O REPÓRTER ESSO E GETÚLIO VARGAS

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  O REPÓRTER ESSO E GETÚLIO VARGAS
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  O REPÓRTER ESSO E GETÚLIO VARGAS  Luciano Klöckner 1   RESUMO: O artigo tem por objetivo apresentar o contexto histórico de O Repórter Esso, síntese noticiosa que marcou época no radiojornalismo mundial e brasileiro, a partir dos anos 40, durante a fase de governo do presidente Getúlio Dornelles Vargas. A amostra contempla notícias veiculadas nos anos 40 e 50, período em que Vargas comandou a nação. O texto baseia-se nos fatos ocorridos e localizados nos noticiosos de O Repórter Esso, durante e logo após a Segunda Guerra Mundial e também nos momentos decisivos que levaram o presidente Getúlio Vargas ao suicídio. PALAVRAS-CHAVE: Repórter Esso – Síntese noticiosa – Getúlio Vargas – Segunda Guerra Mundial O presidente Getúlio Dornelles Vargas, que governou o Brasil durante três períodos distintos, era ouvinte de O Repórter Esso. Em depoimento prestado ao autor, o filho do locutor Heron Domingues, Heron Domingues Júnior  2 , disse que durante a Segunda Guerra Mundial, o presidente e o locutor, se encontraram no Palácio do Catete: - Heron, por que O Repórter Esso não transmite notícias sobre a Força  Expedicionária Brasileira? Ao que o locutor Heron Domingues respondera: - Ora, senhor presidente, há uma lei que impede a veiculação de notícias locais... O presidente, dirigindo-se ao seu chefe de gabinete, ordenou: - Vamos corrigir essa lei imediatamente! O Repórter Esso ficou por quase 30 anos no ar no Brasil. A estréia, no Brasil, ocorreu em 28 de agosto de 1941, poucos meses antes de o país entrar na Segunda Guerra, e a última edição foi ao ar em 31 de dezembro de 1968, poucos meses antes de o homem pisar na Lua. Ao longo desse período, o noticiário acompanhou os principais fatos sociais, políticos, econômicos, que se transformaram na história do mundo e do país. Muitas gerações cresceram, ouvindo e acreditando em tudo que O Repórter Esso, representado pelos locutores exclusivos, falava do outro lado do alto-falante. Boa parte do mundo, em 15 1  Jornalista e Professor- Doutor da PUCRS, UNISINOS e ESPM, autor da Tese O Repórter Esso e a Globalização: uma investigação hermenêutica  (PUCRS-2003), orientada pelo prof. Dr. Roberto José Ramos, e da Dissertação O Repórter Esso na História do Brasil /1941-1945 e 1950 a 1954 (PUCRS-1998), orientada pela profa. Dra. Doris Fagundes Haussen. 2   Entrevista concedida em julho de 1997.   2 países, a partir da transmissão de 60 rádios que irradiavam o noticiário, parava para ouvir as últimas informações das guerras, os pronunciamentos dos Papas, dos presidentes, dos políticos, dos cientistas e como estavam os astronautas soviéticos e americanos que giravam em torno da terra em naves espaciais. O Repórter Esso foi a primeira síntese noticiosa do planeta, concebida com caráter globalizante. O noticiário, patrocinado pela Standard Oil New Jersey (Esso), teve a idealização da agência de publicidade McCann-Erickson e produção da agência de notícias United Press Associations (UPA) 3  .  O noticiário já existia nos Estados Unidos desde 1935. A partir dali, se estendeu para outros países (Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Estados Unidos, Honduras, Nicarágua, Panamá, Peru, Porto Rico, República Dominicana, Uruguai e Venezuela). Em particular, no extremo sul da América Latina (Argentina, Uruguai, Brasil e Chile), o Esso é referendado em livros e em sítios da  Internet,  como a mais importante síntese noticiosa do rádio e da televisão em cada país. Nas Américas Central e do Sul, o Esso chegou a reboque da Política da Boa Vizinhança (Good Neighbor Policy ), nos anos 30. Na realidade, nem o termo e nem a idéia eram novos. Alguns anos antes, o presidente dos Estados Unidos, Herbert Hoover, em viagem à América Latina, havia usado a expressão good neighbor   nos discursos, que seria adotada, em 1933, por Franklin Delano Roosevelt 4  . Era comum, na época, que a colônia alemã, localizada, em especial, no extremo sul da América Latina, se informasse do avanço das forças nazi-fascistas na Europa, a partir das ondas da Rádio Berlim. Dessa forma, as emissões dos Estados Unidos, via Voice of América  (VOA), não deixaram de apresentar um certo contraponto a uma situação existente nas Américas, e que preocupava, sobremaneira, os países aliados, uma vez que existia a simpatia, de parte de governantes americanos, pela política nazi-fascista, representando um ideal de governo. 