ENTRE SONHOS E COTIDIANOS : DIVAGAÇÕES TEÓRIC A S PAR A UM A PROPOSTA DE PARQUE NO COTIDIANO DE BR A SIL ÂNDIA BETWEEN DREAMS AND ORDINARY LIFE: THEORETICAL DIGRESSIONS ON A PARK PROPOSAL FOR EVERYDAY LIFE IN BRASILÂNDIA

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  RESUMO O que significa um parque para Brasilândia na região norte do município de São Paulo? Este trabalho apresenta as digressões teóricas que foram permitidas ao longo do desenvolvimento de proposta para o Parque Municipal da Brasilândia. O
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  53 P AISAG . AMBIENTE : ENSAIOS  - N . 39 - S ÃO  P AULO  - P . 53 - 79 - 2017 HTTP ://  DX . DOI . ORG  /10.11606/  ISSN .2359-5361. V 0 I 39 P 53-79 * Universidade de São Paulo, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. Rua do Lago, 876, CEP 05508-080, Butantã, São Paulo, SP. CV: http://lattes.cnpq.br/1536594461814681 wehmann.hulda@gmail.com ENTRE SONHOS E COTIDIANOS: DIVAGAÇÕES TEÓRICAS PARA UMA PROPOSTA DE PARQUE NO COTIDIANO DE BRASILÂNDIA BETWEEN DREAMS AND ORDINARY LIFE: THEORETICAL DIGRESSIONS ON A PARK PROPOSAL FOR EVERYDAY LIFE IN BRASILÂNDIA Hulda Wehmann * RESUMO O que significa um parque para Brasilândia na região norte do município de São Paulo? Este trabalho apresenta as digressões teóricas que foram permitidas ao longo do desenvolvimento de proposta para o Parque Municipal da Brasilândia. O distrito possui uma porção de área verde alvo de campanhas para transformação em parque. A proposta aqui discutida tem como diretriz o enraizamento do parque no bairro como estratégia para assegurar sua inserção como espaço físico e simbólico. Para isso são sugeridas novas relações entre o espaço construído e a área verde, utilizando-se das oportunidades encontradas na estrutura da cidade informal para entrelaçar espaço construído e zonas de natureza, tempo de lazer e vida cotidiana. O projeto apresentado utiliza-se de soluções de manejo das águas urbanas baseadas nos princípios de Melhores Práticas de Manejo (MPM) e Desenvolvimento de Baixo Impacto (Low Impact Development – LID), numa tentativa de melhorar a relação entre o espaço construído e a base biofísica, e da proposta da Borda de Amabilidades como costura suave entre o uso urbano e o espaço de proteção à vida natural.Palavras-chave: Paisagem. Cotidiano. Borda de Amabilidade.  ABSTRACT  What are the implications of a new park in the district of Brasilândia, in northern Sao Paulo city? This paper presents a few theoretical digressions that were made during the development of a proposal for Brasilândia Municipal Park. The district has a considerable portion of green space, which is currently addressed by civil campaigns to be turned into a park. This article discusses the proposed insertion of the park in that neighborhood as a strategy to create a physical and symbolic space. The proposal suggests the use of pre-existing opportunities in the informal city structure to establish new relationships and to intertwine built  space with green natural space, everyday life with leisure time. As an attempt to increase relations between the built environment and the its biophysical basis (BONZI, 2015), the proposed plan makes use of urban water management solutions based on both the principles of Best Practice Management (MPM) from the Low Impact Development (LID) and the creation of an “Edge of Amiability”, a gradual transition between urban use and space of natural life protection.Keywords: Landscape. Ordinary life. Edge of Amiability.  54 P AISAG . AMBIENTE : ENSAIOS  - N . 39 - S ÃO  P AULO  - P . 