Investimento externo chinês na América Latina e no Sudeste Asiático: uma análise de escopo, valores e setores-alvo

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  O artigo tem como objetivo realizar uma análise quantitativa e qualitativa dos fluxos de investimento externo direto (IED) da China em países da América do Sul e do Sudeste (SE) Asiático. A hipótese do trabalho é que os fluxos de IED correspondem a
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  5 estudos internacionais •   Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v.6 n.3 (2018), p.5 - 25 Investimento externo chinês na América Latina e no Sudeste Asiático: uma análise de escopo, valores e setores-alvo China’s foreign direct investment in Latin America and the Southeast Asia: an analysis of scope, values and target sectors  DOI: 10.5752/P.2317-773X.2018v6.n3.p5 Bernardo Salgado Rodrigues 1 Bruno Hendler 2 Recebido em: 05 de outubro de 2017Aprovado em: 21 de fevereiro de 2018 R󰁥󰁳󰁵󰁭󰁯 O artigo tem como objetivo realizar uma análise quantitativa e qualitativa dos fluxos de investimento externo direto (IED) da China em países da América do Sul e do Sudeste (SE) Asiático. A hipótese do trabalho é que os fluxos de IED correspondem a uma lógica de Estado que não obedece, necessariamente, ao imperativo de lucros de curto prazo, uma vez que parte significativa do capital tem srcem em fundos e empresas controlados por agentes do governo chinês, e as principais atividades de destino estão ligadas a setores tidos como estratégicos para desenvolvimento e segurança da China no longo prazo. O método da pesquisa está dividido em três partes: levantamento quantitativo dos valores e natureza (pública ou privada) dos fluxos de IED da China em países da AL e SE  Asiático; exame quantitativo das principais atividades econômicas ligadas a esses IED’s; e cruzamento de dados entre valores, natureza e atividade econômica para propor uma análise qualitativa da relevância dos referidos investimentos para a lógica de Estado da China. Por fim, busca-se refletir sobre as diferenças e semelhanças do perfil de investimento chinês na AL e no SE Asiático, de forma a contribuir para o debate acerca dos impactos da ascensão chinesa nos países em desenvolvimento. Palavras- chave:  investimento externo direto chinês; América Latina; Sudeste Asiático.  A󰁢󰁳󰁴󰁲󰁡󰁣󰁴 The article aims to conduct a quantitative and qualitative analysis of the flows of foreign direct investment of China in South American and Southeast Asian countries. The working hypothesis is that FDI flows correspond to a State logic that does not necessarily obey the imperative of short-term profits, since a significant part of the capital comes from funds and companies controlled by agents of the Chinese government, and the main target activities are linked to sectors regarded as strategic for China’s long-term development and security.The research method is divided into three parts: quantitative survey of the 1. Doutorando em Economia Política Internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ-PEPI. Mestre em Economia Política Internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ-PEPI. Bolsista CAPES. Rio de Janeiro/Brasil. ORCID: 0000-0002-6439-83592. Doutorando PEPI-UFRJ. Mestre em Relações Internacionais pela Univer-sidade de Brasília e doutorando em Economia Política Internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Bolsista CAPES. Rio de Janeiro/Brasil. ORCID: 0000-0003-0896-611X  estudos internacionais •   Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v.6 n.3 (2018), p.5 - 25 6 values and nature (public or private) of China’s FDI flows in Latin American and Southeast Asian countries; quantitative examination of the main economic activities related to these FDIs; and cross-data between values, nature and economic activity to propose a qualitative analysis of the relevance of such investments to China’s State logic. Finally, the aim is to reflect on the differences and similarities of the Chinese investment profile in Latin America and the Southeast Asia in order to contribute to the debate about the impacts of the Chinese rise in developing countries. Key words : Chinese foreign direct investment; Latin America; Southeast Asia Introdução No início do século XXI, a América