Reflexões sobre modernidade e holocausto a partir de Zygmunt Bauman / Reflections on Modernity and Holocaust from Zygmunt Bauman. In: Revista Argumentos da Universidade Federal do Ceará (UFC)

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  A RGUMENTOS , ano 6, n. 11 - Fortaleza, jan./jun. 2014 281 * Doutorando em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Email:  Jozivan2008guedes@gmail.com RESUMO  Esta pesquisa objetiva investigar a relação entre Modernidade e Holocausto a partir das contribuições de Bauman, tendo como fio condutor de suas reflexões a ideia que o Holocausto significou o apogeu e o fracasso da racionalidade moderna. No âmago desta racionalidade reside a despolitização, desmoralização e desjuridicização  do indivíduo. Como consequência, ocorre o fortalecimento da tecnocracia e a restrição burocrática da vida, consolidando, assim, o ideal do  Estado jardineiro  que consiste em separar o joio do trigo, mesmo que esta limpeza seja executada a partir das práticas de extermínio. Palavras-chave: Modernidade; Holocausto; Extermínio; Memória; Respon-sabilidade. ABSTRACT This research aims to investigate the relation between Modernity and Holocaust starting from of the contributions of Bauman, having as conducting wire of its reflections the idea which the Holocaust meant the apogee and the failure of the modern rationality. At the heart of this rationality lies the depolitization, demoralization and the dejurisdicization  of individual. As consequence, occur the strengthening of the technocracy and the bureaucratic restriction of life, consolidating thus the ideal of the Gardener State  which consists in to separate the wheat from the tare, even if this cleanness be executed from the practices of extermination. Keywords: Modernity; Holocaust; Extermination; Memory; Responsibility.  Reflexões sobre a modernidade e o holocausto a partir de Zygmunt Bauman – Francisco Jozivan Guedes de Lima Francisco Jozivan Guedes de Lima* A    R  e  v   i  s   t  a   d  e   F   i   l  o  s  o   f  a Reflexões sobre a modernidade e o holocausto a partir de Zygmunt Bauman  A RGUMENTOS , ano 6, n. 11 - Fortaleza, jan./jun. 2014   282 Introdução  Em torno do evento trágico da Segunda Guerra Mundial há uma pergunta fulcral que continua a desafiar não só aos intelectuais da História, da Filosofia, da Sociologia, da Psicologia, etc., mas aos indivíduos que de fora do âmbito acadêmico temem o retorno de uma nova Auschwitz: O que tornou possível o Holocausto? Suas causas estariam no antissemitismo retro-alimentado ao longo da relação entre judeus e cristãos? Seriam motivadas por uma mente psicopata como a de Hitler e seus seguidores? Teriam sido motivadas pelas forças ocultas e teleológicas do progresso histórico  vom Schlechtern zum Bessern ? Seriam tais causas resultado dos intentos de um partido político totalitário? São variadas hipóteses, cada uma com sua legitimação e justificativa, nesse sentido, conjecturas respeitáveis. Entretanto, é possível que a gênese do Holocausto não seja sustentada simplesmente a partir de motivos religiosos, políticos, psicológicos, histórico-teleológicos, mas seja compreendida a partir da própria lógica moderna de conceber a vida, o mundo, o homem, a natureza e os valores. Este é o caminho que aponta o sociólogo Zygmunt Bauman 1 : a imbricação entre modernidade e Holocausto. Tal conexão é perpetrada de um modo que excede as próprias fronteiras da Sociologia, construindo-se, assim, a partir do diálogo interdisciplinar com contribuições, mormente da História, da Filosofia (em especial da Escola de Frankfurt com sua crítica à  racionali-dade instrumental  e de contemporâneos como Levinas), da Literatura, e da Psicologia comportamental. Como bem salienta Benedetto Vecchi, ao entrevis-tar Bauman em  Identidade :  Temos aqui um intelectual para quem o  princípio da responsabili-dade  é o primeiro ato de qualquer envolvimento na vida pública. Para um sociólogo, isso significa conceber a sociologia não como uma disciplina ‘independente’ de outros campos do conhecimento, mas como uma disciplina que fornece a ferramenta analítica para se esta-belecer uma vigorosa interação com a filosofia, a psicologia social e a narrativa. (BAUMAN, 2005a, p. 9).  A profundidade – por que não dizer filosófica – de Bauman está em ir além do puro diagnóstico ou da mera pesquisa genealógica em torno do 1  Bauman (1925-) iniciou sua carreira na Universidade de Varsóvia, onde teve artigos e livros censurados. Em 1968 foi afastado da referida universidade por participar do influente movimento reformista que desafiou a liderança do Partido dos Trabalhadores Unidos e a subjugação dos poloneses às ordens do Partido Comunista de Moscou. Logo em seguida emigrou da Polônia, reconstruindo sua carreira no Canadá, Estados Unidos e Austrália, até chegar à Grã-Bretanha, onde em 1971 se tornou professor titular da Universidade de Leeds, cargo que ocupou por vinte anos. Em 1989, recebeu o prêmio  Amalfi , por sua obra  Modernidade e Holocausto . Em 1998, recebeu o prêmio  Adorno  pelo conjunto de sua obra. Durante a Segunda Guerra, fugiu para a União Soviética, onde se alistou no exército e enfrentou o nazismo.  