Da Deriva dos Continentes a Teoria da Tectônica de Placas: uma abordagem epistemológica da construção do conhecimento geológico, suas contribuições e importância didática

Please download to get full document.

View again

All materials on our website are shared by users. If you have any questions about copyright issues, please report us to resolve them. We are always happy to assist you.
 9
 
  Da Deriva dos Continentes a Teoria da Tectônica de Placas: uma abordagem epistemológica da construção do conhecimento geológico, suas contribuições e importância didática
Share
Transcript
    Geo.br 1 (2003) 1-23 J. J. Celino, E. C. de Lucena Marques, O. R. Leite ISSN1519-5708 http//:www.degeo.ufop.br/geobr   1 Da Deriva dos Continentes a Teoria da Tectônica de Placas: uma abordagem epistemológica da construção do conhecimento geológico, suas contribuições e importância didática. Joil José Celino 1 , Edna Cristina de Lucena Marques 1 , Osmário Rezende Leite 1   1 Universidade Federal da Bahia Instituto de Geociências - DGGA Rua Barão de Geremoabo, s/no., SALA 308-C, Ondina Salvador - BAHIA - BRASIL CEP 40170-290 RESUMO A compreensão da evolução do conhecimento científico em Geociências pode ser enquadrada na epistemologia racionalista. Este trabalho é uma contribuição a estratégia para o trabalho didático da controvérsia entre a Deriva Continental versus a Tectônica de Placas, define as finalidades das controvérsias geológicas e incorpora os componentes da epistemologia e história da geologia no início do século vinte. Algumas implicações na relação ensino-aprendizagem das geociências são também abordadas. Palavras-chave:  Deriva continental, Tectônica de placas, Conhecimento científico, Epistemologia, História da ciência. ABSTRACT Evolution of scientific knowledge in the Geoscience can best be understood taking the rationalist epistemologies as a frame reference. We present here a contribution to the strategy for the didactic work concerning the controversy between “Continental Drift” versus “Plate Tectonics”. The theme offers the oportunity for the re-creation of so important controversy in the history of Geology in the beginning of the twenty century. Educational implications namely those concerned with in service training are stressed. Keywords:  continental drift, plate tectonics, scientific knowledge, epistemology, history of science    Geo.br 1 (2003) 1-23 J. J. Celino, E. C. de Lucena Marques, O. R. Leite ISSN1519-5708 http//:www.degeo.ufop.br/geobr   2 INTRODUÇÃO A Teoria da Tectônica de Placas, desenvolvida nos anos 60, sustenta que as maiores feições da superfície da Terra são criadas pôr movimentos horizontais da litosfera. Tal teoria se destaca pela sua simplicidade, elegância e habilidade para explicar uma enorme gama de observações, sendo rapidamente aceita (SENGÖR, 1990). Em 1971, um autor de um livro de Geologia Introdutória afirmava:  Durante a ultima década, houve uma revolução nas Ciências da Terra, que resultou na aceitação de que os continentes  se movimentam sobre a superfície da Terra e que o assoalho oceânico se "espalha",  sendo continuamente criado e destruído.  Finalmente, nos últimos, dois ou três anos, culminou com o aparecimento de uma teoria  global, conhecida como "Tectônica de  Placas". O sucesso da teoria das placas tectônicas não se deu apenas porque ela explica as evidências geofísicas, mas também porque apresenta um modelo no qual dados geológicos, acumulados durante os últimos 200 anos se encaixam. Além disso conduziu as ciências da Terra até um estágio onde ela não apenas explica o que aconteceu no passado, o que está acontecendo no presente, mas também o que acontecerá no futuro.  