do Sul e o Sudeste Asiático aparecem como duas zonas geopolíticas de grande relevância para o de-senvolvimento chinês em sua estratégia de abertura e maior influência no mundo. Nesta perspectiva, o Investimento Externo Direto (IED) se apresenta como um fator de análise da influência chinesa em determina-dos setores econômicos e na sua estrutura de poder.Diante disso, o artigo tem como objetivo realizar uma análise quantitativa e qualitativa dos fluxos de investimento externo direto da China em países da América do Sul e do Sudeste Asiático. A hipótese do trabalho é que os fluxos de IED correspondem a uma lógica de Esta-do que não obedece, necessariamente, ao imperativo de lucros de curto prazo, uma vez que parte significativa do capital tem srcem em fundos e empresas controlados por agentes do governo chinês, e as principais atividades de destino estão ligadas a setores tidos como estratégicos para o desenvolvimento e a segurança da China no longo prazo.O trabalho divide-se em três partes: a definição de IED e a partici-pação da China no mundo nos últimos anos; a crescente presença chinesa nas duas regiões em questão através do levantamento e exame quantitati-vo dos valores e natureza (pública ou privada) e principais atividades eco-nômicas dos seus fluxos; e cruzamento de dados entre valores, natureza e atividade econômica para propor uma análise qualitativa da relevância dos referidos investimentos para a lógica de Estado da China. Por fim,  busca-se refletir sobre as diferenças e semelhanças do perfil de investi-mento chinês na AL e no SE Asiático, de forma a contribuir para o debate acerca dos impactos da ascensão chinesa nos países em desenvolvimento. China e a internacionalização de capitais  A definição clássica de investimento externo direto segundo a OCDE (p. 17) é: investimento feito por um ator residente em um país A (investidor direto) com o objetivo de estabelecer um “interesse duradouro” em uma empresa fixada em um país B. A motivação desse interesse duradouro em criar uma “relação estratégica de longo prazo” é garantir um grau de in-fluência na gerência da empresa no país B, expresso pelo controle de pelo menos 10% do poder de voto nos processos de tomada de decisão. Já Krugman e Obstfeld (1999, p. 172) entendem investimento es-trangeiro direto como os fluxos internacionais de capitais pelos quais  Rodrigues, Bernardo Salgado; Hendler, Bruno Invesmento externo chinês na América Lana e no Sudeste Asiáco.. 7 uma empresa em um país cria ou expande uma filial em outro. A caracte-rística distintiva do investimento estrangeiro direto é que ele envolve não só uma transferência de recursos, mas também a aquisição do controle. Isto é, a filial não tem apenas a obrigação financeira com a empresa ma-triz; ela é parte da mesma estrutura organizacional (KRUGMAN; OBST-FELD, 1999, p.172).O investimento de capital estrangeiro pode ser direto, quando aplicado na criação de novas empresas ou na participação acionária em empresas já existentes; e indireto, quando assume a forma de emprés-timos e financiamentos a longo prazo. A expectativa de lucros dos in-vestimentos diretos privados no exterior decorre de fatores como: 1) maiores facilidades fiscais e/ou legislativas do que se conseguiria no próprio país; 2) expectativa de variações cambiais favoráveis 3) ou por temor a mudanças políticas ou fiscais no país de srcem. O investimen-to governamental, por sua vez, é realizado geralmente por razões po-líticas, diplomáticas ou militares, independentemente de possíveis ren-dimentos econômicos, mas pode ter a função de equilibrar, em longo prazo, o balanço de pagamentos do país de srcem. Para o país receptor, o investimento estrangeiro pode ser um meio de estimular o cresci-mento econômico quando o nível de poupança interna for insuficiente para atender às necessidades potenciais de investimento, embora isso geralmente acentue o grau de dependência econômica e política do país anfitrião em relação aos países exportadores de capital. (SANDRONI, 2008, p.436-437). Assim, uma literatura ortodoxa/neoclássica aponta quatro grandes motivações para que uma empresa decida investir no exterior: i) acesso a mercados; ii) redução de custos de produção, geralmente ligados ao bara-teamento de mão de obra ou de facilidades oferecidas