Atualmente é professor emérito de sociologia das universidades de Leeds e Varsóvia.    Reflexões sobre a modernidade e o holocausto a partir de Zygmunt Bauman – Francisco Jozivan Guedes de Lima  A RGUMENTOS , ano 6, n. 11 - Fortaleza, jan./jun. 2014 283 Holocausto. Seguindo à advertência adorniana, ele se preocupa em corroborar o imperativo que Auschwitz não se repita , evocando para isso a predominância, na sociedade atual, dos traços modernos que possibilitaram a carnificina na Segunda Guerra. A questão central é como construir uma nova moralidade e racionalidade que leve em consideração a alteridade e a responsabilidade pelo outro, deslocando, assim, as relações intersubjetivas para além da lique-fação e fragilidade dos vínculos que são estabelecidos no mundo hodierno. Em outras palavras, urge a necessidade de pensar uma sociedade que conceba as relações para além do binômio vendedor-comprador e,  ipso facto , para além da lógica do capital que inclui os consumidores adequados  e exclui os consumidores defeituosos  a partir da medida do potencial de consumo (Id., 2008, p. 85), tornando assim as técnicas de aviltamento  do Holocausto uma prática vigente com uma roupagem diferente. Isso faz evocar a memória, o trauma da segregação e traz à consciência a ideia que o lugar do excluído de hoje não muito difere da situação da vítima conduzida friamente à câmara de gás. A diferença é que este em pouco tempo tem seu corpo cremado enquanto que aquele morre lentamente sob os flagelos da fome e da desigualdade. Como frisa o próprio Bauman, no mundo de desigualdades onde há poucos vencedores solitários, o destino final dos excluídos ( os desajustados do sis-tema ) é o lixo, isto é, o padecimento ao assistencialismo e a descartabilidade (Ibid., p. 161). Um esboço acerca da genealogia do holocausto Para Bauman há duas maneiras equivocadas para tratar o holocausto: (i) concebê-lo como um evento isolado como sendo próprio da história judaica, como um produto do antissemitismo; (ii) entendê-lo como um caso extremo , como produto de abominável e repulsivo preconceito (Id., 1998, p. 19-20). Não se pode também atribuir a srcem do Holocausto ao desequilíbrio psicológico de um único mentor. Sua tese fundamental é que [...] o Holocausto não foi simplesmente um  problema judeu nem fato da  história judaica  apenas.  O Holocausto nasceu e foi executado na nossa  sociedade moderna e racional, em nosso alto estágio de civilização e no auge do desenvolvimento cultural humano, e por essa razão é um problema dessa sociedade, dessa civilização e cultura. (Ibid., p. 12). Bauman acompanha Henry Feingold na hipótese que o Holocausto foi um fenômeno inusitado gestado e forjado pela própria racionalidade moderna. Ele apareceu num veículo de produção industrial, empunhando armas que só a ciência mais avançada poderia fornecer e seguindo um itinerário traçado por uma organização cientificamente administrada. A civilização moderna não foi  Reflexões sobre a modernidade e o holocausto a partir de Zygmunt Bauman – Francisco Jozivan Guedes de Lima  A RGUMENTOS , ano 6, n. 11 - Fortaleza, jan./jun. 2014   284 a condição  suficiente do Holocausto; foi, no entanto, com toda a certeza, sua condição  necessária . Sem ela, o Holocausto seria impensável. Foi o mundo racional da civilização moderna que tornou viável o Holocausto (Ibid., p. 32).  Essa tese de Bauman de que o Holocausto não foi um evento meramente judeu, mas algo decorrente da própria racionalidade moderna confronta toda uma tradição que vê nesse extermínio uma prática antissemita. Em  A marca dos  genocídios , por exemplo, Michael Stivelman apresenta vários exemplos de ex-termínios onde o povo judeu foi tomado como alvo de extermínios. Numa de suas narrativas, evoca a guerra de independência dos ucranianos perante os poloneses, em 1648, quando os Cossacos da Ucrânia, de religião ortodoxa grega, massacraram judeus e católicos da Polônia. Os judeus que não se converteram à religião dos cossacos eram trucidados de forma extremamente brutal:  Eram esfolados vivos e atirados aos cães; tinham seus membros dece-pados e atirados sob os cavalos; outros eram deixados sangrando até morrer; outros enterrados vivos; mulheres grávidas tinham seus ventres perfurados por espadas e adagas, o feto retirado e lançado sobre elas; os cossacos espetavam crianças em lanças, assavam-nas ao fogo e tentavam obrigar as próprias mães a comerem-nas; mulheres