Cerca de 40 anos antes da Tectônica de Placas, uma teoria semelhante foi rejeitada pela comunidade geológica. Em 1912, o meteorologista e geofísico alemão Alfred Wegener, propôs que os continentes eram móveis, desenvolvendo suas idéias na "Teoria da Deriva Continental". Para um geólogo moderno, o livro de Wegener, " The srcin of continents and oceans ", é um documento impressionante e presciente, contendo muitos dos pontos essenciais da Tectônica de Placas. Na Inglaterra esta teoria teve alguns adeptos, mas nos Estados Unidos ela foi inteiramente rejeitada e ridicularizada. Havendo tantas concordâncias entre as idéias de Wegener e as da Tectônica de Placas, por que a rejeição? O DESENVOLVIMENTO DO PENSAMENTO CIENTÍFICO: Objetivos Geólogos e historiadores, atribuem essa rejeição à falta de um mecanismo causal adequado na teoria de Wegener (HELLMAN, 1999). Porém, evidências históricas demonstram que a deriva continental foi rejeitada apesar da existência    Geo.br 1 (2003) 1-23 J. J. Celino, E. C. de Lucena Marques, O. R. Leite ISSN1519-5708 http//:www.degeo.ufop.br/geobr   3 de explicações plausíveis para os movimentos dos continentes, e que a tectônica de placas foi aceita sem estas explicações. O objetivo deste texto é demonstrar que a principal diferença entre a deriva continental e a tectônica de placas não está nas teorias, mas na natureza das evidências usadas para demonstrá-las. A compreensão da evolução do conhecimento científico nas Geociências  pode ser enquadrada na epistemologia racionalista (MARQUES, 1996). Desta forma, os pontos de vista de Kuhn, Popper e Lakatos podem ajudar a compreender a substituição que ocorreu na comunidade científica das perspectivas fixistas pelas mobilistas, hoje bem expressas na Teoria da Tectônica de Placas. Um outro ponto a ser debatido se refere ao enquadramento teórico para a interpretação de situações concretas relativas ao desenvolvimento do conhecimento em Geociências com implicações consideradas relevantes para o ensino. Desta maneira, a dimensão epistemológica é útil aos professores, na medida em que permite estabelecer mais facilmente a ponte para a problematização do ensino e a aprendizagem das ciências. REFERENCIAL TEÓRICO DA CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO Um conhecimento de raiz empirista  O conhecimento era passado por rupturas com o conhecimento de senso comum. Na perspectiva Empirista Baconiana: a experiência e a técnica constituem a base e o objetivo do conhecimento. Sendo assim a ciência  é conceituada como uma sucessão de observações à partir das quais se alcançam os princípios gerais através do pensamento indutivo, que conduz a conhecimentos seguros (PRAIA, 1995). Com o desenvolvimento das ciências experimentais desembocou-se no  positivismo lógico onde: a realidade surge dotada de exterioridade; o conhecimento científico é uma representação do real; existe a dualidade entre fatos e valores; existe um rechaço evidente da metafísica; e há uma preocupação real pela unificação da ciência (MARQUES,1996). Segundo SOUSA SANTOS (1989) este positivismo lógico materializa a dogmatização da ciência: um aparato  privilegiado da representação do mundo,  sem outros fundamentos das proposições básicas sobre a coincidência entre a    Geo.br 1 (2003) 1-23 J. J. Celino, E. C. de Lucena Marques, O. R. Leite ISSN1519-5708 http//:www.degeo.ufop.br/geobr   4 linguagem unívoca da ciência e a experiência e observação imediata, sem outros limites que não seja o resultado de um estudo do desenvolvimento dos instrumentos experimentais ou lógico-dedutivo . A perspectiva de natureza racionalista Uma via pós-moderna de entendimento da construção do conhecimento pretende: valorizar o referencial teórico prévio à observação; defender o pluralismo metodológico; mostrar que o avanço do conhecimento ocorre por rupturas e discontinuidades mais do que vias lineares e acumulativas; redimensionar o papel desempenhado pelas situações de erro; e destacar a importância que tem o consenso da comunidade científica para a validade do conhecimento. Os críticos ao empirismo apresentam também diferenças sensíveis quanto à evolução do conhecimento científico. Para Popper, os critérios definidores da evolução são