Dreams and visions in Saxo Grammaticus / Sonhos e visões em Saxo Grammaticus (sécs. XII-XIII)

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  1   Sonhos e visões em Saxo Grammaticus (sécs. XII-XIII)   André Szczawlinska Muceniecks (FFLCH - USP) Iniciemos nossa discussão com um pouco de mito: “ O Segundo filho de Ódhinn é Baldr, e dele tudo de bom é dito. Ele é o melhor, e todos louvam-no. Ele é tão belo em aparência, e tão brilhante, que luz emana dele . (...) Ele é o mais sábio dos Æsir, mais eloquente e mais gracioso .”   “[Gylfaginning: XXVIII]. "Um dos Æsir é chamado Hödr: ele é cego; é muito forte, mas os deuses desejariam que em nenhuma ocasião tivesse sido nomeado, pois o trabalho de suas mãos irá por muito tempo ser lembrado entre os deuses e os homens. ”  [Gylfaginning: XLIX .]“ O início da história é este, que Baldr, o bom, sonhou grande e periculoso sonho ameaçando sua vida. Quando ele contou estes sonhos aos Æsir, então eles juntos tomaram conselho, e foi esta sua decisão: pedir pela segurança de Baldr da parte de todos os perigos. E Frigg tomou juramentos para este propósito, que poupariam Baldr fogo e água, aço e metal de todos os tipos, pedras, terra, árvores, doenças, bestas, pássaros, veneno, serpentes. E quando isto foi cumprido e feito conhecido, foi uma diversão de Baldr e dos Æsir, que ele deveria ficar de pé no Thingr, e todos os outros deveriam atirar alguma coisa nele, alguns golpeá-lo com machado, alguns bater nele com pedras. Mas o que quer que fosse feito não feria-o de forma alguma, e aquilo parecia a todos uma coisa muito honrosa. ” (Traduções do antigo nórdico nossas)    Já o final da narração é bem conhecido: o visco, erva muito pequena e jovem, não prestara o juramento. Loki, divindade hábil com artimanhas, pega um ramo de visco e guia a mão do deus cego (e arqueiro) Hödr, que mata a Baldr. Dentre outras consequências, das quais as mais imediatas são a perseguição e captura de Loki, há implicações até mesmo no próprio Ragnarök, srcem do Götterdämmerung  de Richard Wagner. Ao leitor pode parecer uma incongruência o início de estudo sobre a Gesta Danorum apresentando o mito de Baldr como contado na Edda em Prosa, de Snorri Sturlusson. Passemos, portanto, à observar a história deste mesmo personagem –  contado, desta feita, por Saxo Grammaticus: Em Saxo 1 , temos Baldr (“Balderus”) e Hödr (“H ø therus”), em meio a personagens mais acessórios a esta narrativa, dentre os 1  3.3.6 e 3.3.7. Empregaremos tal forma de referência daqui em diante ao citar trechos da Gesta Danorum. A citação significa livro, capítulo e parágrafo, e é empregada na edição de Horn e Olrik.  Ricardo da Costa (org.). Os Sonhos na História  Ricardo da Costa (org.). Os Sonhos na História   2   quais o próprio Ódh inn (“Othinus”) e Nanna 2 . Ódhinn é o maior dos deuses, pai de Baldr em ambas as narrativas. Nanna é uma humana amada por Høtherus e Balderus em Saxo, sendo por eles disputada, e tendo casado-se com Høtherus ao final, enquanto que na Edda de Snorri é uma deusa, esposa de Baldr. As similaridades nas duas linhas não vão muito além. Em Saxo, Balderus é um personagem desagradável, o claro vilão da história, dotado de poderes especiais devido à sua descendência de Othinus. Pode ser morto apenas através de circunstâncias muito especiais, que envolvem armas mágicas.  