eram estupradas e mortas. (ELMAN, 2001, p. 32). Na concepção do sociólogo polonês, o Holocausto ocorrido durante a Segunda Guerra Mundial desvelou o lado reverso de uma mesma moeda cha-mada “modernidade” que de um lado tateou o progresso, mas que de outro configurou os indícios para o Totalitarismo e desvelou o fracasso da civilização moderna. Daí a sua tese que o “[...] o Holocausto foi tanto um produto como um fracasso da civilização moderna.” (BAUMAN, 1998, p. 112). Feingold, fazendo uma relação entre as características da racionalidade moderna e as técnicas nazistas de extermínio, afirma que a Solução Final marca o momento crítico em que o sistema industrial europeu saiu errado; em vez de favorecer a vida, o que era a esperan-ça srcinal do Iluminismo, começou a consumi-la. [...]. [Auschwitz] foi também uma extensão mundana do moderno sistema fabril. Em vez de produzir bens, a matéria-prima eram os seres humanos e o produto final, a morte [...]. As chaminés, que são o próprio símbolo do moderno sistema fabril, despejavam uma fumaça acre de carne humana sendo queimada. [...]. Engenheiros projetaram os crematórios; administradores de empresa projetaram o sistema burocrático [...] p. 26-27).  O Holocausto significou um teste 2   da modernidade, isto é, um experi-mento ilimitado e sanguinário da máquina de funcionamento de uma ideologia 2  “[...] proponho tratar o Holocausto como um teste raro, mas importante e confiável das possibilidades ocultas da sociedade moderna” (Ibid.,   p. 31).    Reflexões sobre a modernidade e o holocausto a partir de Zygmunt Bauman – Francisco Jozivan Guedes de Lima  A RGUMENTOS , ano 6, n. 11 - Fortaleza, jan./jun. 2014 285 totalitária, do saber e da prática modernos que usou como cobaia o próprio ho-mem despido de direitos, personalidade e valores. O homem foi abandonado a sua manipulável, frágil e reificável corporeidade, de modo que dele só restou seu corpo nu. Essa nudez é relatada por Viktor Frankl nos seguintes termos: Enquanto ainda esperamos pelo chuveiro, experimentamos integralmente a nudez: agora nada mais temos senão esse corpo nu (sem os cabelos). Nada possuímos a não ser, literalmente, nossa existência  nua e crua . Que restou em comum com nossa vida de antes? Para mim, por exemplo, ficaram óculos e o cinto, este, entretanto, teria que ser dado em troca por um pedaço de pão, mais tarde. (FRANKL, 1999, p. 25). A racionalidade que perpassa os campos de concentração nazistas é ex-clusivamente quantificadora. Nela não há singularidade, mas o indivíduo é diluído no grande todo: tudo o que lhe é peculiar perde-se no processo de massificação intencionalmente administrado. O que há é tão-somente a figura do prisioneiro a ser dizimado depois de ter suas forças exauridas num trabalho intenso e brutal em favor do progresso alemão. Conforme relata Frankl, Auschwitz, por exemplo, quando o prisioneiro passa pela recepção, ele é despojado de todos os haveres e assim também acaba ficando sem nenhum documento. [...]. A única coisa que não dá margem a dúvidas e que interessa aos funcionários do campo de concentração é o número do prisioneiro, geralmente tatuado no corpo. Nenhum vigia ou supervisor tem a ideia de exigir que o prisioneiro se identifique pelo nome, quando quer denunciá-lo [...] (Ibid., p. 16). Esse empreendimento representa, de um lado, o apogeu da razão técnico--instrumental, isto é, a hegemonia da  ratio enquanto mera calculabilidade  e o culto em torno do  homo faber   e, por outro, significou o consequente declínio da razão comunicativa e o esquecimento do ζώων   πολιτικών . 3  Com isso não se quer dizer, conforme frisa o próprio autor, que a ocorrência do Holocausto foi deter- minada pela burocracia moderna ou pela racionalidade técnico-instrumental. Todavia, quer apenas esclarecer que tais burocracia e racionalidade quando isoladas em si mesmas – quando vazias de outro tipo de racionalidade que não 3  Para Habermas, a absolutização da razão instrumental sedimentou a sociedade tecnocrática e influenciou no que ele denominou de “despolitização da esfera pública” (Cf. HABERMAS, 2006, p. 66). Em  Modernidade líquida , Bauman versa sobre esse assunto salientando a necessidade da politização da esfera pública entendida enquanto capacidade crítica contra aquilo que impede a liberdade tanto no nível privado quando coletivo. “  A verdadeira libertação requer hoje mais, e não menos, da ‘esfera pública’ e do ‘poder público’  . Agora é a esfera pública que precisa desesperadamente de defesa contra o invasor privado – ainda que, paradoxalmente, não para reduzir, mas para viabilizar a liberdade individual.” (BAUMAN, 2003b, p. 62).    Reflexões sobre a modernidade e o holocausto a partir de Zygmunt Bauman – Francisco Jozivan Guedes de Lima
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