Percepções acerca das relações de gênero e da divisão sexual do trabalho para pessoas com deficiência

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  Percepções acerca das relações de gênero e da divisão sexual do trabalho para pessoas com deficiência
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  DOI:10.5007/1807-1384.2011v8n2p158 PERCEPÇÕES ACERCA DAS RELAÇÕES DE GÊNERO E DA DIVISÃO SEXUAL DO TRABALHO PARA PESSOAS COM DEFICIÊNCIA PERCEPTIONS ABOUT GENDER RELATIONS AND SEXUAL DIVISION OF LABOR FOR PEOPLE WITH DISABILITIES PERCEPCIONES ACERCA DE LAS RELACIONES DE GÉNERO Y DE LA DIVISIÓN SEXUAL DEL TRABAJO PARA PERSONAS CON DEFICIENCIA Lilian Barros Moreira 1  Fernanda Mitsue Soares Onuma 2  Mônica Carvalho Alves Cappelle 3  Flávia Luciana Naves Mafra 4  Maria de Lourdes Souza Oliveira 5  RESUMO: Diante das diversas possibilidades que abarcam o tema da diversidade, a questão da inserção de pessoas com deficiência (PCDs) nas organizações tem ganhado destaque nos estudos organizacionais. Apesar de a deficiência aparentar ser um assunto que não causa mais desconforto na atualidade, ela ainda se apresenta como uma questão delicada de ser tratada. Somando-se a isso, a questão das relações de gênero e da divisão sexual do trabalho ainda pesa no trabalho dos indivíduos. Assim, buscamos compreender as percepções de PCDs acerca das relações de gênero e da divisão sexual do trabalho. Argumentamos neste estudo que a percepção em relação à divisão sexual do trabalho e sua srcem em relações desiguais de gêneros estão ligadas à subjetividade. A pesquisa realizada teve caráter qualitativo, a partir do estudo de caso de uma organização hospitalar. Foram 1  Mestre em Administração pela Universidade Federal de Lavras (PPGA/UFLA). Doutoranda em Administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGA/UFRGS). E-mail: lilibmoreira@gmail.com  2  Mestre em Administração pela Universidade Federal de Lavras (PPGA/UFLA). Doutoranda em Administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGA/UFRGS). E-mail: feonuma@gmail.com    3  Doutora em Administração pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Professora adjunta nível III do Departamento de Administração e Economia da Universidade Federal de Minas Gerais. Pesquisadora dos grupos de pesquisa - Núcleo de Relações de Trabalho e Tecnologias de Gestão/NURTEG, Núcleo de Estudos em Organizações, Gestão e Sociedade/NEORGS (líder) e Grupo de Gênero e Diversidade em Movimento/GEDIM. E-mail: edmo@dae.ufla.br   4  Doutora em Ciências Sociais pelo CPDA/UFFRJ. Professora do Departamento de Administração e Economia da Universidade Federal de Lavras (DAE/UFLA). E-mail: flanaves@dae.ufla.br   5  Doutora em Ciências Sociais pelo CPDA/UFFRJ. Professora do Departamento de Administração e Economia da Universidade Federal de Lavras (DAE/UFLA). E-mail:  julinet@dae.ufla.br   Esta obra foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição 3.0 Não Adaptada.    159 R. Inter. Interdisc. INTERthesis, Florianópolis, v.8, n.1, p. 158-184, jan/jul. 2011   realizadas cinco entrevistas com empregados(as) que possuíam algum tipo de deficiência, as quais foram gravadas, transcritas e analisadas por meio de análise temática de conteúdo. Os relatos não mostraram de forma explícita sua percepção de relações desiguais de gênero. Por meio da observação na condução das entrevistas, percebemos, contudo, um cuidado maior da organização em monitorar as entrevistas com as mulheres. Percebemos também que os(as) entrevistados(as) apresentaram uma visão sobre o assunto impregnada de estereótipos sociais, que vêm sendo reproduzidos ao longo das décadas. Por fim, realizamos alguns questionamentos para levar o(a) leitor(a) à reflexão acerca da divisão sexual do trabalho, da deficiência e do preconceito, em suas mais diversas formas, no ambiente das organizações. Palavras-chave:  Diversidade. Pessoas com deficiência. Relações de gênero. Divisão sexual do trabalho. Subjetividade. ABSTRACT: Contemporary society has discussed the i dea of “diversity”, and among its possibilities, the insertion of people with disabilities (PWDs) in organizations has been often discussed in organizational studies. Although disability appears to be no longer an uncomfortable subject to be discussed, it is still a very delicate issue to be talked about. In addition to it, gender relations and sexual division of labor are not solved issues when work is involved. This work was carried out with the objective of understanding the perceptions of PWDs about gender relations and sexual division of labor. We argue that both this perception and its srcin are connected to the subjectivity. The