Tradução de O raciocínio científico , Samir Okasha

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  O raciocínio científico 1 Samir OkashaCientistas frequentemente nos dizem coisas sobre o mundo que de outro modo nós nãoacreditaríamos. Por exemplo, os bióloos nos dizem que somos parentes próximos dos chimpanz!s,os eóloos nos dizem que a "frica e a #m!rica do Sul eram unidas e os cosmóloos nos dizem queo uni$erso est% expandindo. &as como os cientistas cheam a estas aparentemente impro$%$eisconclus'es( #final, ninu!m nunca $iu uma esp!cie e$oluir de outra, ou um )nico continente sedi$idir em dois, ou o uni$erso ficar maior. # resposta, claro, ! que os cientistas cheam a estascren*as por um processo de raciocínio ou infer+ncia. &as seria ótimo saber mais sobre esteprocesso. ual ! exatamente a natureza do raciocínio científico( - quanta confian*a de$emosdepositar nas infer+ncias que os cientistas fazem( -stes são os tópicos deste capítulo. Dedução e Indução Os lóicos fazem uma importante distin*ão entre padr'es de raciocínios deduti$os e induti$os. mexemplo de um raciocínio deduti$o ou uma infer+ncia deduti$a ! o seuinte/ 0odos os franceses ostam de $inho $ermelho. Pierre ! franc+s. /. Portanto, Pierre osta de $inho $ermelho. #s primeiras duas senten*as são chamadas de premissas da infer+ncia, enquanto a terceira senten*a! chamada de conclusão. 1sto ! uma infer+ncia deduti$a, pois ela tem a seuinte propriedade/ se aspremissas são $erdadeiras, então a conclusão de$e ser tamb!m. -m outras pala$ras, se ! $erdadeiroque todos os franceses ostam de $inho $ermelho, e se ! $erdadeiro que Pierre ! franc+s, seue2seque Pierre com efeito osta de $inho $ermelho. 3s $ezes isso ! expresso dizendo que as premissasda infer+ncia implicam a conclusão. Certamente, as premissas desta infer+ncia são quase certamentefalsas 4 ! seuro que h% franceses que não ostam de $inho $ermelho. &as este não ! o ponto. Oque faz a infer+ncia deduti$a ! a exist+ncia de uma rela*ão apropriada entre premissas e aconclusão, a saber, que se as premissas são $erdadeiras, a conclusão de$e ser $erdadeira tamb!m.Se as premissas são realmente $erdadeiras ! uma questão diferente, que não afeta o estatuto dainfer+ncia como deduti$a. 5Seundo capítulo de Okasha, Samir.  Philosophy of Science: a very short introduction . Oxford ni$ersit6 Press, 7887. 0radu*ão de -ros Car$alho 9:;<S=.  >em todas as infer+ncias são deduti$as. Considere o seuinte exemplo/ Os primeiros cinco o$os da caixa esta$am podres. 0odos os o$os t+m a mesma data de $alidade estampada neles. /. Portanto, o sexto o$o estar% podre tamb!m. -ste parece um exemplo de raciocínio perfeitamente razo%$el. Contudo, ele não ! deduti$o, pois aspremissas não implicam a conclusão. &esmo se os primeiros cinco o$os esti$erem podres e mesmose todos os o$os ti$erem a mesma dada de $alidade estampada neles, isto não atante que o sextoo$o estar% podre tamb!m. ? perfeitamente concebí$el que o sexto o$o este@a perfeitamente bom.-m outras pala$ras, ! loicamente possí$el que as premissas desta infer+ncia se@am $erdadeiras eainda assim a conclusão se@a falsa. #ssim a infer+ncia não ! deduti$a. #o in$!s, ela ! conhecidacomo uma infer+ncia induti$a. >uma infer+ncia ou raciocínio induti$o, nós passamos de premissassobre ob@etos que foram examinados para conclus'es sobre ob@etos que não foram examinados 4 neste exemplo, os o$os. O raciocínio deduti$o ! uma ati$idade muito mais seura do que o raciocínio induti$o. uando nósraciocinamos deduti$amente, podemos estar certos de que se come*amos com premissas$erdadeiras, terminaremos com uma conclusão $erdadeira. &as o mesmo não pode ser dito arespeito do raciocínio induti$o. #o contr%rio, o raciocínio induti$o ! completamente capaz de nosle$ar de premissas $erdadeiras para uma conclusão falsa. # despeito deste defeito, parece queconfiamos no raciocínio induti$o por toda a nossa $ida, frequentemente sem nem pensar sobre ele.Por exemplo, quando $oc+ lia o seu computador pela manhã, $oc+ est% confiante de que ele nãoexplodir% na sua cara. Por que( Porque $oc+ lia o seu computador toda manhã e at! aora elenunca explodiu na sua cara. &as a infer+ncia de Aat! aora meu computador não explodiu quando euo liueiA para Ao meu computador não explodir% quando eu o liar desta $ezA ! induti$a, nãodeduti$a. # premissa desta infer+ncia não implica a conclusão. ? loicamente possí$el que o seucomputador