O repórter como historiador do tempo presente: notas sobre a relação entre jornalismo e memória social

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    O repórter como historiador do tempo presente: notas sobre a relação entre  jornalismo e memória social 1   Lucia Santa Cruz 2  ESPM/RIO Resumo : Este artigo pretende discutir o que representa fazer história a partir do  jornalismo. Podemos considerar que um dos frutos do jornalismo é justamente a história imediata, aquela que se faz enquanto os acontecimentos ocorrem? Seriam os repórteres historiadores do instante? Por outro lado, quando dizemos que o jornalismo produz história, nos referimos à historiografia ou à produção de memória social? A memória tem assumido um lugar relevante na construção de identidade social, a partir de certo desencantamento com a história, que passa a ocupar um posto secundário no resgate do  passado. Ao mesmo tempo, a memória é feita de lembranças e esquecimentos. Qual o  papel do jornalismo no contexto de produção da memória social? Como opera o  jornalismo ao trabalhar com o tempo e promover a fixação do presente como tempo atual? Palavras-chave : Jornalismo 1. História do tempo presente 2. Memória social 3. Das trincheiras para as redações Tempos de guerra trazem consequências diretas para as práticas do jornalismo. Foi a partir da Guerra Civil, na segunda metade do século XIX, que jornais norte-americanos começaram a utilizar repórteres para relatar diretamente dos locais de combate o que estava acontecendo, fazendo surgir a cobertura de guerra. A Guerra do Golfo, no final do século XX, inaugurou a transmissão de confrontos militares ao vivo e  pela televisão: o mundo inteiro acompanhou, pela CNN  , o repórter Peter Arnett relatar os bombardeios dos Estados Unidos à Bagdá. Um conflito armado, a Segunda Guerra Mundial, ensejou o escritor, filósofo e jornalista francês Albert Camus a escrever, em 1944, no jornal Combat  , periódico impresso da Resistência Francesa, que o jornalista é o historiador do instante. 1   Trabalho submetido ao GT Historiografia da Mídia, do 3º Encontro Regional Sudeste de História da Mídia, realizado no Rio de Janeiro, na Escola de Comunicação da UFRJ, nos dias 14 e 15 de abril de 2014 2   Doutora e Mestra em Comunicação e Cultura pela UFRJ, Jornalista. Docente da ESPM/RIO. Pesquisadora da linha de pesquisa Estudos da Cidade e da Comunicação, integrada à CIEC (Coordenação Interdisciplinar de Estudos Culturais), núcleo de pesquisa do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da Escola de Comunicação da UFRJ. Desenvolve pesquisas nas áreas de História da Mídia, Memória Organizacional, Responsabilidade Social Empresarial e Mídia, Sustentabilidade e Comunicação. Email: lucia.santacruz@espm.br        Nestes quase 70 anos, desde que a frase foi cunhada, seus usos e apropriações fizeram surgir outras versões que transitam em torno da mesma ideia, ligando  jornalismo e contemporaneidade, ou seja, o tempo que se está vivendo. Os próprios  jornalistas assumiram essa definição e a incorporaram em suas visões sobre a profissão. “ O repórter é um historiador do tempo presente ” , declarou recentemente o jornalista Caco Barcellos, em palestra a estudantes paulistas de Comunicação; “S ou uma historiadora do cotidiano ” , sentencia a jornalista Eliane Brum em diversas entrevistas sobre sua trajetória profissional. O jornalismo é uma modalidade homeopática da historiografia, escreve Sérgio Modernell (2012, p. 34), em seu livro  A notícia como  fábula . Até mesmo os veículos de comunicação incorporaram essa percepção. O “ Repórter Esso ” , noticioso srcinado no rádio em 1941, que lançou o primeiro modelo de texto específico para o radiojornalismo e foi migrado para a TV em 1968, se autointitulava “testemunha ocular da história” . “O jornal é a história de seu tempo”, sentenciava o slogan utilizado pelo jornal O Globo, na década de 1990, resumindo o que acreditava o seu então presidente, Roberto Marinho: Hoje em dia, mais do que em qualquer período de nossos tempos, os conceitos de história e de jornalismo mantêm uma total afinidade. Convivem tão intimamente que tentar separá-los resultará em grave erro de avaliação