research was conducted in a hospital, where five people were interviewed. The interviews were analyzed through the method of content analysis. They did not show explicitly the interviewees‟ perception of unequal gender relations, but this was noticed through the method of observation. The interviewees‟ view of gender relations was found to be full of social stereotypes. Finally, questions were asked that intended to lead the reader to a deeper reflection about sexual division of labor, disability and prejudice in the organizational environment. Keywords : Diversity. People with disabilities. Gender relations. Sexual division of labor. Subjectivity. RESUMEN: Frente a las diversas posibilidades que abarcan el tema de la diversidad, la cuestión de la inserción de personas con deficiencia (PCDs) en las organizaciones ha ganado destaque en los estudios organizacionales. Aunque la deficiencia aparente ser un asunto que no causa más incomodidad en la actualidad, esta todavía se presenta como una cuestión muy delicada cuando es discutida. Además, la cuestión de las relaciones de género y de la división sexual del trabajo aún influye en el trabajo de los individuos. Así, buscamos comprender las percepciones de PCDs sobre las relaciones de género y la división sexual del trabajo. Argumentamos en este estudio que la percepción en relación a la división sexual del trabajo y su srcen en relaciones de género desiguales están relacionados a la subjetividad. La investigación realizada fue de carácter cualitativo, a partir de un estudio de caso de una organización hospitalaria. Realizamos cinco entrevistas con empleados que tenían algún tipo de deficiencia. Las entrevistas fueron grabadas, transcritas y analizadas por medio del método de análisis temático de contenido. Los relatos no mostraron explícitamente la percepción de las PCDs sobre las relaciones desiguales de género. Por medio de la observación en la conducción de las entrevistas,  160 R. Inter. Interdisc. INTERthesis, Florianópolis, v.8, n.1, p. 158-184, jan/jul. 2011   percibimos, entretanto, un cuidado mayor de la organización en monitorizar las entrevistas con las mujeres. Percibimos también que los entrevistados presentan una visión sobre el asunto influenciado de estereotipos sociales, los cuales vienen siendo reproducidos por décadas. Finalmente, realizamos algunas preguntas para invitar al lector(a) a pensar sobre la división sexual del trabajo, la deficiencia y el preconcepto, en sus más diversas formas en el ambiente de las organizaciones. Palabras claves:  Diversidad. Personas con deficiencia. Relaciones de género. División sexual del trabajo. Subjetividad. INTRODUÇÃO A deficiência, embora aparente ser um assunto que não causa mais desconforto no século XXI, ainda se apresenta como uma questão delicada de ser tratada. No decorrer de nossa pesquisa, fomos levadas a nos questionar se as organizações, embora defendam abertamente um discurso de inclusão, não estariam, na prática, com dificuldades de encarar a questão da deficiência com maior naturalidade. Esse questionamento é fruto da experiência que tivemos com esta pesquisa. Assim que começamos a desenvolvê-la, encontramos alguns obstáculos que nos levaram a pensar que a mesma não poderia ser realizada. Primeiramente, buscamos duas grandes empresas, nas quais estávamos certas de que encontraríamos trabalhadores(as) com algum tipo de deficiência, devido à Lei de Cotas, a qual obriga empresas com mais de 100 empregados a contratarem pessoas com deficiência. Quando entramos em contato com essas empresas e questionamos se havia pessoas com deficiência 6  (PCDs) para que a pesquisa pudesse ser realizada, obtivemos respostas como: “ não tenho autorização para dar esta informação, preciso falar com meu superior  ”; “ existem pessoas com deficiência, mas não posso informar quantas ou quem são elas ” e “ não será possível entrevistar estas pessoas ”. Afinal, por que as empresas têm tanto receio de abordar o assunto? Será que, se desejássemos falar com pessoas sem deficiência sobre a mesma questão, 6   Neste trabalho será usado o termo “pessoas com deficiência” e não “pessoas com necessidades especiais”, visto que o segundo não é específico, podendo contemplar pessoas obesas, idosas, dentre outras (CARVALHO-FREITAS, 2007), o que extrapola o âmbito dessa pesquisa. Vale destacar também a portaria nº 2.344, de 03 de novembro de 2010, que alterou a nomenclatura utilizada para pessoas com algum tipo de deficiência. Portanto, onde se lê “pessoas portadoras de deficiência” , leia- se “pessoas com deficiência” (SECRETARIA DE DIREITOS HUMANOS, 2010).    