“Os alicerço da terra”: notas sobre Ô fim do cem, fim...

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    Instituto de Psicanálise e Saúde Mental de Minas Gerais –  Almanaque On-line nº 13 Julho a dezembro de 2013 Página 1  de 8   Título : “Os alicerço da terra”: notas sobre Ô fim do cem, fim... Autora: Lucíola Freitas de Macêdo - Analista praticante, Membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise, Presidente do Conselho e Diretora de Ensino do IPSM-MG, Doutoranda em Psicanálise e Estudos da Cultura (FAFICH/UFMG). Psychoanalyst, Member of the Brazilian School of Psychoanalysis and the World  Association of Psychoanalysis, Director of Education of the IPSM-MG, Doctoral Studies in Psychoanalysis and Culture (FAFICH / UFMG). E-mail: luciola.bhe@terra.com.br.  Resumo: Este trabalho é fruto de um seminário teórico proferido no âmbito do Núcleo de Pesquisa em Psicose do IPSM- MG, cujo tema geral foi “A ciência  e a escrita do delírio”. Para trabalhar o tema , elegeram-se como método os comentários do livro Ô fim do cem, fim ..., compilação feita a partir das notas escritas à mão, com caneta esferográfica e em folhas de caderno  , por Paulo Marques de Oliveira, assim como o comentário de trechos do documentário “O fim do sem fim”, de Cao Guimarães, inspirado nos desenhos e escritos de Paulo Marques de Oliveira, e que tem como pano de fundo o desaparecimento de certos ofícios e profissões no Brasil. Palavras-chave:  Psicose, escrita, ciência, delírio, poesia. “OS ALICERÇO DA TERRA”: NOTES ABOUT Ô FIM DO CEM, FIM...  Abstract: This work is the result of a seminar given in IPSM-MG, whose general theme was "Science and the writing of delirium". To work this subject, we have chosen the method of the comments “Ô fim do cem fim”  , which is a compilation taken from handwritten notes with a ballpoint pen and written on pieces of papers, by Paulo Marques de Oliveira, as well like the review excerpts from the documentary " O fim do sem fim” by Cao  Guimarães, inspired by the drawings and writings of Paulo Marques de Oliveira, and whose backdrop the disappearance of certain trades and professions in Brazil. Keywords:  Psychosis, writing, science, delirium, poetry.    Instituto de Psicanálise e Saúde Mental de Minas Gerais –  Almanaque On-line nº 13 Julho a dezembro de 2013 Página 2  de 8   “Os alicerço da terra”: n otas sobre Ô fim do cem, fim... 1   Lucíola Freitas de Macêdo I. O delírio e a escrita de Paulo Marques de Oliveira conjugam ciência e religião: um delírio de fundo religioso e cosmológico é aparelhado pelo discurso da ciência, ao modo de um manual explicativo, com vide bula e modo de usar. Ele é, sobretudo, um orador, que não apenas escreve, mas desenha seu discurso. Procede a uma escrita da fala, em uma língua própria, a sua língua fundamental, permeada de neologismos. Em Ô fim do cem, fim...  (2011), testemunha sobre seu inconsciente —  a céu aberto —  e sobre o modo como é habitado pela linguagem. Escrevendo sua fala, vai encontrando, também, como seus escritos atestam, seu modo singular de habitá-la. Para Deleuze (1997), a psicose e sua linguagem são inseparáveis de um procedimento linguístico. Se, na neurose, navega-se nos mares da significação, nas psicoses, perguntaremos sobre o procedimento linguístico que lhe é específico: o procedimento começa a funcionar quando a relação entre as palavras e as coisas não é mais de designação; quando a relação entre uma proposição e outra não é mais de significação; e quando, por fim, a relação entre uma língua e outra já não será de tradução. É aquilo que manipula as coisas imbricadas nas palavras, e também aquilo que, de uma proposição a outra, constrói toda uma extensão de discursos, de aventuras, de cenas, de personagens e de mecânicas, e também isso que decompõe um estado de língua em outro e com essas ruínas, com esses fragmentos, com esses tições ainda incandescentes, inventa um novo cenário, outra língua. Quando a designação desaparece, quando a comunicação das frases pelo sentido se interrompe, quando o código é abolido, diante do apagamento de alguma dessas dimensões da linguagem: um órgão se erige, um orifício entra em excitação, se erotiza, e um aparelho de linguagem, um procedimento, poderá emergir (FOUCAULT, 2001, p.309-311). Lanço a vocês a questão: qual é o procedimento de linguagem inventado pelo cientista Paulo Marques de Oliveira? II.    