Núcleo de Estudantes e Pesquisadores Negros do Departamento de Geografia USP (NEPEN-DG-USP): Trajetos e Desafios

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  Este artigo pretende apresentar em dois momentos a trajetória do Núcleo de Estudantes e Pesquisadoras Negras do departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (NEPEN-GEO-USP). No primeiro momento, buscaremos delinear a importância dada à
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    Núcleo de Estudantes e Pesquisadores Negros do Departamento de Geografia USP (NEPEN-DG-USP): Trajetos e Desafios Guilherme Estevão dos Santos 1   Resumo Este artigo pretende apresentar em dois momentos a trajetória do Núcleo de Estudantes e Pesquisadoras Negras do departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (NEPEN-GEO-USP). No primeiro momento, buscaremos delinear a importância dada à produção acadêmico-científica e a visão estratégica do movimento negro pela qual sucedeu-se a reivindicação por cotas raciais nas universidades públicas brasileiras, assim como a trajetória do movimento negro de base acadêmica, de forma a trazer aqueles que nos antecederam e a importância de seu legado. Num segundo momento, pretende-se resgatar o histórico da formação do NEPEN, onde se evidencia algumas características do lugar ao qual está inserido, assim como a conjuntura que propicia a reunião de pessoas negras em torno de pesquisas elaboradas a partir da ciência geográfica e das relações raciais. Aqui se apresentará também as nuances internas do próprio Núcleo e as ações e atividades realizadas, principalmente aquelas ligadas ao ato político de ser e estar nas condições de pessoas negras em um lugar marcado pela hegemonia de corpos brancos e do pensamento eurocêntrico. Palavras-chave : NEPEN, Intelectualidade Negra, geografia, produção acadêmico-científica A reserva de vagas nas universidades públicas brasileiras, estabelecidas na forma de cotas raciais, além de significar o reconhecimento do racismo estrutural no Brasil por parte do Estado brasileiro, se estabeleceu como conquista de uma reivindicação histórica e estratégica do movimento negro. Como reflexo a política de cotas, mesmo sem promover mudanças estruturais na condição social da população negra brasileira, reforçou o apelo e a tentativa de compreensão da condição negra 2  na formação social brasileira, haja vista a ampliação de pesquisas relacionadas ao tema. Disso deriva compreender três pontos que serão expostos ao longo deste artigo, o primeiro diz respeito ao reconhecimento de que outros pavimentaram os caminhos aos quais agora estamos trilhando, ou seja, nossos passos vêm longe, de forma mais precisa a p artir “formação e florescimento de uma geração de intelectuais oriunda do movimento negro” (Costa, 2018) na década de 70, dessa geração deriva alguns nomes notáveis, tais como Beatriz Nascimento, Lélia Gonzales, Hamilton Cardoso e Eduardo de Oliveira e Oli veira, assim como dez anos depois veio a surgir alguns coletivos e “núcleos de 1  Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana e membro do Núcleo de Pesquisadoras e Estudantes Negros do Departamento de Geografia  –  FFLCH-USP. 2  Condição negra é um conceito cunhado por Achille Mbembe (2018) para designar a condição das população negra seja no continente africano seja na diáspora.      estudos afro-brasileiros (ou correlatos) voltado aos estudos do racismo e das relações raciais “(Ratts , 2009). O segundo ponto está relacionado a compreensão das cotas raciais não apenas como simples reivindicação, mas como estratégia traçada pelo movimento negro que entende a centralidade da produção de conhecimento em um sociedade, tal conhecimento produzido a partir da confluência do saber científico com as experiências vividas, estabelecem um duplo desafio: de um lado à universidade, que historicamente ocupada por sujeitos brancos está sendo obrigada a reconhecer isso e suas consequências na perpetuação do racismo no Brasil, de outro lado à atual geração de estudantes e pesquisadores negros que agora circula por esse espaço e busca ressignificá-lo. O terceiro ponto trata da conformação deste contexto atualmente, mais particularmente a partir constituição do Núcleo de Pesquisadoras e Estudantes