RESISTÊNCIAS EM REDE: Uma análise das articulações entre cidadania, comunicação e consumo a partir do vídeo “Bichas: o documentário”

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  In our society and culture, the fags are repeatedly discriminated based on the stigma of a homoerotic desire and the expressions of gender transposing the barriers of an ideal of hegemonic masculinity. They suffer, as a result, with a lot of
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    ISSN: 2179-9938   REVISTA PASSAGENS - Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Ceará Volume 8. Número 1. Ano 2017. Páginas 95-106. 95   RESISTÊNCIAS EM REDE: Uma análise das articulações entre cidadania, comunicação e consumo a partir do vídeo “Bichas: o documentário”   RESISTANCES IN THE NETWORK: An analysis of the articulations among citizenship, communication and consumption from the video “Bichas: o documentário”   Hadriel Theodoro Resumo: Em nossa sociedade e cultura, as bichas são reiteradamente discriminadas, tanto pela estigmatização de um desejo homoerótico quanto pelas expressões de gênero que transpõem as barreiras de um ideal de masculinidade hegemônico. Elas sofrem, por consequência, com uma série de violências, simbólicas e físicas, que as coloca em um lugar de precariedade. Dado este contexto, o presente artigo visa refletir sobre os modos de apropriações e usos das mídias alternativas (sobretudo a Internet) para a criação, circulação e consumo de discursos contra-hegemônicos sobre a homossexualidade e as expressões de gêneros que a englobam. Para ta nto, o vídeo “Bichas: o documentário” é tomado como o objeto de análise. Veiculado no site de compartilhamento de vídeos YouTube, “Bichas” teve mais de 479 mil acessos desde a sua divulgação (em fevereiro de 2016). A metodologia empregada se pauta na análise dos discursos das seis bichas que relatam suas vivências. De modo geral, pode-se afirmar que as mídias digitais possuem um forte potencial de articulação no sentido de promover engajamentos em sentidos diversos. No caso das bichas, elas demonstram ser uma importante ferramenta para a demanda por cidadania e transformações sociais. Palavras-chave:  bichas; estudos de gênero e sexualidade; cidadania; comunicação; consumo. Abstract: In our society and culture, the fags are repeatedly discriminated based on the stigma of a homoerotic desire and the expressions of gender transposing the barriers of an ideal of hegemonic masculinity. They suffer, as a result, with a lot of violence, symbolic and physical, that puts them in a place of precariousness. Given this context, this article aims to reflect on the ways of appropriation and use of alternative media (especially the Internet) for the creation, circulation and consumption of speeches counterhegemonic about homosexuality and the expressions of gender. Therefore, the video “Bichas: o documentário” is taken as the object of analysis. Published on the YouTube, it had more than 479 thousand accesses since the publication (in February 2016). The methodology is guided in the analysis of the speeches of the six fagots who report their experiences. In general, it can be stated that digital media have a strong potential for articulations to promote engagement in different directions. In the case of fagots, they prove to be an important tool for the demand for citizenship and social transformation. Keywords:  fagots; gender and sexuality studies; citizenship; communication; consumption.    ISSN: 2179-9938   REVISTA PASSAGENS - Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Ceará Volume 8. Número 1. Ano 2017. Páginas 95-106. 96   Por entre desejos e sexualidades: algumas considerações iniciais    A bicha que deve ser mais valorizada é a bicha afeminada. É aquela bicha que dá a cara a tapa a todo momento, e desde criancinha sofre preconceito, cresce com isso e amadurece muito mais rápido. A cara do movimento gay é a bicha afeminada. E aí a  gente deveria ter essa ideia de que a gente pode ser o que a gente quiser.  