histórica ou em imperdoável falha de compreensão do fenômeno jornalístico (MARINHO apud RIBEIRO, 2003, p. 105). Se não é aconselhável separarmos jornalismo e história, por estarem tão intrinsecamente acoplados, cabe investigarmos o que representa essa intersecção. Podemos considerar que um dos frutos do jornalismo é justamente a história imediata, aquela que se faz enquanto os acontecimentos ocorrem? Seriam os repórteres historiadores do instante, como disse Camus? Dupla contemporaneidade A questão do tempo é um elemento central no jornalismo, pois condiciona o  processo de produção das notícias, marcado pelas horas de fechamento das edições de  jornais impressos, sites informativos, telejornais, revistas e programas de rádio. Dentro das linhas mestras sobre as quais o jornalismo foi construído, tudo é momentâneo, tudo    é circunstancial. “O jornalista trabalha simultane amente contra o tempo e a favor do tempo. A velocidade e a rotina são os dois pólos quase absurdos em que ele monta seu mecanismo de ação” (DINES, 2009 , p. 67). As notícias, por serem caracterizadas como bens altamente perecíveis, devem ser reportadas o mais rápido possível. “O jornalismo é, em certo sentido, uma espécie de ‘ simulação ’  da imediaticidade, já que a realidade distante é reconstituída enquanto singularidade” (GENRO FILHO, 1987, p. 135).  O imediatismo, nesse âmbito, é “um conceito temporal que se refere ao estado de tempo que decorre entre o acontecimento e o momento em que a notícia é transmitida, dando existência a esse acontecimento” ( TRAQUINA, 2008, p. 37). Além do aspecto da velocidade de produção e do atendimento ágil às regras de funcionamento de uma redação jornalística, Paul Weaver (1993, p. 295) sublinha a importância de uma “dupla contemporaneidade” –    o presente como “assunto” e o  presente como a perspectiva no tempo em que é descrito. O fator tempo define o  jornalismo como relatos atuais sobre acontecimentos atuais.  Nesse sentido, o jornalismo fala do agora, do instante, do que está em desenvolvimento neste exato momento, sendo que o tempo dessa fala também está ocorrendo. É uma delimitação quase cirúrgica do real, pretendendo-se extremamente  precisa, em busca do aprisionamento do momento em si, da exatidão do acontecimento, quando ele acontece e é imediatamente relatado pelo jornalismo. Essa dupla contemporaneidade reforça o caráter de atualidade do jornalismo, ao mesmo tempo em que destaca a notícia como o relato verídico (e nunca como uma versão, dentre tantas possíveis, a respeito de um fato). O jornalista é aquele que colhe o fato, registra o acontecimento e o seleciona para se tornar noticia. O que pode nos levar a concluir que os jornais são os diários da humanidade, contendo os registros dos  principais acontecimentos de cada dia. A vida aparece enquadrada no noticiário, trazendo a falsa impressão que podemos conter todos os acontecimentos numa edição de  jornal. A imprensa se avoca o poder de atribuir o que é notícia ou não. Isso leva a só ser verdade o que está na mídia: um recorte do que lembrar. Como resumia o slogan da revista Manchete , “ aconteceu , virou Manchete”. Se não está no noticiário, é porque não ocorreu. A percepção de jornalismo como espelho da realidade só pode ser possível a  partir da incorporação da objetividade como um valor importante para a atividade, o que    ocorre no século XIX, com o surgimento do jornalismo informativo (a pennypress norte-americana), em contraposição ao jornalismo panfletário, opinativo, de tendências  políticas, que caracterizou o século XVIII. Por reportarem os acontecimentos no momento em que acontecem, os jornais estariam apenas refletindo a verdade, fornecendo um relato verídic o exatamente como ele ocorreu. “O repórter é a testemunha ocular, aquele que vai estar onde outros não estavam e se encarregará de levar o fato aos ausentes”  (ENNE, 2004, p. 112). Essa expressão ganha ainda mais força se pensarmos que os meios de comunicação existentes até o final do século XIX eram impressos  –    jornais, panfletos, revistas  –  , e o rádio, um canal sonoro, só entra neste cenário na segunda década do século XX. Começa a se formar a noção do repórter como o olhar