Instituto de Psicanálise e Saúde Mental de Minas Gerais –  Almanaque On-line nº 13 Julho a dezembro de 2013 Página 3  de 8    “ Estranhos poemas ”   é como Michel Foucault designa não o texto, mas a própria vida que o escreveu. Estranhos poemas são os escritores anônimos dos séculos XVII e XVIII visitados por ele nos arquivos de internação do Hospital Geral da Bastilha e nos arquivos da Biblioteca Nacional, aos quais dedica o seu artigo : “A vida dos homens infames” (1999 b, p.389-407). O sonho de Foucault era o de, através da beleza e da poesia, do estilo clássico daqueles breves registros, datados de uma época ainda não impregnada pelo tecnicismo dos manuais diagnósticos, restituir a intensidade daquelas vidas, mas,  “ carente do talento necessário ”   para fazê-lo, contentou-se em dar voltas em torno delas. O que encantou Foucault, naqueles escritos, foi sua luminosidade fulgurante, pois que revelam, ao fio da linguagem, um esplendor, uma violência que desmente, aos nossos olhos, a pequenez do caso e a mesquinharia das intenções: as mais lamentáveis vidas são ali descritas, e sua ênfase, que parece convir às vidas mais trágicas. Mas o que se extrai desses escritos é um efeito cômico, uma vez que se apela a todo poder das palavras, à soberania dos céus e da terra, em nome das desgraças as mais corriqueiras. Sua existência se inscreve no abrigo precário dessas palavras, encontradas ao acaso, por alguém inserido na ordem dos discursos e que faz desses estranhos poemas seres de quase ficção. Foi assim que me senti diante da intensidade cravada na ponta da caneta e da profusão poética do  “ livro luz ”  ,  “ o primeiro e derradeiro ”  , do cientista Paulo Marques de Oliveira. Em sua caprichada caligrafia, na delicadeza das suas ilustrações, experimentei a beleza e o espanto, a emoção, o riso, a surpresa e o calafrio causados pela leitura de seu  “ livro didático ”, “ a ensinar o sistema da bateria onde moram as nações, o Senado Federal como guverna, como faz o forno automático produtivo e os anéis de plantio, como trata do gorgulho nos siriais, a germinação dos viventes vertebrados e invertebrados, o modo de fazer a irregação, a medição cúbica de uma lagoa, com faz o plantio da bananeira, como trata do gado, do pasto e o carrapato, os alicerço da terra, a primeira carroça feita por Caim, o mapa da ôca universal, como faz a água transformar em vinho, como faz a caxaça da vida, o pudinho de bom xixi, como faz um prédio de duzentos andares, como Adão e Eva foi germinado, a semente do homem, o que é imjustissa, como faz o parto cem osar cesariano das clínicas, como fazê uma operação de hérnia, cadeira para quem trabalha em escritório, como gera o pinto no ovo, norma de carta para comdolência em falecimento, como faz xuveiro de água morna com lampião ” (2011) ...    