Italo Amorin, em “Bichas: o documentário”   Os desejos fazem parte de nossa constituição enquanto sujeitos. De fato, somos o que Foucault (1984) nomeia de “sujeitos de desejo”. Neste sentido, eles se tornam fonte de subjetividades múltiplas. Quando falamos especificamente sobre os desejos sexuais, precisamos ter em mente que eles assumem formas e significados cambiantes, socioculturalmente engendrados. Os desejos sexuais são fluidos, plurais, escorrem pelas amarras sociais, transgridem normas, rompem moralidades. Assim sendo, reverberam nos modos de experienciarmos e vivenciarmos nossos corpos, nos prazeres e seus usos, nas afetividades e nas técnicas de construção de si. Tendo em vista tal potencial, não seria difícil de se supor que os desejos sexuais são geralmente apreendidos como um risco ou perigo às sociabilidades, sendo associados à desordem, à destruição, às armadilhas do descomedimento. Esse é um  processo histórico, que faz parte da genealogia dos desejos sexuais no Ocidente (FOUCAULT, 1984). É a partir desta compreensão dos desejos que corpos, práticas sexuais e prazeres são regulados, em cada sociedade e cultura, por meio de códigos éticos e morais. Baseadas neles, algumas formas de desejo podem ser representadas como anômalas, desviantes, patológicas. Este é o caso da homossexualidade. Há pelo menos dois séculos a compreensão sobre a homossexualidade vem sendo construída tomando como base uma vertente normativa (FOUCAULT, 1984). A homossexualidade é alocada no interior de um sistema de normas onde irá ocupar reiteradamente um locus inferior, a patentear a hierarquização dos desejos, sexualidades e identidades sexuais. Para Rubin (2003), é como se houvesse uma pirâmide social dos desejos e práticas sexuais. Em seu topo, reinando em absoluto, estariam os heterossexuais maritais e reprodutivos, mas:  Na medida em que os comportamentos sexuais ou ocupações se movem para baixo da escala [seguindo a ordem: casais heterossexuais monogâmicos não casados; sujeitos heterossexuais solteiros; casais lésbicos e gays de longa duração; sujeitos homossexuais solteiros; transexuais, travestis, fetichistas, sadomasoquistas e trabalhadores do sexo; sujeitos cujo erotismo transgride as fronteiras geracionais], os indivíduos que os praticam são sujeitos com presunção de doença mental, má reputação, criminalidade, mobilidade social e física restrita, perda de suporte institucional e sanções econômicas (RUBIN, 2003, p. 16).  Fica claro que esse processo de valoração acarreta profundos reflexos sociais, culturais, políticos, educacionais, médicos, jurídicos, midiáticos, etc. No que concerne à homossexualidade, uma vez delineados os contornos de um sujeito heterossexual  padrão, culturalmente prestigiado, ela passa a ser concebida como uma forma de desejo,    ISSN: 2179-9938   REVISTA PASSAGENS - Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Ceará Volume 8. Número 1. Ano 2017. Páginas 95-106. 97   de expressão e de identidade sexual desviantes. Torna-se uma ameaça (metafórica) à  própria manutenção da espécie e das sociedades. Assim sendo, aquelas(es) que se expõem publicamente enquanto sujeitos de um desejo homossexual estão suscetíveis a uma série de precariedades, tais como a estigmatização social; a perda de direitos e de cidadania; a medicalização e  psiquiatrização de sua existência; violências simbólicas e físicas; a marginalização e a discriminação. Tais consequências se estendem no decorrer da modernidade. Até a década de 1970, por exemplo, a homossexualidade era considerada uma doença pela Associação Americana de Psiquiatria (APA) e ainda hoje ela é tida como crime passível de morte em países como Arábia Saudita, Irã, Somália e Nigéria. Com efeito, a homossexualidade se converte em um pânico sexual e, como defende Rubin (2003, p. 26), “cada pânico sexual ou campanha moral deposita novas regulações como um tipo de registro fóssil de sua passagem”.  Por outro lado, devemos considerar que as construções de sentido acerca dos desejos, sexualidades e práticas sexuais estão inscritas em um campo de batalha, que sempre é muito efervescente. Isso porque diferentes segmentos sociais e/ou instituições, como a Igreja, o Estado, o sistema jurídico, as(os) legisladores(as), a família, etc., criam discursos, morais e ideologias sexuais que visam circunscrever as possibilidades experienciais dos sujeitos de desejo. No âmbito desses constantes embates, desde a década de 1950 movimentos civis homossexuais começaram a se articular  politicamente, por meio de engajamentos e ativismos em diferentes frentes, na Europa e nos Estados Unidos. Emergem as políticas sexuais, cujo conceito: (...) permite interpelar simultaneamente múltiplas dimensões da gestão social do erótico e do sexual e explorar a coexistência, às vezes conflitiva, de distintos e muitas vezes contraditórios estilos de regulação moral, compreendidos aqui como conjuntos singulares de técnicas de produção de sujeitos, ou seja, de pessoas dotadas de certa concepção de si e de certa corporalidade (CARRARA, 2015, p. 325).  