3    Em 1958, houve a fusão da United Press Associations (UPA) com a International News Service (INS), surgindo a United Press International (UPI). 4    O livro O imperialismo sedutor – a americanização do Brasil na época da Segunda Guerra , de Antonio Pedro Tota, (2000, Companhia das Letras), conta, em detalhes, a disputa entre os países aliados e as forças do eixo, para influenciar as nações das Américas, durante o conflito mundial.   3 AS GUERRAS Durante a Segunda Guerra Mundial, de 1939 a 1945, as nações do Terceiro Mundo foram pressionadas a optar por uma das facções. De um lado, o eixo, formado por Alemanha, Itália e Japão. No outro extremo, os aliados, liderados por Grã-Bretanha, França e União Soviética; e, a partir de 1941, pelos Estados Unidos. Nestes seis anos de conflito, destacou-se a Política da Boa Vizinhança, visando a aproximar os países da América Latina da cultura e da ideologia norte-americana. O objetivo era único: que o Brasil defendesse os interesses dos aliados na Segunda Guerra, o que, de forma efetiva, ocorreu em 1942. O pacote cultural-ideológico dos Estados Unidos incluía várias edições diárias de O Repórter Esso, uma síntese noticiosa de cinco minutos rigidamente cronometrados, a primeira de caráter global, que transformou o radiojornalismo brasileiro e mundial. Com o noticioso, foi implantado o lide 5  , a objetividade, a exatidão, o texto sucinto e direto, a pontualidade, a noção do tempo exato de cada notícia, aparentando imparcialidade, a locução vibrante, contrapondo-se aos longos jornais falados da época. No entanto, o formato inovador do noticiário não influiu somente na área profissional, mas, também, nas disputas políticas, ideológicas e culturais da época. Antes de a primeira edição do Esso ir ao ar, no mesmo ano de 1941, desembarcaram no País os representantes do Birô Interamericano, criado pelo presidente Franklin Delano Roosevelt, para aproximar os Estados Unidos dos países da América Latina. A tática, denominada de Política da Boa Vizinhança (Good Neighbor Policy),  tinha por objetivo estreitar as relações econômicas e culturais. O Office for the Coordination of Commerce and Cultural Relations   between the American Republics 6   começou a atuar em 16 de agosto de 1940, nos Estados Unidos, em resposta à propaganda nazista na América Latina. Através de programas radiofônicos, transmissões da Voice of America  e revistas do porte da Time ,  Life  e Seleções Reader’s Digest  , eram divulgadas mensagens do governo norte-americano, visando a neutralizar a forte presença alemã, italiana e japonesa nesta parte da América. Mais tarde, a agência estimularia a criação de histórias e de filmes de Walt Disney, com personagens dos 5    Termo aportuguesado, a partir da palavra inglesa lead  , referente à abertura da matéria. No lide, é destacado o fato essencial, considerando-se as seis perguntas básicas: O Quê? Quem? Quando? Onde? Como? Por quê? (RABAÇA e BARBOSA, 1978, p. 278-279). 6   Em 1941, o nome foi trocado para Office of the Coordinator of Inter-American Affairs   (OCIAA) e, em 1946, passou a chamar-se Office of Inter-American Affairs   até ser extinto em 1946 (TOTA, 2000, p. 190).   4 países latino-americanos, auxiliando no convencimento das populações em relação à boa vontade dos Estados Unidos (TOTA, 2000, p 50). O avanço do exército alemão na Europa Ocidental animava algumas autoridades brasileiras e mundiais, preocupando os Estados Unidos, que redobraram a atenção sobre a América Latina. O Brasil era presidido por Getúlio Dornelles Vargas e atravessava um momento político delicado, com a instituição de um regime arbitrário, o Estado Novo (1937-1945), de inspiração nazi-fascista. GETÚLIO DORNELLES VARGAS Vargas era filho de uma família de estancieiros gaúchos da fronteira com a Argentina, com raízes caudilhistas. Entrou para a carreira militar e destacou-se na política estudantil, demonstrando