Teoria, análise e nova musicologia: debates e perspectivas

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  Teoria, análise e nova musicologia: debates e perspectivas
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Pesquisadores da área de teoria da música responderam às críticas de formalismo e cientificismo das abordagens analíticas tradicionais com as seguintes alternativas: discussão das distâncias e proximidades entre as disciplinas, a ideia de “voz” da música e suas possibilidades analíticas, um redimensionamento da escuta estrutural, a reabilitação da experiência sensível com a música, a aplicação do empirismo na pesquisa sobre aspectos técnicos do processo musical e a reavaliação da bibliografia teórica e analítica. Verifica-se um processo de acomodação entre pressupostos modernistas, que caracterizavam a empreitada analítica da teoria da música norte-americana do século XX, e pós-modernistas, que fundamentam as críticas e propostas da nova musicologia. Esse processo abre espaço acadêmico para uma abordagem analítica enriquecida, uma musicologia interpretativa, que aplica modos verbais de expressão para lidar com composições específicas como mais do que uma série de procedimentos técnicos, explorando questões de significado e associações estéticas e históricas diretas ou indiretas. Palavras-chave : teoria da música; análise musical; nova musicologia. Abstract: This paper presents a bibliographic review of academic debates involving the areas of music theory, musical analysis, and new musicology. Researchers in music theory have responded to the criticism of formalism and scientificism in traditional analytical approaches with the following alternatives: discussion of disciplinary spaces, the idea of “voice” of music and its analytical possibilities, rehabilitation of sensible experiences with music, empiric research on technical aspects of musical processes, and reevaluation of the theoretical and analytical bibliography. Therefore, there is a process of accommodation between modernist assumptions, which characterize the analytical enterprise of twentieth-century North-American music theory, and post-modernist assumptions, which support the critiques and propositions of new musicology. This process opens up the academic space for an enriched academic approach, an interpretative musicology that applyies verbal modes of expression to deal with specific compositions as more than a series of technical procedures, exploring matters of meaning, aesthetic and historical, direct and indirect associations. Keywords : music theory; musical analysis; new musicology.  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . OLIVEIRA   opus   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 101 m artigo publicado no ano de 2006, Antenor Corrêa propõe uma revisão crítica da história da análise musical, buscando determinar sua relevância como área de estudo acadêmico. O autor discute os desafios inerentes à disciplina e seu papel na pesquisa musical como um todo, apontando tanto limitações qualitativas de análises meramente descritivas, quanto os dilemas epistemológicos e metodológicos de abordagens sofisticadas. Neste contexto, um dos autores citados por Corrêa é Joseph Kerman, iniciador, a partir da década de 1960, de diversas críticas à pesquisa acadêmica musical. O ponto central do desafio de Kerman (1980) à teoria da música e à análise musical é a afirmação de que esses campos de estudo se equivocaram pela postura modernista colocada em prática por meio de modelos formalistas e cientificistas de investigação, pretensamente isentos de juízos de valor. A partir dessas críticas, a análise deveria reconstituir-se como um tipo de crítica musical pós-modernista e pluralista, abarcando julgamentos estéticos e históricos a partir da contextualização mais ampla das obras musicais analisadas, visando à inserção da musicologia em debates das correntes principais das ciências humanas. (WILLIAMS, 2000, p. 385) As críticas de Kerman se dirigem também para o que classifica de positivismo factual da musicologia histórica tradicional. Respostas a essas críticas e aos paradigmas propostos pelo autor srcinaram novas linhas de pesquisa que, embora incluam uma enorme diversidade de abordagens, acabaram por constituir uma nova disciplina de estudos acadêmicos sobre música. Essa “nova” musicologia ou musicologia pós-moderna opõe-se à teoria da música (ênfase na estrutura da obra) e à “velha” musicologia (ênfase no cânon da música erudita europeia), propondo-se a lidar