Negros no Departamento de Geografia (FFLCH-USP), descrevendo dessa forma sua breve trajetória, suas ambições e seus desafios assumidos. Nossos passos vêm de longe  As mudanças pelas quais passava a sociedade brasileira na década de 1970 e 1980, representaram para o movimento negro uma transformação considerável no que tange o entendimento sobre a realidade da população negra brasileira e consequentemente nas suas reivindicações enquanto movimento social, tais entendimentos se traduziram por exemplo na constituição de uma geração, ainda que diminuta de ativistas-intelectuais negros, assim como o estabelecimento de reivindicações estratégicas baseadas em políticas públicas de ações afirmativas que tinha como potência denunciar, mitigar e combater o racismo estrutural, disso deriva a luta por cotas raciais nas universidades públicas brasileiras. Desta forma a educação e a produção de conhecimento ganham papel central na compreensão do racismo estrutural, o que por sua vez se transformou num dos principais eixos de reivindicação dos movimentos negros. Ao eleger tais reivindicações como vias principais de luta, o movimento negro entendeu que além da educação propiciar a ascensão social e econômica da população negra, a produção do conhecimento se faz fundamental para a superação do nocivo mito da democracia racial, neste sentido a inserção dos sujeitos negros nas universidades públicas brasileiras, repito de forma diminuta na década de 70 e 80, estabeleceu um choque necessário para o conformado quadro de pesquisas e produções científicas nas universidades públicas brasileiras, sobretudo na área de ciências humanas, onde o conhecimento das condições históricas, sociais, econômicas e geográficas sociedade brasileira quando produzido a partir de mãos brancas recorre ao perigo da história única, assim como a reprodução e naturalização da coisificação e não-autonomia da população negra. No sentido de aferir sobre o que chama de “encruzilhadas de todo tipo”, Ratts (2009), ao contextualizar o surgimento do movimento negro de base acadêmica, busca demonstrar os limites da dualidade entre individualidade e coletividade, afirmando que o sentimento de pertencer a determinada coletividade está baseado na apropriação individual das memórias vividas e herdadas, disso deriva também o conhecimento produzido por estes sujeitos que segundo a visão Costa (2018) e Santos (2011) é indissociável das experiências vividas individual ou coletivamente através do ativismo ou do cotidiano, ou seja, a inserção da população negra nos espaços de produção de    conhecimento tende a uma ampliação do número de pesquisas e temas relacionados ao negro, a raça e as relações raciais, pois estes sujeitos conscientes de que suas experiências refletem o racismo da sociedade brasileira, buscam produzir um conhecimento capaz de delinear e denunciar esta realidade muitas vezes deturpada, quando não negadas a partir do conhecimento produzido por sujeitos não-negros. Santos (2 011) define tal consciência como uma “ ethos acadêmico- científico ativo” sendo determinante para a metamorfose do militante negro em negro intelectual. Por sua vez, Costa (2018) em sua crítica ao modelo moderno e eurocentrado de produção de conhecimento (ciência) baseado na teoria decolonial, define tal consciência a partir do que chama de corpo-geopolítica do conhecimento, o autor critica o modelo de produção de conhecimento baseado universalidade abstrata e defende a constituição de uma universalidade concreta que abarque o existir, o ser, ou seja as experiências e memórias, sobretudo das populações subjugadas. As três contribuições acima referidas situam a existência de intelectuais negros orgânicos na década 70, formados na base do ativismo negro e comprometidos com a produção e disseminação do conhecimento acadêmico-científico. Tais intelectuais aqui representados por Beatriz Nascimento, Lélia Gonzales, Hamilton Cardoso, Eduardo de Oliveira e Oliveira, Abdias do Nascimento e Clóvis Moura em suas respectivas trajetórias expõem o racismo estrutural e institucional incrustado nas universidades brasileiras, com exceção de Lélia Gonzalez, estes notáveis e brilhantes sujeitos jamais chegaram a ocupar uma cadeira de professor em uma universidade