Instituto de Psicanálise e Saúde Mental de Minas Gerais –  Almanaque On-line nº 13 Julho a dezembro de 2013 Página 4  de 8   O cientista Paulo Marques de Oliveira,  “astrofísico, teólogo, sismografista e profulgenciado”,  escreve seu compêndio, ess e livro que “é luz do mundo: primeiro e derradeiro”, um “livro didático para todas as gerações”  , que irá  “brilhar semilhante a estrela da Álva”  . À medida que o escreve e o ilustra com esmero, inventa seu procedimento e, com ele, uma ordem para o mundo, com  “seus alicerço”   e suas leis de funcionamento. III. Em 1933, em "O problema do estilo e a concepção psiquiátrica das formas paranoicas da experiência", Lacan chama a atenção, pela primeira vez, para a riqueza das produções plásticas e poéticas de sujeitos psicóticos, numa época em que a psicose ainda era amplamente concebida em termos de déficit, pela psiquiatria. Já em 1955-1956, no Seminário 3, as psicoses , a propósito de Memórias de um doente dos nervos , de D. P. Schreber (1985), é enfático ao afirmar:  “ [...] se ele é com toda certeza um escritor, não é um poeta... há poesia toda vez que um escrito nos introduz num mundo diferente do nosso, e, ao nos dar a presença de um ser, de uma certa relação fundamental, faz com que ela se torne também nossa ” (LACAN, 1955-1956/1985, p.94). A poesia, continua Lacan, faz com que não possamos duvidar da autenticidade da experiência de San Juan de la Cruz, de Proust, ou de Gérard Nerval. Ela consiste na criação de um sujeito assumindo uma nova ordem de relação simbólica com o mundo, mas não há absolutamente nada disso nas Memórias de Schreber. Ele é habitado certamente por todas as espécies de existências improváveis,  “ [...] mas cujo caráter significativo é certo, é um dado primeiro, e cuja articulação se torna cada vez mais elaborada à medida que avança seu delírio. Ele é violado, manipulado, transformado, falado de todas as maneiras, é, eu diria, tagarelado ” (LACAN, 1955-1956/1985, p.94). Tudo o que ele faz existir é de alguma maneira vazio dele próprio. E adverte:    Instituto de Psicanálise e Saúde Mental de Minas Gerais –  Almanaque On-line nº 13 Julho a dezembro de 2013 Página 5  de 8    “As produções discursivas que caracterizam o regi stro das paranoias desenvolvem-se com toda força, aliás, a maior parte do tempo, em produções literárias, no sentido em que literárias  quer dizer simplesmente folhas de papel cobertas com escrita... vocês percebam o que falta aqui ao louco, por mais escritor que ele seja, mesmo a esse presidente Schreber que nos fornece uma obra tão surpreendente por seu caráter completo, fechado, pleno, acabado” ( LACAN, 1955-1956/1985, p.93). Não haveria, portanto, na obra do escritor louco, o sentimento de uma experiência srcinal na qual ele estaria incluído como sujeito. Seu mundo aparece esvaziado da presença daquele que testemunha. Com as folhas de papel cobertas com escrita, o louco buscaria integrar seu delírio em uma rede de sentidos e significações. Outro aspecto distintivo entre o escritor louco e o poeta é assinalado por Lacan no Seminário 5  ,  as formações do inconsciente  (LACAN, 1957-1958/1999) e diz respeito à utilização das figuras de linguagem, metáfora e metonímia: não encontramos no texto do escritor louco o uso da metáfora, que é, por sua vez, um elemento constante, e mesmo paradigmático do fazer poético. Há uma preponderância da metonímia, das relações de contiguidade em detrimento daquelas de similaridade (LACAN, 1957-1958/1999). Com a abolição da função metafórica, não há intervalo ou substituição de um significante por outro (S1-S2). Sem esse intervalo, não haveria enunciação. Apenas uma chuva de enunciados. Ao invés de o S2 assinalar o sentido produzido no campo do Outro, ele retorna no real, produzindo o efeito e a certeza delirantes, ou então se cola ao S1, produzindo o efeito de holófrase. Tem-se uma série de S1s sem S2. Uma enxurrada de significantes em bloco, não desmembrável, em sequência monolítica e sem intervalos. IV. Lacan se interessou pela obra de Joyce porque este lançou mão de um procedimento de escrita que desconsidera completamente a distinção entre o significante e o significado, subvertendo o que se entendia até então por literatura, pois não necessita do recurso à metáfora como paradigma do fazer poético. De acordo com Miller, nesse momento de seu ensino, Lacan se arriscará a tratar a obra
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