Já Høtherus é o herói, nítido e inconteste. Sua vitória sobre Balderus é aguardada ansiosamente pelo leitor, que o acompanha em meio a derrotas, forças desfavoráveis e divinas, e duras provas a serem transpostas. Dentre estas se encontra um amálgama curioso entre o nórdico e o clássico, quando Høtherus tem de enganar e capturar um sátiro na Lapônia a fim de adquirir as armas que podem ferir Balderus. Høtherus exemplifica também algumas virtudes que Saxo apresenta no livro, em particular a Prudentia 3 . É apresentado como um campeão, não apenas no físico e nos esportes, mas nas artes musicais e na mente: Høtherus é descrito por Saxo 2  Empregaremos sempre as formas latinizadas usadas pelo próprio Saxo, a despeito da estranheza que apresentem em relação a alguns nomes escandinavos populares como, por exemplo, “Björn”, que Saxo latiniza para Biorno ou Biornus. 3  MUCENIECKS, A.S. Virtude e Conselho na Pena de Saxo Grammaticus (XII-XIII) . Curitiba: Universidade Federal do Paraná, 2008. P.81. como extremamente dotado na harpa, alaúde, saltério, lira e rabeca. Podia tocar em diversos modos, através dos quais despertava as emoções que desejasse em seus ouvintes. Segundo Saxo, Høtherus ultrapassava aos demais nos “benefícios da alma” (“ animi beneficiis transscendebat” ). Dumézil apresenta a ideia de que os atributos de Baldr  ∕Balderus  e Hödr  ∕ H øtherus são invertidos na narrativa de Saxo, e ecos da sapiência, sabedoria e agradabilidade de Baldr  ∕Balderus  encontram-se nas descrições de virtudes de Hödr∕  Høtherus 4 . Suas análises míticas de material escandinavo são criticadas agudamente por alguns autores 5 , particularmente devido à tendências fenomenológicas, mas precisamos reconhecer que, de fato, conquanto as diferenças narrativas sejam fortes, as similaridades contextuais, caracterizações de personagens (no caso, invertidas) e recursos de cenário são fortes. A situação é tornada mais complexa ao se comparar fontes de menor extensão do século XIII dinamarquês, como a Chronicon Lethrense  e os  Annales Lundenses . Pouco anteriores à Gesta Danorum , apresentam construção similar, também evemerizada, da personagem de Balderus, o que levanta a possibilidade da existência de uma tradição intelectual danesa diversa da islandesa, e não meramente um capricho literário 4  DUMÉZIL, Georges. Do mito ao Romance:  A Saga de Hadingus. São Paulo: Martins Fontes, 1992. pp.204-215. 5  BOULHOSA, Patrícia Pires.  A *mitologia escandinava de Georges Dumézil:  uma reflexão sobre método e improbabilidade. Brathair 6(2), 2006:3-31.  Ricardo da Costa (org.). Os Sonhos na História  Ricardo da Costa (org.). Os Sonhos na História   3   “deturpador” de supostos srcinais da parte de Saxo Grammaticus. São de nosso interesse particular alguns destes detalhes contextuais que diferenciam ambas as tradições. A saber, o papel dos sonhos. A função e caráter dos personagens é modificada, e a ambientação sofre alterações. O que perdura em ambas narrativas é a morte de Baldr∕Balderus por Hödr∕  Høtherus, Nanna enquanto objeto amoroso, a paternidade de Odhinn, e a presença dos sonhos premonitórios. O sonho de Balderus, em Saxo, anuncia sua morte. É um anúncio um tanto quanto desnecessário, pois o texto evidencia que ele já estava bastante ferido em batalha, o exército inimigo rejubilando-se com tal circunstância. Quando sonha, entretanto, quem lhe aparece é “Proserpina”, dizendo-lhe que ele logo estaria em seus braços. Mais uma mistura do clássico ao escandinavo, e mais uma referência do sonho em uma circunstância de morte. Não como um aviso que lhe permita evitá-la; antes, uma confirmação de que ela ocorrerá, uma confirmação de inexorabilidade. Outras perturbações do sono são apresentadas: Høtherus e outros dos combatentes não conseguem dormir no tempo da batalha. Tradição ou tradições? Uma ideia comum em discussões e estudos escandinavos é, ao menos no que toca a mitologia, o costume de denegrir Saxo Grammaticus diante de fontes islandesas –  principalmente as supostamente escritas ou compiladas por Snorri Sturlusson. No caso do sonho de Baldr  ∕Balderus, a narrativa islandesa, de Snorri Sturlusson, é a preferida e apresentada nos manuais de mitologia