53 - 79 - 2017 Hulda Wehmann BRASILÂNDIA, CIDADE E PARQUE Mas não, mas nãoO sonho é meu e eu sonho queDeve ter alamedas verdes A cidade dos meus amores( Os saltimbancos , Chico Buarque, 1977)  Ao adaptar o musical infantil Os Saltimbancos , de Sergio Bardotti e Luis Enríquez Bacalov, Chico Buarque faz seus personagens cantarem sobre suas cidades ideais, espaços míticos diferentes da realidade que lhes era adversa. Inicialmente, os sonhos são individuais, quando o cachorro canta sobre os postes, a gata imagina sardinhas e a galinha pede minhocas. Apenas o jumento, que é “velho e sabido”, atenta para a hostilidade da cidade real: “A cidade é uma estranha senhora, que hoje sorri e amanhã te devora.”O coro, um coletivo de vozes infantis, apresenta os riscos de cada sonho individual e aconselha escutar a sabedoria da experiência. Ao mesmo tempo, oferta a chave de uma possibilidade diferente: quando todos puderem sonhar como crianças (moradores, varredores e prefeito), a cidade poderá ser dos sonhos, com alameda verdes, a cidade dos amores. A singular poesia dessa letra permite análises bem mais aprofundadas. Porém, para este texto, bastará que indique caminhos ao propor a união de sonhos, amores e verde. Essa foi a rota seguida pela proposta para o Parque Municipal da Brasilândia, elaborada em grupo 1 , como atividade acadêmica da disciplina Espaços Livres Públicos Coletivos Urbanos, do curso de pós-graduação da Faculdade de Arquitetura e Urbanis- mo da Universidade de São Paulo (FAUUSP) no primeiro semestre de 2016. O objetivo deste trabalho é apresentar uma reflexão individual sobre as divagações teóricas que permearam a produção das diretrizes, resultantes de debates do grupo de alunos e, particularmente, da equipe responsável pela proposta.Os professores responsáveis pela disciplina, Catharina Lima e Eugênio Queiroga, que contou com a participação dos professores Caio Boucinhas e Sylvia Dobry, pro-puseram que a discussão dos conceitos teóricos fosse ancorada a um contexto espe-cífico, o distrito de Brasilândia, na zona norte da capital paulista, com foco no espaço desejado ao Parque Municipal da Brasilândia por organização de moradores. O termo ‘desejado’ se explica: oficialmente, apenas parte da área verde existente foi adquirida para a implantação do parque. Para o projeto, ousou-se inserir áreas adjacentes, con-templando as aspirações dos moradores da região. A conexão entre a letra da canção de Chico Buarque e a disciplina se faz desde a escolha da área: Brasilândia é espaço de sonhos, palco da luta pelo estabelecimento 1  Agradeço a gentileza dos colegas de equipe Carmem Procópio, Gabriela Albornoz, Gustavo Kerr, Marina Mello, Rafaela Izeli, Tatiana Francischini e Tiago Lourenzi, que permitiram o uso da proposta coletiva como base para este artigo, além das contribuições que prodigalizaram nas discussões em grupo.  55 P AISAG . AMBIENTE : ENSAIOS  - N . 39 - S ÃO  P AULO  - P . 53 - 79 - 2017 Entre Sonhos e Cotidianos: Divagações Teóricas para uma Proposta de Parque no Cotidiano de Brasilândia de um parque em zona de área verde, esmeralda inserida em contexto de opostos com- plementares: altas densidades em relevo acidentado, com manchas de concentração de vegetação e um parque sem árvores. É também espaço de conflitos, com disputas entre demandas de direito à moradia como abrigo e o direito ao habitat  como conjunto unificado dos espaços de vida.  A metodologia sugerida pelos professores reconhece que a intervenção deve ini-ciar-se pelo desvelar do território em suas categorias analíticas, o que inclui formas físicas, funções existentes, estrutura e principalmente processos (QUEIROGA, 2012), acompanhando o entendimento de Milton Santos (2012) sobre espaço: um conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações em que um sistema só se concretiza através do outro. Qualquer subespaço inclui uma fração desses sistemas, cuja totalidade é o mundo. A inserção desse posicionamento teórico se dá nas formas de conhecimento do espaço de intervenção, considerando que intervenções na paisagem são manifesta-ções culturais no espaço produzidas como processo histórico de representações das relações sociais, materializando práticas e ideologias no espaço concreto local (LEITE, 1998, p. 81 apud QUEIROGA, 2012). Essa compreensão orienta não só o processo de aproximação da realidade, mas também as proposições elencadas, que associam intervenções nas estruturas físicas a partir de e combinadas com ações que permitem aos objetos resultantes sua inserção na realidade. O tempo dedicado à proposta, um semestre letivo, é curto em