pública, aliás Beatriz, Eduardo e Hamilton sequer chegaram a concluir seus estudos no nível de pós-graduação (Ratts, 2009). Por mais que tais trajetórias foram prematuramente encerradas e/ou não reconhecidas pelas instituições acadêmico-científicas brasileiras se faz pertinente salientar o legado deixado por elas. Tal legado, hoje relacionado a uma presença cada vez maior e marcante da população negra nesses espaços, relega aos sujeitos negros portadores do ethos acadêmico-científico ativo, inseridos no campo da produção de conhecimento acadêmico-científico desafios de diversas ordens, como por exemplo lidar com o avanço da política de cotas, no sentido de subverter a lógica de isolamento posta aos estudantes e pesquisadores negros nas universidades públicas brasileiras, majoritariamente compostas por sujeitos brancos. Um outro desafio diz respeito à forma como se dará uma atuação estratégica em meio a um contexto de precarização e desmonte tanto das universidades públicas como dos órgãos que fomentam a produção de conhecimento acadêmico-científico no Brasil. Por último e com certeza não menos importante é o desafio de estabelecer uma agenda de pesquisa, cultura e extensão capaz de superar o epistemicídio, subverter o eurocentrismo e constituir parâmetros teóricos e conceituais comprometidos com um projeto político de forma a concretizar a devida emancipação e autonomia da população negra no Brasil. NEPEN: Trajetos e Ações Fundado em meados de 2016, a partir da confluência de algumas percepções acerca do silêncio e apagamento das questões relacionadas ao negro e as relações raciais no Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, o hoje chamado Núcleo de Pesquisadoras e Estudantes Negros se insere no contexto acima assinalado de tentativa de    ressignificação da produção acadêmico científica e participação na construção de um projeto político voltado a população negra. Essa confluência entre ativismo e formação intelectual nos marca enquanto grupo, e vai além das falsas polêmicas já estabelecidas historicamente, onde de um lado está a universidade, berço da ciência e do conhecimento afirmando que internamente à produção de conhecimento não há espaços para ativismos e de outro uma ala do movimento negro, que a partir de uma visão restrita a prática, crê que a inserção da população negra nos espaços de produção de conhecimento enfraquece ou deturpa o ativismo negro. Nós enquanto grupo nos opomos a tais visões limitantes do que venha ser tanto a produção do conhecimento quanto o ativismo político, estabelecemos nossas ações a partir do entendimento da necessidade de se buscar, particularmente na ciência geográfica, as determinações raciais que fundamentam a sociedade brasileira. Hoje o núcleo conta com cerca de 12 membros e tem por características a pluralidade no que tange os objetos de pesquisas, teorias, conceitos e categorias abordadas, nos diversos níveis de pesquisa (iniciação científica, trabalho de graduação individual, mestrado e doutorado). Muitos dos nossos membros, graduados no DG-FFLCH-USP, ao frequentarem as aulas, terem contatos com professores e/ou buscarem orientações para elaborar projetos e ideias para iniciações científicas (IC) e/ou trabalhos de graduação individual (TGI) perceberam um nítido déficit 3  no que diz respeito às determinações raciais nos entendimento, teorias, categorias e conceitos utilizados pelos professores para elaborar suas aulas e orientações nas diversas áreas da ciência geográfica. Surgiu a partir daí uma série de questionamentos, sobre as limitações postas no departamento em relação ao tema, assim como um ímpeto em trazer visibilidade e voz ao negro, à raça e as relações raciais dentro da ciência geográfica. Assim sendo começamos a nos reunir semanalmente às sextas-feiras a noite no Labur (Laboratório de Geografia Urbana), de início debatemos os porquês de nos reunirmos, assim como a importância de buscarmos uma intervenção dentro do departamento, salientando sempre o contexto em que estamos. Posteriormente fizemos leituras de algumas obras sobre a questão racial no Brasil, buscando fundamentar alguns conceitos e categorias, neste roteiro de leitura refletimos e debatemos algumas obras, entre elas o texto “Colonialidade