com aspectos sociais, políticos e ideológicos que as duas outras disciplinas não exploram. (McCRELESS, 1996, §8) Um dos exemplos mais célebres e polêmicos dessa “nova” musicologia talvez seja a musicologia feminista de Susan McClary, que se propõe a examinar construções culturais de gênero, sexualidade e corpo em diversos repertórios musicais. A autora apresenta, por exemplo, uma interpretação da recapitulação do primeiro movimento da Nona Sinfonia de Beethoven como expressão de uma ira assassina com motivações sexuais. ( apud   COOK, 2001, p. 171) Embora as caracterizações de positivismo e formalismo de Kerman fossem verdadeiras caricaturas, (COOK; EVERIST, 2001, p. vii) a simples reafirmação das metodologias analíticas e seus pressupostos (alternativa defendida, por exemplo, por KINTON, 2004) é uma resposta insuficiente para os desafios da nova musicologia, uma vez que os próprios métodos e pressupostos precisam ser reavaliados como produtos culturais e históricos. (CORRÊA, 2006, p. 40) Portanto, a nova musicologia desafiou parâmetros E  Teoria, análise e nova musicologia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .   opus 102 disciplinares tidos como certos, exigindo que diversos aspectos dos estudos musicais acadêmicos sejam repensados. (COOK; EVERIST, 2001, p. vii) O número 2, do volume 2 do periódico  Music Theory Online , em 1996, foi dedicado à busca de alternativas para os desafios enfrentados pela teoria da música e análise musical diante da nova musicologia. O número consiste em seis contribuições, representando seis abordagens à temática. A revisão desses textos permite levantar algumas das principais questões pertinentes a esse relevante debate para os estudos musicais acadêmicos. Esse artigo configura-se, portanto, como revisão bibliográfica, discutindo as contribuições dos seis autores, relacionando-as entre si e com trabalhos posteriores. Distâncias e proximidades entre disciplinas McCreless (1996) introduz o grupo de artigos com uma discussão sobre o aspecto disciplinar dos debates entre teoria da música e nova musicologia. Ele chama atenção para o fato de que esses debates refletem como as disciplinas se definem, propõem formas específicas de pensar, construir, acumular e difundir conhecimento, ao mesmo tempo em que estabelecem relações de poder. O autor adota, portanto, uma perspectiva em que “poder e saber estão diretamente implicados; que não há relação de poder sem constituição correlata de um campo de saber, nem saber que não suponha e não constitua ao mesmo tempo relações de poder”. (FOUCAULT, 2007, p. 27) Assim, sua descrição do surgimento da própria versão contemporânea e norte-americana da teoria da música enfatiza a atitude de pesquisadores que superaram a função de meros professores de disciplinas teóricas, construindo para si o espaço profissional em universidades e a associação específica da área, separada das áreas de musicologia e composição. Essas iniciativas efetivamente fundaram a disciplina ao mesmo tempo em que proporcionaram uma inédita apropriação de poder, por meio da inserção no mecanismo acadêmico de produção de conhecimento. (McCRELESS, 1996, §3-7) Sob esse ponto de vista, o surgimento da nova musicologia, que se utilizou justamente da insistência da teoria da música sobre a obra e sua estrutura como contraste necessário ao estabelecimento de suas próprias premissas, (McCRELESS, 1996, §8) pode ser interpretado como uma ameaça velada às disciplinas estabelecidas anteriormente (COOK, 2001, p. 170) ou até mesmo como uma disputa aberta por espaço em publicações e empregos universitários. (GUCK, 1996, §39) Para McCreless (1996, §10) é necessário superar uma discussão simplista voltada  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . OLIVEIRA   opus   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 103 para a mera atribuição de rótulos ou estabelecimento da abordagem mais correta ou mais avançada. As diferenças entre os tipos de discurso devem ser colocadas na sua devida perspectiva disciplinar. O autor propõe, portanto, que as discussões sobre teoria da música e nova musicologia sejam consideradas em termos dos espaços que separam e aproximam as linhas de pesquisa de cada disciplina. A “voz” da música e alternativas analíticas Para Burnham, (1996, §1-3) qualquer peça musical, por mais simples que seja, pode ser abordada de pelo menos duas maneiras. Uma das possibilidades é a tentativa de desvendar os sentidos da peça a partir de uma matriz cultural, que o autor associa ao discurso acadêmico da