escandinava, escolhida pelos autores de HQs e apreciada pelos leitores em geral, acadêmicos ou não. Desta forma, tem-se um maniqueísmo bem ao gosto dos partidários das querelas “cristão X pagão”. Snorri Sturlusson, aristocrata islandês do século XIII, apesar de escrever (em vernáculo) numa Islândia já cristianizada, é louvado como o preservador do conhecimento ancestral escandinavo, ameaçado pela Cristianização. Enquanto isso, Saxo, clérigo danês, também do século XIII, escrevendo em latim, é o porta-voz dos novos tempos, da Cristianização institucional e da adaptação (e “ deturpação ” ) da tradição escandinava. A despeito de escrever uma obra extensa de dezesseis livros, dos quais os nove primeiros contém elaboração de material mítico, Saxo é considerado com mais estima por eslavistas interessados em suas descrições das cruzadas danesas contra os eslavos ocidentais, nos livros finais, do que pelos próprios germanistas. Certamente não compartilhamos desta (falta de) visão, mas não há espaço aqui para tal discussão. O que é necessário, entretanto, é salientar um aspecto relevante da mesma: há uma  tradição narrativa escandinava monolítica? E, indo mais além em nossa discussão acerca de sonhos e visões, há uma  tradição narrativa de sonhos escandinava?  Ricardo da Costa (org.). Os Sonhos na História  Ricardo da Costa (org.). Os Sonhos na História   4   Se comparamos apenas duas fontes diversas entre si, de contextos diferentes –  e sim, a despeito das frequentes pasteurizações de medievalistas generalistas, Islândia e Dinamarca do século XIII consistem em contextos diferentes entre si, ainda que similares quando contrapostos a um Ocidente Medieval –  e, ainda por cima, escritas por autores identificados, a primeira atribuição imediata da diferença que é feita o é no que toca à autoria 6 . Citamos já a ocorrência de narrativas similares a Saxo Grammaticus na Chronicon Lethrense  e nos  Annales Lundenses . A discussão da interdependência e da relação de tais fontes entre si também foge do nosso escopo, mas é suficiente para o momento a constatação de que Saxo Grammaticus não é exclusivamente um indivíduo dotado de caprichos e habilidades literárias. Saxo, antes de tudo, é uma voz. Uma voz que fala a partir de um corpo definido, escandinavo por srcem, razoavelmente cristianizado e ocidentalizado, com construções específicas mentais e estruturais danesas do século XIII. Especificidades deste contexto são compartilhadas em menor ou maior grau por Saxo e outros autores de seu tempo. 6  Não estamos alheios às discussões envolvendo autoria no Medievo. Entretanto, a existência de um autor exclusivo identificado ou mais de um autor, no caso discutido, não afeta a essência do argumento –  de fato, reforça-o, à medida em que se coaduna harmonicamente com a ideia de mais de uma tradição narrativa escandinava partilhada de forma mais coletiva. Desta forma, se Saxo empregou a Chronicon Lethrense  como uma de suas fontes primárias, ou se tanto ele como o(s) autor(es) dela empregaram mesmas fontes, ou, ainda, se empregaram fontes diversas mas efetuaram construções semelhantes –  em qualquer um dos casos, temos vozes diversas, “individuais”, falando de um mesmo contexto, de uma mesma tradição a ser formada. Esta tradição compartilha alguns pressupostos ancestrais, a língua materna, conceitos e mentalidades específicas de um contexto escandinavo mais amplo, mas, simultaneamente, diverge –  e muito –  do contexto específico islandês. Na Islândia do século XIII teremos um ou mais centros aonde o saber e as tradições são ensinados, e dos quais Snorri Sturlusson beberá. O próprio Snorri não se limitará a estes centros de erudição e acumulará conhecimento em outras regiões da Escandinávia –  da mesma forma que Saxo afirma