De modo geral, os movimentos civis homossexuais (e mais amplamente os movimentos LGBTIQ 1 ) vêm atuando, tanto no contexto brasileiro quanto internacional, com o intuito de garantir liberdade, cidadania e direitos aos homossexuais (e aos sujeitos tidos como desviantes sexuais e/ou de gênero). Na contemporaneidade, essas lutas são fomentadas e amplificadas a partir do espraiamento das tecnologias da informação e da comunicação (TICs), com destaque à Internet. Remodelando a produção e o consumo midiáticos, a Internet possibilita que a geração e a veiculação de conteúdos sejam realizadas por uma maior quantidade de  pessoas e instituições, horizontalizando uma estrutura que até então era bastante hierárquica (poucos detinham a possibilidade de se comunicar com muitos). Assim, ela “permite, pela primeira vez, a comunicação de muitos com muitos, num momento escolhido, e m escala global” (CASTELLS, 2003, p. 8). Os espaços online emergem,  portanto, como um profícuo ambiente para mobilizações, debates, engajamentos e ativismos, tornando- se um “palco de ação política” ( CARVALHO; CARRARA, 2015,  p. 396). E, por mais que a Internet também propicie a multiplicação de discursos conservadores e discriminatórios, sua faculdade comunicativa para as minorias representativas, incluindo as minorias sexuais, é inegável. 1  A sigla se refere a lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, intersexos e queer.    ISSN: 2179-9938   REVISTA PASSAGENS - Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Ceará Volume 8. Número 1. Ano 2017. Páginas 95-106. 98    Nesta perspectiva, as práticas de consumo que envolvem a Internet irão se associar muito proximamente à cidadania. Considerando as práticas de consumo centrais nas sociedades modernas e contemporâneas, a compreender que elas vão muito além de um viés consumista ou supérfluo, verificamos que o consumo atua como um vetor de sentidos sociais coletivamente compartilhados, ordenando as sociabilidades (DOUGLAS; ISHERWOOD, 2009). Isso significa que as maneiras de consumir implicam em formas de exercício da cidadania. Para Canclini (2010), a difusão do acesso e do consumo das mídias digitais viabiliza a afluências de massas populares à esfera pública, o que desloca o exercício da cidadania em direção à comunicação midiática e, obviamente, às dinâmicas de consumo que as abarcam. Ante as considerações até aqui desenvolvidas, pretendo refletir a respeito das  potencialidades das TICs para a produção, circulação e consumo de discursos contra-hegemônicos acerca da homossexualidade. O objetivo é verificar, a partir do vídeo “Bichas, o documentário” 2 , divulgado no site YouTube 3 , as apropriações midiáticas das TICs no sentido de promover resistências contra as normatizações de desejos, sexualidades e expressões de gênero compreendidos nesse modo tão particular de ser, de ser bicha. Percurso metodológico  Tomei conhecimento do documentário  Bichas  no site de rede social Facebook, onde foi amplamente divulgado por pessoas e páginas de alguma forma relacionadas com as causas da comunidade LGBTIQ. Os consumos midiáticos em torno do vídeo ficam evidentes pelo número de visualizações: mais de 479 mil desde sua publicação, em 20 de fevereiro de 2016. O documentário foi produzido e dirigido por Marlon Parente, e apresenta os depoimentos de seis bichas: Bruno Delgado, Igor Ferreira, Italo Amorim, João Pedro Simões, Orlando Dantas e Peu Carneiro 4 . Em entrevista concedida ao portal de notícias UOL 5 , Marlon afirma que a ideia de realizar o documentário veio após ele e alguns amigos serem ameaçados com uma arma por um desconhecido, na cidade de Recife. Este teri a dito: “Suas bichas, vou atirar em você”. Assim, o documentário é fruto de uma experiência homofóbica, mas tenciona produzir um empoderamento a todas as  bichas: “Eu tinha duas opções: deixar esse episódio tomar conta de mim e me corroer ou fazer algo para que eu pudesse superar.”, relata Marlon ao UOL.  