desde cedo muita astúcia e habilidade para negociar. Líder da maioria na Assembléia do Rio Grande do Sul, foi deputado federal, em 1923, lutou contra os libertadores no mesmo ano e virou ministro da Fazenda em 1926. Herdeiro político de Borges de Medeiros, Vargas disputou, pela Aliança Liberal (MG, RS e PB), em 1º de março de 1930, a eleição direta para a presidência da República, tendo como vice o paraibano João Pessoa. No pleito, perdeu por diferença de 300 mil votos para o paulista Júlio Prestes, que fez 1 milhão de votos. Alguns meses depois, em 31 de outubro de 1930, Vargas entrou de forma triunfante no Rio de Janeiro, impedindo a posse de Júlio Prestes, marcada para novembro: era a Revolução de 30. Com uniforme militar, lenço vermelho no pescoço e chapéu de aba larga, em três de novembro, foi nomeado chefe do governo provisório, substituindo o paulista Washington Luís (BUENO, 1998, p. 224 e 225). Era o fim da República Velha, da política café-com-leite, alternando no poder, presidentes mineiros e paulistas. Em 10 de novembro de 1937, Vargas instaurou o Estado Novo, com feições ditatoriais, contrariando a própria plataforma de governo, anunciada sete anos antes, de “restituir a democracia e a liberdade do povo, recuperando a economia.” Aos poucos, foi rompendo com aliados, como Borges de Medeiros, Osvaldo Aranha, Flores da Cunha, entre outros, e mostrando uma personalidade mais autoritária. Apesar disso, com uma legislação tutelar e paternalista, o governo do Estado Novo ganhava popularidade, o que valeu a Getúlio a alcunha de “pai do povo”. Destituído em 1945, depois da vitória aliada na Segunda   5 Guerra, Vargas ainda voltaria ao poder em eleições diretas, em 1950, para o terceiro governo. Nele, se envolveria em outra questão polêmica: a exploração nacional do petróleo e a criação da Petrobrás em 1953 7    (BUENO, 1998, p. 229 e 233). Na época, apesar do grande e eficaz poderio dos jornais impressos, era o rádio que exercia fascínio no povo e mobilizava as massas. O despertar, para essa novidade, ocorreu em 7 de setembro de 1922, quando 80 rádios-galena foram distribuídos, para captar o discurso do Presidente Epitácio Pessoa na abertura da Exposição-Feira Mundial, no Rio de Janeiro. O número de emissoras e de aparelhos receptores cresceu rapidamente. Nos anos 20, existiam 19 emissoras; em 1940, elas já somavam 78; em 1944, 106; em 1945, 111; em 1946, 136; em 1947, 178; em 1948, 227; em 1949, 253, chegando a 1950 com 300 emissoras (HAUSSEN, 2001, p. 56). Do mesmo modo, o número de radiorreceptores, que era de 30 mil em 1926, chegou a 659.762 em 1942 (WAINBERG, 1997, p. 43 e 44). Trinta e três anos depois da primeira transmissão existiam, no Brasil, 477 emissoras de rádio, e o total de aparelhos receptores atingia quase 1 milhão (O DIA..., 1994, p. 14). Os números atestam a importância da recepção radiofônica na primeira metade do século passado, situação somente ameaçada, alguns anos depois, com a televisão, onde a imagem e o som se uniram, num único aparelho, que, hoje, é quase tão portátil quanto o rádio. Até essa situação se inverter, o rádio recebeu todos os investimentos possíveis e fez experiências de programas que estão aplicadas em outras mídias e suportes, como a própria  Internet  . UTILIZAÇÃO DO RÁDIO COMO INSTRUMENTO POLÍTICO A radioescuta desempenhou papel fundamental nas duas guerras mundiais, utilizada para os comunicados na frente de batalha e nas atividades de contra-informação. Os países, envolvidos nos conflitos, através de setores específicos e das agências de notícias, designavam tradutores, para acompanhar as irradiações em língua estrangeira. Com isso, a radioescuta se tornou primordial, visando a identificar o que realmente ocorria, suprindo as deficiências do noticiário oficial, sujeito à censura parcial ou total. Nos anos 30, na Alemanha, os nazistas fizeram do rádio o ideal de propagação ideológica. Cerca de 70% das famílias alemãs possuíam aparelhos em casa. A importância do rádio era tamanha que o governo patrocinou a fabricação de receptores e estimulou a 7    A Campanha “O Petróleo é Nosso” surgiu no governo do presidente Eurico Gaspar Dutra em 1947.
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