amplificado da sociedade, que já não poderia mais acompanhar todos os acontecimentos in loco, devido ao crescimento urbano e ao aumento da complexidade da vida nas cidades. A introdução da figura do repórter, no século XIX, marca, ainda, a  profissionalização do jornalismo. Com o aparecimento do jornalismo informativo, também desponta a concepção de que competia ao próprio veículo andar atrás da notícia, de modo a preencher o jornal com notí cias que interessassem aos leitores. “Uma espécie de empregado que vê como seu dever tomar notas do desenvolvimento dos eventos e que tem o estranho hábito de considerar os fatos como fatos”, dizia uma das  primeiras definições de repórter, datada de 1836 e reproduzida por Nelson Traquina (2008, p. 37). O jornalismo informativo se apoia, ainda, em dois novos valores que se tornam exigência para a prática do jornalismo dito verdadeiro e profissional: a imparcialidade e a neutralidade. O texto jornalístico se apresenta como referencial e, por isso, condiciona o uso da terceira pessoa e do verbo no indicativo. A opinião personalizada passa a ter um espaço delimitado dentro da imprensa, sinalizado em retrancas como editorial, coluna e coment ários, ressaltando o contraste com uma pretensa narrativa “isenta” e objetiva dos fatos como eles são. O jornalismo, sem dúvida, passou a ser encarado como uma apropriação exata do real, exatamente por seu compromisso com a “verdade”. A ideia de que estaríamos lidando com uma versão, um discurso construído sobre um real a ser apropriado, foi praticamente ignorada (ENNE, 2004, p. 112).    Se entendermos que as notícias espelham a realidade, o jornalista desponta então como um observador neutro e desinteressado, cuja função seria transmitir o que ocorre no mundo. Entretanto, por ser exatamente aquele que presencia o acontecimento, que detecta o fato, ele também é o responsável por selecionar que fatos ou ocorrências serão transformados em notícias e de que modo isso se concretizará. Assim, é o profissional do jornalismo quem se reveste da autoridade para determinar o que é ou não noticiável. Portanto, as notícias que lemos num jornal impresso, ou que assistimos no telejornal, não são meras reproduções da realidade: são escolhas, apostas, seleções. Em suma, são recortes de um cardápio de fatos. Como esses fatos são selecionados, de que forma se dá essa escolha e que critérios entram no jogo e compõem o saber profissional específico da atividade  jornalística são aspectos que não vamos aprofundar aqui. O que nos interessa destacar é  justamente a ideia de que as notícias são produzidas, não são meros repasses de fatos, o que nos permite considerá-las como construção da realidade a partir dos filtros estabelecidos pelo jornalismo. Esses filtros estão tão incorporados à atividade que se tornam lentes profissionais, como aponta Bourdieu (1997, p. 12): “Os jornalistas têm o s seus óculos particulares através dos quais veem certas coisas e não outras, e veem de uma certa maneira as coisa que veem. Operam uma seleção e uma construção daquilo que é selecionado ”. A atividade jornalística não existe em forma abstrata, fora do contexto histórico, mas se encontra sempre concretamente condicionada. Jornalistas são homens e mulheres do seu tempo, com suas cargas emocionais, subjetividades, idiossincrasias,  preferências pessoais, as quais, aliadas às questões profissionais e operacionais do  jornalismo, interferem diretamente nas práticas noticiosas. O fazer jornalístico é uma tentativa de representação e não de transcrição, é uma forma de contar os fatos. O jornalismo é uma leitura sobre o mundo, não do mundo. É um olhar construído historicamente por força de rotinas produtivas, transformações sociais, culturais e ideológicas, relações e interesses comerciais, políticos, etc. (SANTA CRUZ, 2007, p. 4-5).  Nilson Lage (2005) nos recorda que, entre o fato e a versão que se divulga, há todo um processo de percepção e interpretação que é a essência da atividade dos  jornalistas. O processo de percepção e interpretação da realidade é o elemento fundamental na hora de reportar fatos e testemunhos. Cada indivíduo da cadeia
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