Um inventário de transformações: em torno das definições e funções dos museus e da museologia

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  U NIVERSIDADE DE S ÃO P AULO  M USEU P AULISTA  P ROGRAMA DE PÓS - GRADUAÇÃO EM M USEOLOGIA   U M INVENTÁRIO DE TRANSFORMAÇÕES : em torno das definições e das funções dos museus e da museologia Resenha apresentada pelo aluno David William Aparecido Ribeiro , do Programa de Pós-graduação em História Social,   para a avaliação na disciplina IMU 5011: História dos Museus e da Museologia  , ministrada pela Profª. Drª. He-loísa Barbuy. S ÃO P AULO  O UTUBRO DE 2012  2 POULOT, Dominique. “Qu’est - ce qu’un musée?” In: ______.  Musée et muséologie . Paris: La Découverte, 2005, p. 6-21. Dominique Poulot, professor da Université de Paris I  , é um historiador cuja pro-dução se debruça sobre as problemáticas do patrimônio e dos museus. As ideias que aqui são apresentadas são constantes de sua obra  Musée et Muséologie , publicada no ano de 2005. Seu propósito, ao longo do primeiro capítulo “Qu’es t- ce qu’  un musée?”  [O que é um museu?], não só é o de responder à pergunta-título, mas também o de cons-truir uma historiografia do conceito de museu e de discutir os desdobramentos espaciais e temporais do tema, além da organização da área da museologia ao longo do século XX  –   que passa obrigatoriamente pela definição do que é um museu  e de quais são as suas  funções. Mas afinal, o que é então um museu? Poulot apresenta-nos as definições hege-mônicas do que é a instituição, partindo daquela do Conselho Internacional de Museus (ICOM), organização fundada em 1946 em Paris, seguindo os passos da própria criação da UNESCO. É inegável, entretanto, a remissão sempre feita ao conceito da Antiguida-de Clássica, ao templo das Musas, representação que encerra o museu em uma preocu- pação única e muitas vezes estereotípica: é apenas um lugar de conservação do patrimô-nio, além de uma escola de humanidades e ciências. Embora esse mito srcinal não abarque as dimensões atuais do museu, cujos objetivos são bem mais amplos e diversificados, é possível perceber certas conexões entre a ideia de entesouramento e de sacralização, tal como os túmulos e os templos, e os museus contemporâneos. Este movimento, sempre presente ao longo do texto, permi-te perceber certas rupturas e permanências em torno não apenas da nomenclatura  –   que é uma das grandes buscas das organizações de museus  –   como também dos domínios da instituição museal. A partir da análise de publicações, de documentos e da criação de grupos de tra- balho pelo ICOM, Dominique Poulot apreende o que são considerados museus nos anos 1940-1950. Eram abrangidos os campos das artes, da arqueologia, da história, da etno-grafia e das artes populares, das ciências e técnicas mecânicas, os sítios históricos e os museus infantis. Neste aspecto, as publicações são um meio eficaz de disseminar refle-xões, além de agregar os comitês e associações nacionais ao debate.  Nas décadas seguintes, novas exigências foram agregadas aos objetivos da insti-tuição. O esforço era para definir o papel social dos museus e do patrimônio, preocupa-  3 ção que foi presente nas conferências e documentos publicados ao redor do mundo. Poulot destaca o papel desempenhado por Georges-Henri Rivière e também por Hugues de Varine-Bohan, diretores do ICOM entre as vésperas dos anos 1950 e a metade dos 1970 na definição da filosofia da associação. Em uma mesa-redonda em Santiago do Chile, em 1972, a ênfase foi dada a este papel social do museu, abrindo-o para uma  perspectiva de engajamento da profissão. Buscam-se então definir não somente a insti-tuição cultural, como também o seu próprio profissional. Para pensarmos estes campos de abrangência da instituição museu  naquele mo-mento e os caminhos percorridos para a definição da filosofia do Conselho, interessa de  perto a concepção de um destes que o dirigiram  –   trata-se do francês Georges-Henri Rivière. A partir de sua reflexão que sobrepõe a ecologia  –   a ciência do ambiente, que o  pensa como uma categoria dual, na qual se inserem o ambiente humano e o ambiente natural     –   ao sistema dos museus, é possível compreender o papel dos espaços museoló-gicos dedicados às artes e às ciências humanas e sociais, especialmente no que diz res- peito a estes domínios ambientais 1 . Os museus de ciências naturais e exatas estariam então relacionados ao ambiente natural enquanto o ambiente humano estaria ao lado dos museus de ciências humanas e sociais, bem como dos de tecnologia. Dito isto, Rivière também sustenta que a interdis-ciplinaridade  está sempre presente, especialmente nos museus de ciências humanas e sociais, uma vez que estes têm por objeto  o homem e a sociedade, cujas relações com o meio natural são imprescindíveis para a sua compreensão. O  ecomuseu  e o museu de vizinhança, que emergiram por volta do início da segunda metade do século passado, são exemplos de museus interdisciplinares que acentuam esta característica ecológica    –   no sentido relacional-ambiental, humano e natural. Uma peça isolada pode dizer algo sobre a sociedade que a produziu, seja social, religiosa ou economicamente. A partir do momento, entretanto, em que um museu bus-ca de alguma forma recriar,   recuperar   ou ainda transferir integralmente o meio ao qual o objeto está relacionado, criam-se unidades ecológicas    –   que permitem ao visitante  perceber de forma mais intensa o ambiente humano do que se observasse os objetos isoladamente. Há diversos recursos para se construir estas unidades ecológicas: os mei-os audiovisuais são um exemplo de como se pode apresentar a relação de objetos com 1 As reflexões citadas deste autor estão em R  IVIÈRE , Georges-Henri. “ Rôle du musée d'art et du musée de sciences humaines et sociales ” . In:  Museum, Paris, v. 25, n.112, p. 26-44, 1973.    