pelo país hospedeiro; iii) acesso a recursos naturais; e iv) acesso a tecnologia e conhecimento téc-nico (YAO, p. 12-14). Porém, essa concepção se baseia em estudos empíricos sobre a atuação das empresas multinacionais privadas de países desenvolvi-dos (PD’s), carecendo uma explicação mais realista referente a atuação das SOE’s 3  chinesas. Isto é, o OFDI 4  chinês leva em conta, mas não se limita, a esses quatro elementos e, dado o caráter público dessas empresas, argu-mentamos que parte significativa dos investimentos é motivada por uma lógica estatal que atende a objetivos políticos e estratégicos.Essa visão heterodoxa é compartilhada por Chesnais (1996). Na sua visão, a análise do IED passa a ser significativa quando se consideram as dimensões qualitativas do IED, destacadas a partir de uma lógica inter-temporal que não se reduz a uma transação pontual, de liquidez imedia-ta. Assim, “implica transferências de direitos patrimoniais e, portanto, de poder econômico” (CHESNAIS, 1996, p. 54), que abrange um “com-ponente estratégico evidente na decisão de investimento da companhia” (CHESNAIS, 1996, p.55).Logo, a “exportação de valor destinado a produzir mais-valia no exterior” (CHESNAIS, 1996, p.50), o que se compreende por IED na atua-lidade, remete: (...) a ideia de penetração, seja para depois esvaziar os concorrentes locais, seja para ‘sugar’ as tecnologias locais, faz parte desse aspecto ‘estratégico’ do inves- 3. Em inglês, sigla para state owned enterprises  .4. Em inglês, sigla para outward foreign direct investment.  estudos internacionais •   Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v.6 n.3 (2018), p.5 - 25 8 timento direto e, geralmente, está inserido num processo complexo de tentar antecipar as ações e reações dos concorrentes. [...] Esse termos remete à existên-cia, no contexto de estruturas de oferta concentradas, de mecanismos de apro-priação e de centralização, pelas companhias mais fortes, de ativo ou riquezas produzidos por agentes econômicos. (CHESNAIS, 1996, p.55) No século XXI, a China se propõe a ser um dos grandes  players  internacionais buscando projetar poder e gerar riqueza e o IED é parte constitutiva deste processo, tendo no Estado chinês seu principal indutor. Para Fiori (2007, p.32-33), Não há a possibilidade de que algum desses Estados nacionais se transforme em uma nova potência sem dispor de uma economia dinâmica e de um projeto políti-co-econômico expansivo. E fica cada vez mais difícil que algum capital individual ou bloco de capitais nacionais, públicos ou privados, se expanda para fora de suas fronteiras nacionais sem contar com o apoio ativo dos seus Estados, o que só ocor-rerá quando esses Estados também tiverem projetos “extraterritoriais”. Segundo Fiori (2014, p.31-32), há atualmente uma quarta explosão expansiva no sistema internacional, em que a China se apresenta como o Estado que busca ampliar suas fronteiras globais, buscando novos espa-ços e territórios de expansão. O seu próprio: (...) desenvolvimento econômico obedece a estratégias e seguiu caminhos que foram desenhados em resposta a grandes desafios sistêmicos, de natureza geo-política. Independente de quais fossem as coalizões de interesse, de classe ou de governo, em todos esses países em algum momento formou-se um bloco de poder que respondeu da mesma forma a esses desafios externos, por meio de estratégias e de políticas de fortalecimento econômico sustentadas por longos períodos. (FIORI, 2014, p.37-38) No caso da China, a partir da abertura econômica em 1978, o país tornou-se um grande receptor de fluxos de IED (IFDI) 5 , oriundos prin-cipalmente da diáspora chinesa na Ásia e de PD’s. Esse fenômeno, com- binado a outros fatores domésticos e externos, trouxe crescimento eco-nômico e desenvolvimento social, mas também acentuou contradições internas que culminaram na gradual transição (a partir dos anos 2000) de um modelo voltado para as exportações aos mercados centrais para outro com comércio e investimentos mais direcionados aos mercados domésticos e de países em desenvolvimento (PED’s). Nesse contexto, a internacionalização de empresas chinesas ganhou a atenção de intelec-tuais, políticos e empresários do mundo desenvolvido e em desenvolvi-mento nas últimas décadas. A contribuição de IED para a inserção