ter bebido com muito interesse de fontes da Islândia. Entretanto, certos pressupostos de contexto mais específico –  em particular temáticas muito ligadas às querelas e feudos pessoais, à descentralização política, ao isolamento geográfico e uma abordagem diversa das modificações religiosas –  serão comuns às obras atribuídas a Snorri Sturlusson e outras fontes islandesas, em particular sagas de formas diversas. O contexto danês é particularmente diverso. A transição entre os séculos XII e XIII na Dinamarca é governada pela mais forte  Ricardo da Costa (org.). Os Sonhos na História  Ricardo da Costa (org.). Os Sonhos na História   5   dinastia danesa, a dinastia dos Waldemares e, simultaneamente, pelo período de maior força do arcebispado. A Dinamarca expande e consolida sua hegemonia no Báltico do século XIII, e este contexto possui implicações consideráveis na escrita da Gesta Danorum, incluindo na projeção retroativa do contexto de domínio do Báltico nos tempos míticos daneses. Não se sabe com certeza se o título “Gesta Danorum” foi da autoria do próprio Saxo Grammaticus. Dois dos maiores eruditos na questão, tradutores de partes distintas da Gesta Danorum, apresentam as conclusões opostas. Para Eric Christiansen (assim como parcela considerável dos acadêmicos), o nome Gesta Danorum não é da autoria de Saxo Grammaticus, tratando-se de atribuição dos posteriores 7 . Christiansen emprega o título “ Danorum Regum heroumque Historie ” em sua tradução dos livros X a XVI da Gesta 8 , seguindo o título da primeira edição de Saxo conhecida, publicada por Pedersen em 1514. Já Karsten Friis-Jensen 9  defenderá o nome como srcinal, argumentando pela sua 7  ELLIS-DAVIDSON, Hilda. Commentary.  In: SAXO GRAMMATICUS, The History of the Danes.  Tradução: FISCHER, Peter. II Vols. Woodbridge, Suffolk: Boydell & Brewer, 2006. P. 03. 8  CHRISTIANSEN, E. Saxo Grammaticus:  Danorum regum heroumque historia. Books X-XVI. III vs., Oxford, 1980-1981. 9  Tradutor e editor da Gesta Danorum para o dinamarquês, juntamente com Zeeberg. FRIIS-JENSEN, K. & ZEEBERG, P. (ed. trad.). Saxo Grammaticus. Gesta Danorum . Danmarkshistorien, II Vs. Copenhagen, 2005. ocorrência no século XIV, na Vetus Chronicon Sialandie 10  e pela similaridade de nome com outra história de mesmo estilo: a Gesta Normannorum  de Dudo de S. Quentin, e afirmando que “ Danorum Regum heroumque Historie ” se trataria de latim tipicamente humanista. Nomes à parte, tão discussão não consiste em erudição vazia. É importante frisarmos que a Gesta Danorum (ou a Danorum Regum heroumque Historie) não se enquadra na definição de gênero das “Canções de Gesta” , como o título pode sugerir. Antes, é uma forma de história “nacional” em latim, com abundante uso da Interpretatio Romana , que traça uma continuidade entre o passado que chamamos “mítico”, “pré - histórico”,  até os tempos mais próximos de seu autor. São obras similares a ela a Gesta Normannorum  de Dudo de S. Quentin e a Historia regum Britanniae  de Geoffrey of Monmouth. A importância deste destaque consiste no papel que os sonhos tiveram na formação das Canções de Gesta e romances corteses. O Roman de la Rose  é apresentado por seu autor como relato de um sonho, e provê influência decisiva na forma literária em questão 11 . As circunstâncias da Gesta Danorum são bastante diversas, e o leitor não deve aproximar-se de Saxo com modelos corteses em mente; de fato, Saxo possui ataques e ironias 10  GERTZ, Martin Clarentius. Scriptores minores historiæ Danicæ medii ævi . Vol II. Copenhagen: J Jørgensen & Co, 1917-1922. P.27. 11  LeGOFF, Jacques & SCHMITT, Jean-Claude. Dicionário temático do Ocidente  Medieval . Vol.I. Bauru, SP: EDUSC,2006 [1999]. p. 524.
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