face dos muitos desafios e contradições presentes em Brasilândia. Contudo, apesar disso, foram pos-síveis reflexões enriquecedoras para os participantes da disciplina. Assim, o objetivo deste trabalho é apresentar o processo de reflexão que srcinou as diretrizes projetuais, assumindo tratar-se de produto momentâneo de um processo que deveria se estender por mais tempo. Para isso apresentam-se, de modo resumido: o resultado do esforço de aproximação da realidade local e os procedimentos utilizados nesses estudos; o diálogo questionador e seus posicionamentos teóricos sobre as percepções do lugar; as diretrizes e propostas nascidas dos debates, tal como compreendido o processo. Espera-se que, dessa forma, mesmo o que se sabe inconcluso possa ser significativo, considerando a fragilidade da dúvida como possibilidades de desenvolvimentos futuros. UM PARQUE PARA O DISTRITO, UM DISTRITO PARA O PARQUE  A produção do espaço por projetos arquitetônicos (em sentido amplo, que inclui a arquitetura, o urbanismo e o paisagismo) inicia-se a partir do conhecimento do lugar.  A metodologia de coleta de informações envolve, porém, uma postura ideológica, indicando a postura referente aos destinatários do projeto. O paradigma de projeto modernista, inicialmente orientado para a produção de respostas rápidas em territórios europeus devastados pela Segunda Guerra Mundial, orienta-se pelo pragmatismo. O modelo adotado, de repetição para produção em  56 P AISAG . AMBIENTE : ENSAIOS  - N . 39 - S ÃO  P AULO  - P . 53 - 79 - 2017 Hulda Wehmann massa, torna os indivíduos unidades discretas, fragmentando e parcelando o social e o próprio indivíduo de tal forma, que o cidadão foi progressivamente substituído por um somatório de necessidades e carências que cumpria satisfazer de forma padronizada (MARTINS et al. , 1996), consumindo um espaço que lhe é imposto por uma racionali-dade sistêmica, uma “cidade-conceito” (CERTEAU, 1998). A fim de evitar esse processo, considerado uma indesejável alienação do indivíduo em relação ao seu espaço de vida, a equipe se propôs a reconhecer a realidade de Brasilândia em suas características unívocas, consideradas as relações dialéticas entre seus habitantes e o lugar. O processo de conhecimento do espaço de Brasilândia se deu em camadas sucessivamente combinadas: leituras, conversas, reflexões teóricas e, principalmente, a cartografia da realidade por meio de percursos a pé e de carro pelo espaço. É através de sentidos objetivos e subjetivos que se forma a imagem de Brasilândia e de possíveis significados do seu futuro parque municipal.  A importância da inserção dos pesquisadores no contexto se dá pela necessidade da aproximação de racionalidades, da lógica de quem projeta e daquele que habita o lugar. A estrutura da disciplina permitiu tal apropriação ao inserir em sua programa-ção oportunidades de encontros com moradores e a construção de uma corpografia 2  própria – para que, ao invés de projetar uma representação do espaço impositiva, a proposta permitisse a qualificação dos espaços de representação conforme definições de Lefebvre (2006).  A adoção dessa postura – a partir de reflexão em equipe – indicou a necessidade de uma segunda visita complementar após a realização do primeiro seminário de equipes. O diálogo orientador do projeto será aqui apresentado através da inserção de conceitos teóricos ao longo da discussão da proposta. Acredita-se que essa forma permitirá melhor clareza na explicação do processo, sem prejuízo do entendimento. BRASILÂNDIA NASCE E CRESCE O distrito de Brasilândia nasce oficialmente em 1947, abrigando em distante peri-feria os forasteiros de São Paulo, sejam migrantes de outras paragens, sejam aqueles retirados de zonas centrais, pois a cidade oficial não os reconhecia como seus (DNA da Brasilândia, 2010). A construção do tecido urbano se dá à revelia de determinações oficiais, característica expressa nas morfologias construídas e nas características sociais presentes atualmente no bairro.  