nova musicologia. Entender o funcionamento da peça em termos das técnicas musicais empregadas é a alternativa claramente associada ao discurso da teoria da música. O autor argumenta que tanto análises ideológicas quanto técnicas levam em conta os clichês que foram, ao longo da história, adicionados à gramática da música. Esses clichês constituem um sentido compartilhado da música “em si mesma”, construído em parte pelo treinamento do músico profissional e em parte pelo que o autor identifica como uma tendência a generalizar o nosso conhecimento sobre música a partir de protótipos palpáveis. Agawu (1996, §11) também chama atenção para o fato de que as análises da nova musicologia se baseiam em concepções tradicionais de elementos técnicos da música ocidental. Para Burnham, (1996, §15) interpretações de significado da música pressupõem a existência de uma “voz” própria da música. A relevância da teoria da música se estabelece, portanto, como uma forma de considerar não apenas o que a música significa, mas como ela significa. O autor admite, entretanto, que as críticas da nova musicologia são válidas para provocar reflexões sobre os pressupostos ideológicos da teoria e sobre o desinteresse despertado atualmente por discussões unicamente técnicas. Assim, embora a teoria da música seja relevante ao considerar as técnicas musicais, precisa fazer mais em termos de conectar as considerações sobre essas técnicas com valores humanos em geral. (BURNHAM, 1996, §16) Posteriormente, Burnham (2001) retoma essa argumentação no contexto específico de uma discussão sobre interpretações do conteúdo poético da música. Volta a diferenciar a análise musical – que enfatiza uma visão da música como linguagem autônoma  – da interpretação do conteúdo poético – que supõe a possibilidade de associar outros tipos de significados às obras musicais. Para o autor, “todos nós acolhemos um sentido da  Teoria, análise e nova musicologia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .   opus 104 música como música, assim como um sentido da música como algo que nos fala de coisas que não são necessariamente musicais”. (BURNHAM, 2001, p. 215)  1  Assim, as duas possibilidades não são excludentes, mas representam os dois lados de uma relação dialógica que estabelecemos com a música, pressupondo “que temos autoridade para falar sobre música e que a música tem autoridade para falar sobre nós”. (BURNHAM, 2001, p. 216)  2  Dessa maneira, o autor complementa sua noção de “voz” da música, construindo uma premissa sobre a qual as duas possibilidades analíticas podem ser vistas como atividades complementares. Quanto ao dilema entre teoria da música e nova musicologia abordado no artigo de 1996, a conclusão de Burnham é que as disciplinas dividem pressupostos sobre a materialidade da música e sobre protótipos musicais palpáveis que as aproximam e torna possível um diálogo entre elas. A consideração crítica desses pressupostos é uma tarefa central e compartilhada entre as disciplinas. “Entre outras coisas, esse tipo de exploração compartilhada envolveria uma nova ênfase no papel do corpo, pois isso está no centro da minha preocupação sobre protótipos palpáveis e os prazeres da teoria da música”. (BURNHAM, 1996, §21)  3  Como exemplo de pesquisas que visam esse objetivo, menciona trabalhos de Lawrence Zbikowski e Janna Saslaw que exploram a aplicação das teorias de modelos conceituais e metáforas conceituais provenientes da linguística cognitiva à área de teoria da música. Redimensionamento da escuta estrutural O ponto de partida para a contribuição de Dubiel (1996) ao número especial do  Music Theory Online  foi um debate sobre a abordagem de Rose Rosengard Subotnik, pesquisadora ligada às correntes da nova musicologia, à música contemporânea no contexto de sua exploração de diferentes tipos de escuta. (SUBOTNIK, 1988) A escuta estrutural associada à análise musical é criticada por Subotnik, sendo definida como um método que focaliza as relações formais estabelecidas ao longo de uma composição, em 1  “...we all harbour a sense of music as music as well as a sense of music as speaking to us of things that are not necessarily musical”. 2  “We assume that we have the authority to speak about music and that music has the authority to speak about us”. 3  “Among other things, this type of shared exploration would involve a shift to the role of the body, for this is at the heart of my concern about palpable prototypes and the pleasures of music theory”.
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