chinesa nas cadeias globais de valor (IFDI) é abordada amplamente pela literatura especializada des-de os anos 1970. Porém, estudos no sentido oposto, que versam sobre a internacionalização de capitais chineses ganharam força apenas nas úl-timas duas décadas, diante do crescimento do número de projetos e dos valores envolvidos.Para compreender este fenômeno, cabe-nos uma bre-ve retrospectiva histórica. A política do governo chinês para a internacionalização de capitais (OFDI) pode ser dividida em três períodos. O primeiro, iniciado em 1979 com a formulação de quinze diretrizes de modernização econômica pelo Conselho de Estado, perdurouao longo da década de 1980 (PEI; ZHENG, 5. Em inglês, sigla para inward foreign direct investment.  Rodrigues, Bernardo Salgado; Hendler, Bruno Invesmento externo chinês na América Lana e no Sudeste Asiáco.. 9 2015, p. 2). Apenas empresas estatais (SOE’s) eram autorizadas a investir no exterior e seus projetos, regulados pelo próprio governo, eram em sua maioria voltados para a facilitação das exportações com a abertura de escritórios no exterior e para os setores de agricultura,mineração e manufaturas (Ibidem).Foi apenas na segunda fase, iniciada em 1992 com a viagem de Deng Xiaoping para o sul da China, que o governo promoveu refor-mas jurídicas que facilitariam o registro e a administração de OFDI.  Apesar da preponderância das SOE’s, empresas privadas e cooperativas também entraram no jogo e diversificaram o perfil e o destino do IED chinês: serviços, saúde, imóveis, seguros e turismo entraram na pauta, além de agricultura, mineração e manufaturas. Assim, o crescimento do número de projetos e dos valores envolvidos nos anos 1990 deveu--se às mudanças domésticas propiciadas pelo crescimento econômico e pela competitividade e know-how  de algumas empresas, mas também ao contexto internacional favorável com o avanço da globalização (PEI; ZHENG, 2015, p. 7-8).O terceiro período iniciou-se no começo dos anos 2000 com a efetivação do plano “  going global ” do governo chinês, que passaria a apoiar a internacionalização de empresas públicas e privadas, embora a predominância das SOE’s continuasse evidente. O principal mecanis-mo tornou-se a concessão de crédito, com juros abaixo do praticado no mercado, por bancos estatais como o  Export-Import Bank of China  ( China  EximBank ) (Idem, p. 9). Ademais, a alta taxa de poupança da China e a estrutura corporativa vinculada ao governo combinaram-se ao merca-do de capitais distorcido para sustentar o OFDI chinês. Dada a altíssima competitividade do mercado interno, explorado por empresas nacionais e estrangeiras, e o próprio salto de competitividade das firmas chinesas, o OFDI do país deu novo salto nos anos 2000. Assim, as empresas chi-nesas passaram a investir pesadamente em PD’s e PED’s mundo afora em busca de mais controle sobre as cadeias de valor e mais acesso a tecnologias, mercados e recursos.Desta forma, a política externa chinesa passou a conferir alta prioridade ao endosso pragmático das reformas; com diretrizes fo-cadas primordialmente em assegurar condições da segurança e es-tabilidade para o desenvolvimento (SHI, 2008; SUTTER, 2012; LAI e KANG, 2012; ZHANG, 2012) 6 . Mesmo seus objetivos de segurança nacional se viram cada vez mais permeados por motivação de uma natureza fundamentalmente econômica: forjar um “ambiente inter-nacional pacífico” que suporte ou não coloque empecilhos ao pro-gresso material. Assim, a diretriz chinesa de política externa no novo cenário mundial passou a ser enquadrada como o de “ação dentro da não-ação” (  jingzhongyoudong  ), capturando o princípio de aguardar o timing   correto para só então completar um objetivo último em alguma extensão pretendida; nesta lógica, o próprio direcionamento de IED em determinadas localidades geográficas atende aos princípios de de-senvolvimento e da política externa chinesa no sistema internacional.  A tabela abaixo apresenta os dados de IED chinês em valores e nú-mero de empresas, de 1979 a 2010: 6. Algo justificável em face de sua estratégia de ampliação de exportações objetivando marketshare  , e também o ímpeto, mais latente apenas na década de 1990, de angariar fluxos de investi-mento externo direto (IED).
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