4 os seus ambientes de srcem, sem contudo perder de vista que eles estão a serviço da apreensão do objeto, foco da exposição. Em consequência a esta reflexão, Rivière coloca as diferentes tipologias de mu-seus em relação, buscando demonstrar os ganhos que advêm da interdisciplinaridade. De forma geral, as abordagens globais dos objetos permitem diferentes olhares sobre eles. Esta interdisciplinaridade, exemplificada ao longo do texto do museólogo, leva a entender os museus como espaços complexos, cujas finalidades também as são. A partir de uma apreensão integrada dos ambientes natural e humano, relacionadas às diferentes expressões destes ambientes no campo disciplinar, os museus podem cumprir com a sua responsabilidade de iniciar as comunidades nas quais se inserem em seus próprios pro- blemas e também nos compartilhados universalmente. O artigo de Rivière, escrito du-rante a busca por uma definição das funções dos museus, apresenta-se como um chama-do à integração. Após este panorama do período inicial do ICOM, Poulot faz um quadro compa-rativo que apresenta a evolução da definição   de museu , utilizando como marcos os anos de 1951, de 1974 e de 1986. Os dois primeiros referem-se a documentos oficiais apro-vados e publicados pelo Conselho. O terceiro é a data da publicação do Código de Ética  profissional. Enquanto o primeiro documento baseia-se no estabelecimento permanente, cujo objetivo é o de conservar, estudar e valorizar um conjunto de elementos de valor cultu-ral e, por meio da exposição, deleitar e educar o público, o segundo se amplia para as  pesquisas relativas aos vestígios do homem e de seu meio. Chama a atenção, no sentido do papel social, a definição do museu enquanto uma organização ao serviço da socieda-de e do seu desenvolvimento. Ao público ele conserva os tais vestígios, comunica e ex- põe  –   acrescentando o estudo à educação e ao deleite. É a definição que mais ou menos da mesma forma vigora até os dias atuais. Acompanhando as transformações sociais da segunda metade do século XX, o museu agrega pensamentos correntes e debates que vão surgindo, orientando-se a partir das demandas do meio em que está. No Código de Ética (1986) é reforçado pelo histori-ador o esforço que o museu deve fazer para assegurar a honestidade e objetividade das informações transmitidas através das exposições, e que elas não fazem perpetuar mitos ou estereótipos. Embora exista o Conselho Internacional, não estão excluídas as definições de organizações em nível de Estado, a partir de suas próprias organizações profissionais.  5 As definições, no fim das contas, são próximas, mesmo que em alguns casos haja dis-sensos, comumente em relação à tipologia de museus (abrigando ou não na definição os zoológicos, jardins botânicos, parques, planetários, aquários etc.). A questão da nomen-clatura  passa por vezes por questões de apoio financeiro por órgãos de Estado, notada-mente os Ministérios de Cultura ou análogos, que definem as condições para a obtenção do título  museu. Poulot evoca três exemplos: o caso britânico, o estadunidense e o francês. No  primeiro, representado pela  Associação Britânica de Museus , nota-se o visitante como quem explora pela inspiração e pelo saber, e o museu como quem deve proporcionar isto. Já a  Associação Americana de Museus  define o museu enquanto uma instituição essencialmente  educativa, dotada de programas educacionais (em 88% dos casos, se-gundo Poulot) e centros sobre várias áreas de conhecimento, como a arte, a história, a matemática e as ciências. O caso dos Estados Unidos é bastante destacado, devido a esta alta proporção de estabelecimentos ligados à educação. Joel Orosz, em sua obra que discute o movimento dos museus estadunidenses entre 1740 e 1870, apresenta a trajetó-ria de algumas instituições que demonstram esta relação histórica entre museus e educa-ção naquele país 2 . Orosz pensa sobre os museus dos Estados Unidos a partir do chamado Compro-misso Americano (trad. lit. de American Compromise) , um acordo do país em torno da  promoção da educação popular e da profissionalização. O período, que abrange duas décadas  –   de 1850 e 1870  –   é marcado pela ascensão das ideias antiescravistas e da con-sequente ideologia do trabalho livre; da valorização do passado nacional  –   depois da morte dos pais fundadores e outros heróis; pela popularização dos museus, na esteira das exposições internacionais; pelos efeitos da Guerra Civil na mobilização da opinião  pública. Este ambiente fomenta o debate em torno da educação, que se torna uma preo-cupação crescente. Diversas iniciativas buscaram unir em um mesmo espaço uma instituição que abrigasse salas de aula, laboratórios, salas de leitura, bibliotecas, um museu etc. Um destes foi o plano de Peter Cooper, que embora nunca tenha saído do papel se asseme-lhava a outras instituições, como o  American Museum , de Nova Iorque. Seu objetivo era o de criar uma nova instituição, na qual as possibilidades educacionais de um museu 2  O estudo das insituições em relação à educação popular e à profissionalização, constituintes do chamado Compro-misso Americano, está em O ROSZ , Joel J. “The American Compromise, 1850 -1870: The Synthesis of Popular Educa- tion and Professionalism”. In: ____. Curators and Culture: The Museum Movement in America, 1740-1870 . The University of Alabama Press: Tuscaloosa / Londres, 2002.
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