuitomaiordoqueacapacidadeprodutivadeabsorvê-los.Ainflaçãoea dívidacontinuavamaaumentar,oquepressionouogovernoaumapolíticade sobrevalorizãodamoedamexicana,queinicialmentetinhaefeitosbeficoscomoo controledainflaçãoeinsumosimportadosmaisbaratos,porémdiminuiua competitividade,fatorprimordialparainovação.Osanosseguintesfoideintensacrise econômica,socialepolítica,queculminounoseuápiceem1995,comrecuperação apenas nos anos seguintes. Destaforma,aindustrializãotardiasomadaaosanosdecrise,ogovernomexicano poucosepreocupouemadotarumapolíticadeincentivoàinovaçãoetecnologiae mudançanasuamatrizprodutivadepaísagroexportador,adotandomeraspolíticas microemacroeconômicasparacontroledacrise(assimcomoamaioriadospaísesem desenvolvimento)deixandooassuntoeadependênciatecnológicanamãosde grandesempresasnativasexportadorasedepaísesdesenvolvidosprovedoresde capital,queviriaaserefletirnamaciçaapreseadegrandesempresasdedadosque se instalaram no país recentemente.
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