A concepção do documentário é bastante simples: expõe os relatos de seis  jovens no que concerne às suas experiências de vida permeadas pela (homo)sexualidade. Para a análise aqui proposta, irei me pautar nos relatos dessas 2  Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=0cik7j-0cVU>. 3  Site que possibilita aos(às) usuários(as) o carregamento e compartilhamento de vídeos em formato digital. Atualmente ele pertence ao grupo Google Inc. 4  Opto por conversar o nome verdadeiro dos participantes do documentário, haja vista que os mesmos  podem ser encontrados na descrição do vídeo no YouTube, que é acessível a qualquer usuária(o) do site. Este também é um ato de empoderamento em relação aos participantes, pois ocultar seus nomes corresponderia a ocultar suas identidades sexuais, ou seja, seu posicionamento identitário enquanto  bichas. 5  Disponível em: <http://cinema.uol.com.br/noticias/redacao/2016/02/25/ao-custo-de-r-10-documentario- bichas-nasceu-apos-ameaca-com-revolver.htm>. Acesso em: abril de 2016.      ISSN: 2179-9938   REVISTA PASSAGENS - Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Ceará Volume 8. Número 1. Ano 2017. Páginas 95-106. 99    jovens bichas, procurando apreender em seus discursos as potencialidades de articulação contra-hegemônicas no que se refere à sexualidade. Neste ponto estão englobadas questões intimamente associadas aos direitos e à cidadania dos sujeitos homossexuais, e, mais especificamente, das bichas. Por fim, é válido salientar que, como o documentário tem mais de 40 minutos de duração, precisei selecionar somente algumas passagens para a análise, dado o limite da extensão deste trabalho. Buscando exemplificar precariedades às quais as bichas estão  propensas em nossa sociedade e cultura, a seleção se pautou nas temáticas centrais do documentário e considerou as vozes de todos seus seis integrantes. “Eu sou bicha”: dos discursos contra -hegemônicos às demandas por cidadania  Inicio a análise pelo modo de apresentação de cada um dos participantes do documentário: Oi, meu nome é Joao Pedro, mais conhecida como Peu, Peutney, ou Britney, ou Lara Beckney... Meu nome é Bruno. Eu sou bicha. Tenho 24 anos. E a minha idade eu não revelo. Eu sou João Pedro, eu tenho 21 anos, eu sou bicha e eu sou preta. Meu nome é Igor. Eu tenho 19 anos, eu sou drag queen e eu sou bicha. Meu nome é Italo. Eu tenho 26 anos e eu não tenho a menor vergonha de ser bicha. Meu nome é Orlando Dantas. Eu tenho 22 anos e eu sou bicha.  Na fala dos seis jovens se evidencia um rompimento em relação às normatizações do gênero. Ser bicha não significa apenas expressar um desejo homossexual, mas, também, atravessar as barreiras do masculino em direção ao feminino e, assim sendo, flexibilizar um ideal hegemônico de masculinidade. Peu e João Pedro, por exemplo, referem-se a si mesmos gramaticalmente no feminino (“conhecida”; “preta”), a corroborar essas fraturas até mesmo em nível linguístico.  Destaca- se igualmente um posicionamento que toma a característica “bicha” como um constituinte de suas identidades, de uma identidade pública que almeja ser, além de legitimada, ressignificada.  Neste ponto devemos compreender que a categoria “bicha” se in screve em um sistema de representações sobre os gêneros e as sexualidades que varia cultural, social e historicamente. Na concepção de Fry (1982, p. 90), ela “se define em relação à categoria “homem” em termos de comportamento social e sexual”, uma vez que   “enquanto o “homem” deveria se comportar de uma maneira “masculina”, a “bicha” tende a reproduzir comportamentos geralmente associados ao papel de gênero (gender role) feminino”. Tal percepção, bastante estereotipada, está fortemente impregnada no imaginário brasileiro, que compreende a bicha em termos de desvio, de anormalidade, de poluição. Seguindo seus liames, iremos averiguar a bicha como um contraponto da  própria “essência” de “homem”. A bicha, ademais, pode inclusive se objetar a ideias de masculinidade que estão fortemente presentes em uma economia dos copos, desejos,  prazeres e expressões de gênero entre os próprios homossexuais. 6   6  Como exemplo, cf. Dos Reis (2012).
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