do Poder: Eurocentrismo e América Latina” de Aníbal Quijano; “Redi scutindo a Mestiçagem n o Brasil” de Kabenguele Munanga;   “Tornar  -se Negro” de Neusa Santos Souza;   “Mulheres, Raça e Classe” de Angela Davis entre outros. As leituras, não restritas a ciência geográfica nos trouxe elementos fundamentais, basilares e complexos de compreensão do racismo no mundo moderno, contribuindo com conceitos e categorias elementares para o debate no âmbito acadêmico-científico de nossas pesquisas. Após a leitura desses textos, entendemos a necessidade de 3  Se faz pertinente citar que a tradição marxista do departamento a partir da constituição da geografia crítica na década de 70, comprometida com a luta de classes, tem papel fundamental nesta invisibilidade, pois o marxismo clássico ou ortodoxo crê que temas relacionados a raça e gênero tem como função desvirtuar o debate acerca da luta de classes, no entanto entendemos que trata-se de mais uma visão limitante que não concebe a intersecção e o papel fundamental que o racismo e o patriarcado tiveram na formação social brasileira.    compartilharmos nossas pesquisas, assim como abrir espaços para contribuições de outros membros. A primeira pesquisa discutida coletivamente foi o trabalho de graduação individual (TGI) intitulado "Pacífico Negro Colombiano: territorialidades e os movimentos negros de 1980 e 1990", de Geinne Monteiro, trazendo aspectos da territorialidade negra na Colômbia de forma a ampliar os horizontes para a realidade da população negra na América Latina, posteriormente lemos e debatemos o trabalho de  Amanda Moraes, “Memórias da população negra na cidade de São Paulo”, que se baseia no estudo de caso da Igreja do Rosário dos Homens Pretos localizada centro da cidade, em seguida a contribuição se deu a partir da pesquisa “Metrópole, Cotidiano e Racismo” de Guilherme Estevão, que trata do cotidiano da população negra em São Paulo do ponto de vista da morte e encarceramento em massa, a pesquisa foi debatida em conjunto com o TGI de Ricardo Santos “Racismo e Sistema Prisional no Brasil Contemporâneo”. Há ainda, trabalhos de outros membros a serem expostos e discutidos. Importa aqui salientar que o núcleo vem efetuando pesquisas de diversas ordens, onde a leitura conjunta expôs a confluência de temas, teorias, conceitos e categorias, futuramente objetivamos efetuar linhas de pesquisas internamente ao grupo como uma forma de concretizar pesquisas elaboradas coletivamente. O amadurecimento do grupo vem sido demonstrado a partir da repercussão de suas ações e participações em diversos eventos, sejam eles congressos, seminários, encontros, rodas de conversas exibições de filme etc. organizados ou não por nós. Dentre essas ações e eventos destacamos os seguintes: * Caminhos para geografia na obra de Beatriz Nascimento: Exibição e debate do Documentário Orí, organizado por Beatriz Nascimento e Raquel Gerber   A exibição do documentário Orí, no Departamento de Geografia da USP, foi a primeira atividade aberta realizada pelo NEPEN. Esta exibição foi realizada com o objetivo de divulgar a existência do núcleo, não apenas para a comunidade acadêmica da Universidade de São Paulo, mas também para outras organizações e entidades que discutem a questão racial. Assim, foi realizada um processo de divulgação da exibição, pelas redes sociais (Facebook e Instagram) e por alguns canais de comunicação da USP. Além da exibição do documentário foi realizada uma apresentação, seguida de debate, sobre a trajetória e a produção acadêmica da intelectual Beatriz Nascimento. * Encontros com pesquisadores/as e intelectuais negros/as  Neste último ano, o núcleo realizou alguns encontros, com intelectuais negros/as que são referências para os/as pesquisadores/as da questão racial. O primeiro encontro foi realizado com a professora Flávia Rios da Universidade Federal Fluminense (UFF). Na ocasião, Flávia apresentou um breve panorama da presença da população negra nas universidades, em especial nas públicas, ressaltando o quanto as políticas afirmativas estão ressignificando o que é ser negro/a e estar na universidade. A professora também apontou semelhanças entre o NEPEN e o Coletivo Negro da UFF.
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