exclusivamente internalistas (por exemplo, lógico-racionais ou empíricos),  para outros como Kuhn, são eminentemente externalistas (por exemplo, sociológicos). Finalmente, Lakatos manifesta uma  perspectiva intermediária. Sendo assim, ao longo do texto será feita uma abordagem central do pensamento de cada um deles. A TEORIA DE WEGENER Wegener apresentou sua teoria do deslocamento continental em 1912, no encontro da Sociedade Geológica de Frankfurt. Ele propôs que os continentes "derivam" lentamente sobre as bacias oceânicas, de vez em quando colidindo um com outro e mais uma vez se separando. Em 1915, Wegener apresentou estas idéias em um livro, e em 1926, teve um resumo lido nos Estados Unidos, numa conferência  patrocinada pela American Association of Petroleum Geologists (A.A.P.G.). Apesar de vários outros geólogos terem proposto a mobilidade continental (até um americano: Frank Taylor), o tratamento dado por Wegener foi o mais desenvolvido. A teoria de deslocamento de Wegener é facilmente sumariada (HELLMAN, 1999): 1) Os continentes são constituídos de material menos denso que o das bacias oceânicas. 2) O material que compõe o assoalho oceânico também existe sob os continentes,    Geo.br 1 (2003) 1-23 J. J. Celino, E. C. de Lucena Marques, O. R. Leite ISSN1519-5708 http//:www.degeo.ufop.br/geobr   5 e a diferença de densidade entre eles permite que os continentes "flutuem" em equilíbrio isostático sobre o substrato oceânico mais denso. 3) Os continentes são capazes de se deslocar sobre o substrato porque este se comporta, no tempo geológico, como um líquido altamente viscoso. 4) As maiores feições geológicas da terra (cadeias de montanhas, rifts , arcos de ilhas oceânicas) e fenômenos geológicos maiores (terremotos, vulcões) são causados pelo movimento horizontal e interação entre os continentes. Montanhas são formadas pôr compressão nos bordos de continentes em movimento. 5) Originalmente, toda a Terra era coberta  pôr uma camada fina, contínua de material continental, a qual gradualmente se quebrou em pedaços que foram se espessando por "amontoamento". Durante o Mesozóico, alguns dos maiores continentes estavam reunidos num grande supercontinente chamado  Gondwanaland  . Os dois primeiros pontos são reafirmações da Teoria da Isostasia. O terceiro ponto, o conceito de substrato móvel, era um conceito geológico já estabelecido, mas não aplicado para explicar grandes movimentos horizontais. Apenas os dois últimos pontos continham realmente algo novo, apesar de Wegener ter emprestado o termo Gondwanaland de Suess; mas enquanto Suess dizia que parte deste supercontinente já tinha "afundado", Wegener argumentava que ele ainda estava entre nós, em pedaços. À luz de como se desenvolveria o conhecimento científico, POPPER (1963) supõe que os fundamentos teóricos das Ciências da Terra estão baseados em especulações sensatas avançadas com muita criatividade e na qual o próprio conhecimento científico é sempre susceptível de refutação do que confirmação e prova. Assim como na ciência moderna, a atividade de investigação se apresenta como um processo contínuo de aproximação gradual a seus grandes objetivos, independente do que podem ou não alcançar  plenamente (LAKATOS, 1993). O ponto-chave é que está em questão  processos dinâmicos complexos e não uma simples adição de conhecimentos que supõe sua ordenação, preservação e difusão por repetição.
Related Search
Similar documents
View more
We Need Your Support
Thank you for visiting our website and your interest in our free products and services. We are nonprofit website to share and download documents. To the running of this website, we need your help to support us.

Thanks to everyone for your continued support.

No, Thanks
SAVE OUR EARTH

We need your sign to support Project to invent "SMART AND CONTROLLABLE REFLECTIVE BALLOONS" to cover the Sun and Save Our Earth.

More details...

Sign Now!

We are very appreciated for your Prompt Action!

x