explodir% desta $ez, mesmo se ele nunca o fez pre$iamente. Podemos encontrar prontamente outros exemplos de raciocínio induti$o na $ida cotidiana. uando$oc+ $ira o $olante do seu carro no sentido anti2hor%rio, $oc+ assume que o carro ir% $irar para aesquerda e não para a direita. Sempre que $oc+ dirie, $oc+ efeti$amente apoia a sua $ida nestaassun*ão. &as o que o deixa con$icto de que isto ! $erdadeiro( Se alu!m pedir que $oc+ @ustifiquea sua con$ic*ão, o que $oc+ diria( # não ser que $oc+ se@a um mecBnico, $oc+ pro$a$elmenteresponderia/ Atoda $ez que eu irei a $olante no sentido anti2hor%rio no passado, o carro foi para a  esquerda. Portanto, o mesmo acontecer% quando eu $irar a o $olante no sentido anti2hor%rio desta$ezA. >o$amente, isto ! uma infer+ncia induti$a, não uma deduti$a. ;aciocinar induti$amenteparece ser uma parte indispens%$el da $ida cotidiana. Os cientistas tamb!m usam o raciocínio induti$o( # resposta parece ser que sim. Considere adoen*a en!tica conhecida como síndrome de oDn. Os eneticistas nos dizem que os portadoresde s t+m um cromossomo adicional, eles t+m EF ao in$!s dos EG normais 9fiura H=. Como elessabem isso( # resposta, ! claro, ! que eles examinaram um rande n)mero de portadores de S enotaram que cada um tem um cromossomo adicional. -les então raciocinaram induti$amente para aconclusão de que todos os portadores de S, incluindo aqueles que eles não examinaram, t+m umcromossomo adicional. ? f%cil de $er que esta infer+ncia ! induti$a. O fato de que os portadores deS na amostra estudada t+m EF cromossomos não pro$a que todos os portadores t+m. ? possí$el,embora impro$%$el, que a amostra fosse não representati$a. -sse exemplo de modo alum ! isolado. Com efeito, os cientistas usam o raciocínio induti$osempre que eles partem de dados limitados para uma conclusão mais eral, o que eles fazem otempo inteiro. Considere, por exemplo, o princípio de >eDton da ra$ita*ão uni$ersal, mencionadono capítulo anterior, o qual diz que todo corpo no uni$erso exerce uma atra*ão ra$itacional sobretodos os outros corpos. #ora, ob$iamente >eDton não cheou a este princípio exanimado cadacorpo sinular no uni$erso inteiro 4 ele não poderia fazer isso. #o in$!s, ele $iu que o princípio !$erdadeiro para os planetas e o sol e para ob@etos de $%rios tipos que se mo$em perto da superfícieda 0erra. # partir destes dados, ele inferiu que o princípio mant!m2se $erdadeiro para todos oscorpos. >o$amente, esta infer+ncia foi ob$iamente induti$a/ o fato de que o princípio de >eDton !$erdadeiro para aluns corpos não arante que ele ! $erdadeiro para todos os corpos. O papel central da indu*ão na ci+ncia ! alumas $ezes obscurecido pela maneira que falamos. Porexemplo, $oc+ pode ler num relato @ornalístico a afirma*ão de que os cientistas encontraram Apro$aexperimentalA de que milho eneticamente modificado ! seuro para os humanos. O que istosinifica ! que os cientistas testaram o milho num amplo n)mero de humanos e nenhum deles fezalum mal. &as falando estritamente, isto não  prova que o milho ! seuro, no sentido em quematem%ticos podem pro$ar o teorema de Pit%oras, diamos. Pois a infer+ncia de Ao milho não fezmal alum a nenhuma pessoa que foi testadaA para Ao milho não far% mal a ninu!mA ! induti$a e nãodeduti$a. O relato @ornalístico de$eria dizer que os cientistas encontraram e$id+ncia extremamenteboa de que o milho ! seuro para humanos. # pala$ra Apro$aA de$eria ser estritamente usada quandolidamos com infer+ncias deduti$as. >este sentido estrito da pala$ra, as hipóteses científicas podem  raramente, se aluma $ez, ser pro$adas $erdadeiras pelos dados. # maioria dos filósofos pensa que ! ób$io que a ci+ncia repousa pesadamente no raciocínioinduti$o, na $erdade tão ób$io que dificilmente ! preciso arumentar a fa$or disto. Por!m,nota$elmente, isto foi neado pelo filósofo Iarl Popper, que encontramos no capítulo anterior.Popper afirmou que os cientistas precisam apenas usar infer+ncias deduti$as. 1sto seria ótimo sefosse $erdadeiro, pois infer+ncias deduti$as são muito mais seuras do que as induti$as, como$imos. O arumento b%sico de Popper foi o seuinte. -mbora não se@a possí$el pro$ar que uma teoriacientífica ! $erdadeira a partir de uma amostra de dados limitada, ! possí$el pro$ar que a teoria !falsa. Suponha um cientista que este@a considerando a teoria de que todos os peda*os de metalconduzem eletricidade. &esmo se todo peda*o de metal que ele