As estruturas físicas em Brasilândia demonstram uma contradição: a condição in-formal das apropriações irregulares é fruto do sistema socioeconômico, mas permite, ao mesmo tempo, o exercício da criatividade – que se perde na cidade formal, em seu urbanismo do espetáculo (JACQUES, 2008). A consolidação da periferia e a integração 2 O termo ‘corpografia’, retirado de artigo homônimo, refere-se a um tipo de cartografia realizada pelo e no corpo, ou seja, a memória urbana inscrita no corpo, o registro de sua experiência da cidade, uma espécie de grafia urbana, da própria cidade vivida, que fica inscrita, mas também configura o corpo de quem a experimenta (JACQUES, 2008).  57 P AISAG . AMBIENTE : ENSAIOS  - N . 39 - S ÃO  P AULO  - P . 53 - 79 - 2017 Entre Sonhos e Cotidianos: Divagações Teóricas para uma Proposta de Parque no Cotidiano de Brasilândia deficitária da cidade são processos dialéticos, contrapondo as formas de mercantilização da terra urbana de forma incipiente à irregularidade das ocupações. Conforme Angileli (2012, p. 5), metade do distrito é ocupado por loteamentos irregulares e favelas, o que se traduz numa integração conflituosa com o restante da cidade. A apropriação do espaço – de topografia acidentada, irrigada por córregos e ria- chos (situação aqui adversa num contexto de densidade crescente e pouco investimento público) e distante 3  da cidade central – somente é possível por táticas criativas como formas de resistência. A adaptação de conhecimentos pretéritos e inovações, manejadas por indivíduos oriundos de grupos sociais portadores de técnicas socioculturais diver-sas e diferentes níveis de acesso à informação e poder de intervenção, produz outra(s) cultura(s) urbanas, outras formas de olhar – que Serpa (2007) denomina de culturas subdominantes, variações mais ou menos diferenciadas da cultura hegemônica que se impõem, com a combinação sempre diferenciada de uma cultura cada vez mais totalizante. São as resistências opacas de que fala Milton Santos (SANTOS, 1985).Esse processo de transformação – reaprendizado das relações profundas entre o homem e seu meio, conforme conceito de Milton Santos apresentado por Queiroga (2012) – pode se dar de forma inconsciente ou consciente – o que Burke (2010) chama, respectivamente, de hibridização e tradução. De uma forma ou de outra, tal processo é transformado em herança para as novas gerações, orientando formas de compreensão do mundo a partir da relação dialética entre os sentidos e as formas espaciais, cons-truídos pela deposição de camadas simbólicas sobre o espaço de vida, num processo cumulativo de ações cotidianas. É esse processo cumulativo que permite a inteligibilidade do espaço de vida, que  Assunto (2011) denominou de “temporalidade”: a inserção do momento (temporanei-dades) vivido num tempo mais amplo, simultaneamente passado, presente e futuro. Sem esse processo, a cidade se torna espaço descarnado, sem enraizamento, com a perda da subjetividade e a criação dos espaços impessoais que caracterizam a “in-sensata megalópole industrial”, com impactos negativos nas crises ecológica, social e de política da civilização. A permanência da ocupação consolida as estruturas a partir de suas característi-cas srcinais; a morfologia urbana do distrito é definida pela topografia. Os bairros delimitam-se com as linhas naturais de cumes e talvegues. As principais vias de estru-turação estão em fundos de vale, como a avenida Deputado Cantídio Sampaio. O desenho do sistema viário ora acompanha a sinuosidade das curvas de níveis, ora as desafia em ladeiras e curvas tecnicamente questionáveis. Uma ocupação orgânica que, ao mesmo tempo em que permite uma riqueza de perspectivas sempre decantada, produz espaços não inseridos na lógica de funciona- mento dos sistemas urbanos, por ser conformada sem orientação técnica, perpetuando a exclusão. Um exemplo é o sistema de transporte público, cuja adaptação às vias 3 Importante entender que a condição de periferia não se estabelece em distâncias geométricas, mas pelo diferencial de oportunidades e serviços urbanos ao alcance das populações. Ver Queiroga (2012, p. 244).
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