161 R. Inter. Interdisc. INTERthesis, Florianópolis, v.8, n.1, p. 158-184, jan/jul. 2011   teríamos enfrentado tantas dificuldades? Felizmente, encontramos uma organização que concordou em contribuir com a discussão sobre o tema, possibilitando nossa pesquisa. Sabe-se que 14,5% da população brasileira possui algum tipo de deficiência (IBGE, 2000), o que mostra que PCDs representam uma parcela significativa da população. Considerando que o trabalho, mais do que mera atividade de subsistência, pode ser também considerado como uma importante maneira de se conceder sentido à vida das pessoas, conferindo-lhes identidade e reconhecimento pessoal e social (ARAÚJO; SACHUK, 2007; ARDICHVILI; KUCHINKE, 2009), o que dizer então da importância do trabalho para estas pessoas, encaradas tantas vezes como “incapazes” por uma sociedade que bu sca o econômico, acima de tudo? Brito (2000) enfatiza que o trabalho é determinado por um entrelaçamento complexo de relações de poder, sociais, econômicas e políticas e que, nesse momento de globalização e reestruturação produtiva, há um aumento da necessidade de dar mais um passo na apreensão da realidade vivida pelos(as) trabalhadores(as). Nesse sentido, acreditamos que o trabalho de PCDs deve ser estudado, visto que ainda existem barreiras que impedem o acesso dessas pessoas ao mercado formal de trabalho. Considerando que, em pleno século XXI, a questão da inserção das mulheres no mercado de trabalho ainda é uma luta diária  –  com elas mesmas, com seus pares, com a sociedade  –  em que existem barreiras reais ou virtuais que impedem sua entrada no mercado ou sua ascensão profissional, surgiu uma questão que deu srcem a este estudo: como as PCDs percebem a divisão sexual do trabalho? Nesse sentido, o objetivo do presente trabalho é compreender as percepções de PCDs acerca da divisão sexual do trabalho. Argumentamos neste estudo que a percepção em relação à divisão sexual do trabalho e sua srcem em relações desiguais de gêneros está ligada à subjetividade que, embora mediada por domínios sociais comuns é também, ao mesmo tempo, inerente a cada pessoa, envolvendo, portanto, as dimensões individual e coletiva, concomitantemente. A estrutura deste artigo apresenta, primeiramente, uma discussão sobre a inserção de pessoas com deficiência nas organizações. Em seguida, discutimos as interfaces entre trabalho e subjetividade e elementos acerca das relações de gênero e da divisão sexual do trabalho. Posteriormente, apresentamos a proposta  162 R. Inter. Interdisc. INTERthesis, Florianópolis, v.8, n.1, p. 158-184, jan/jul. 2011   metodológica utilizada, juntamente com as análises das entrevistas e, por fim, as nossas considerações finais. 1 REFERENCIAL TEÓRICO Neste item, apresentamos as temáticas principais que deram suporte à realização desta pesquisa. 1.1. O trabalho das pessoas com deficiência Atualmente, tem-se discutido bastante sobre a diversidade nas organizações, a qual engloba as chamadas minorias, que segundo Roso et al   (2002), não são definidas em termos numéricos, mas em termos do exercício do poder, tais como as mulheres, negros, pessoas com deficiência, homossexuais, etc. Nos últimos anos, houve um aumento significativo de publicações nessa área (SHORE et al, 2009; BROOKS; EDWARDS, 2009; EMSLIE; HUNT, 2009; BICALHO; DINIZ, 2009; IRIGARAY; VERGARA, 2009; CARVALHO-FREITAS et al, 2009; IRIGARAY; FREITAS, 2009; PEREIRA; HANASHIRO, 2009; GLENDINNING, 2008; WARD; WINSTANLEY, 2006; SCOTT, 2005; MYERS, 2003; CAMPBELL, 2002; DRAKE, 2000; FLEURY, 2000; SCHNEIDER; NORTHCRAFT, 1999; WEBB, 1997), as quais trazem contribuições e reflexões muito ricas para dar continuidade à discussão sobre assuntos que aparentemente não incomodam mais à sociedade, mas que são ainda bastante delicados de serem tratados, dentre eles a questão da deficiência. De acordo com Santos (2008), os estudos internacionais sobre deficiência representam um campo consolidado nas ciências sociais, mas, no Brasil, este permanece frágil e pouco explorado. Entretanto, têm crescido substancialmente o número de trabalhos publicados sobre essa temática no país (BAHIA; SCHOMMER, 2009; CARVALHO-FREITAS, 2009; MOREIRA et al, 2009; SANTOS, 2008; SOARES, MOREIRA; MONTEIRO, 2008; ALMEIDA; COIMBRA; CARVALHO-FREITAS, 2007; CARVALHO-FREITAS; MARQUES, 2007; QUINTÃO, 2005). Para a Organização Internacional do Trabalho (OIT), pessoa com deficiência é o “ indivíduo cujas perspectivas de obter emprego apropriado, reassumi-lo, mantê-lo e nele progredir são substancialmente reduzidas em virtude de deficiência física, auditiva, visual, mental ou múltipla devidamente reconhecida, agravadas pelas
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