examinou conduz eletricidade, istonão pro$a que a teoria ! $erdadeira, pelas raz'es que $imos. &as se ele encontra um peda*o demetal que não conduz eletricidade, isto pro$a que a teoria ! falsa. Pois a infer+ncia de Aeste peda*ode metal não conduz eletricidadeA para A! falso que todos os peda*os de metal conduzemeletricidadeA ! uma infer+ncia deduti$a 4 a premissa implica a conclusão. #ssim, se um cientista est%apenas interessado em demonstrar que uma dada teoria ! falsa, ele pode ser capaz de realizar o seufim sem o uso de infer+ncias induti$as. # fraqueza do arumento de Popper ! ób$ia. Pois os cientistas não estão interessados apenas emmostrar que certas teorias são falsas. uando um cientista coleta dados experimentais, o seuob@eti$o pode ser mostrar que uma teoria particular 4 sua teoria arquirri$al tal$ez 4 ! falsa. &asmuito mais pro$%$el, ele est% tentando con$encer as pessoas de que a sua própria teoria !$erdadeira. - para fazer isto, ele ter% de recorrer a alum tipo de raciocínio induti$o. #ssim, atentati$a de Popper de mostrar que a ci+ncia pode se $irar sem a indu*ão não tem +xito. O problema de Hume -mbora o raciocínio induti$o não se@a loicamente infalí$el, ele parece contudo uma maneiraperfeitamente razo%$el de formar cren*as sobre o mundo. O fato de o sol ter nascido todos os diasat! aora pode não pro$ar que ele nascer% amanhã, mas certamente lhe d% uma boa razão parapensar que ele ir%. Se $oc+ encontra alu!m que diz ser inteiramente anóstico sobre se o solnascer% amanhã ou não, $oc+ ir% consider%2lo muito estranho, se não irracional.  &as o que @ustifica esta f! que depositamos na indu*ão( Como de$eríamos fazer para persuadiralu!m que se recusa a racionar induti$amente de que ele est% errado( O filósofo escoc+s do s!culoJK111 a$id Lume 95F5525FFG= deu uma resposta simples e radical a esta questão. -le arumentouque o uso da indu*ão não pode de modo alum ser racionalmente @ustificado. Lume admitiu quenós usamos a indu*ão o tempo todo, no dia a dia e na ci+ncia, mas ele insistiu que isto era apenasuma questão de habito animal bruto. Se questionado a fornecer uma boa razão para usar a indu*ão,não podemos dar nenhuma resposta satisfatória, ele pensou. Como cheou a esta surpreendente conclusão( -le come*ou notando que sempre que fazemosinfer+ncia induti$as, parece que pressupomos o que ele chamou de Auniformidade da naturezaA 9>=.Para $er o que Lume quer diz com isso, lembre2se de alumas infer+ncias induti$as da )ltimase*ão. 0ínhamos a infer+ncia de Ameu computador não explodiu at! aoraA para Ameu computadornão explodir% ho@eAM de Atodos os portadores de S examinados t+m um cromossomo extraA paraAtodos os portadores de S t+m um cromossomo extraAM de Atodos os corpos obser$ados at! aoraobedecem a lei da ra$idade de >eDtonA para Atodos os corpos obedecem a lei da ra$idade de>eDtonA e assim por diante. -m cada um desses casos, o nosso raciocínio parece depender daassun*ão de que os ob@etos que nós não examinamos serão similares, em aspectos rele$antes, aosob@etos do mesmo tipo que examinamos. ? esta assun*ão que Lume desina pela uniformidade danatureza. &as como sabemos se a assun*ão > ! realmente $erdadeira, perunta Lume( Podemos tal$ezpro$ar sua $erdade de aluma maneira 9no sentido estrito de pro$a=( >ão, diz Lume, não podemos.Pois ! f%cil imainar um uni$erso onde a natureza não ! uniforme, mas muda seu cursorandomicamente de um dia para o outro. -m tal uni$erso, computadores podem Ns $ezes explodirsem qualquer razão, a %ua pode Ns $ezes nos intoxicar sem a$iso, bolas de bilhar pode Ns $ezesparar de colidir e assim por diante. Kisto que este uni$erso Anão2uniformeA ! concebí$el, seue2seque não podemos estritamente pro$ar a $erdade de >. Pois se pud!ssemos pro$ar que > !$erdadeiro, então o uni$erso não2uniforme seria uma impossibilidade lóica. Concedido que não podemos pro$ar o >, poderíamos contudo ter a esperan*a de encontrar boae$id+ncia empírica para a sua $erdade. #final, $isto que a > mante$e2se sempre $erdadeira at!aora, isto seuramente nos d% boa razão para pensar que ela ! $erdadeira( &as este arumentocomete uma peti*ão, diz Lume Pois ele mesmo ! um arumento induti$o e assim ele mesmodepende da assun*ão >. m arumento que assume > desde o come*o claramente não pode serusado para mostrar que > ! $erdadeiro. Para colocar o ponto de outro modo, ! um fato certo e
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