Cerâmicas de paredes finas de Salacia Urbs Imperatoria - Recolhas de prospecção arqueológica.pdf

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  Atendendo à importância de Salacia já em época sidérica, os movimentos comerciais com esta cidade, situada no rio Sado, conheceram um crescimento acentuado durante a romanização. Os autores, recorrendo preferencialmente aos espólios estudados, e
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   39 RESUMO Atendendo à importância de Salacia  já em época sidérica, os movimentos comerciais com esta cidade, situada no rio Sado, conheceram um crescimento acen-tuado durante a romanização. Os autores, recorrendo preferencialmente aos espólios estudados, e publicados, de cerâmica campaniense e terra   sigillata , pretendem deste modo apresentar um estudo sobre as cerâmicas de paredes finas coevas, srcinadas em importações, quer itálicas quer ibéricas, que servirão para acentuar a importância “político-administrativa, económica, social e religiosa” desta cidade, como pode ser comprovado pela cunhagem de moeda, pelas exportações de lãs e minerais, indicadas em relatos da época, tal como por famílias que ocuparam posições de relevo durante o Império.O espólio obtido provém de prospeções efetuadas em Alcácer do Sal, em zonas circundantes ao Castelo, nomeadamente da encosta ocidental (LOCAS) e do cha-mado Depósito de Água. Palavras-chave:  Alcácer do Sal; Acrópole; Época Romana; Cerâmica de paredes finas; Comércio. Cerâmicas de paredes finas de Salacia Urbs Imperatoria Recolhas de prospeção arqueológica Eurico de Sepúlveda * Catarina Bolila ** Marisol Ferreira *** * - Associação Cultural de Cascais.** - Instituto de Arqueologia e Paleociências – Universidade Nova de Lisboa.*** - Câmara Municipal de Alcácer do Sal. ABSTRACT Te authors present a study related to thin walled pot-tery, which arrived in Salacia from the ceramic workshops located in Italy and the Roman provinces of Lusitania  and Bætica . Te importance of the city, since the Iron Age, is well confirmed by the issue of coinage (a mint), exports of fine wools and minerals. Te archaeological surveys took place in the Castle’s neighbour area, mainly in the western slope (LOCAS) and in the Water ower/Reservoir. Keywords:  Alcácer do Sal; Acropolis; Roman times; Tinned wall pot-tery; Commerce. Salacia Urbs Imperatoria  − The thin walled pottery. Archaeological field works assets INTRODUÇÃO A cidade de Alcácer do Sal, fica situada na margem direita do rio Sado aproximadamente a 50 km a sul de Setúbal. Referenciada na antiguidade por autores gre-gos e latinos, como sejam Estrabão, Plínio-o-Velho e Ptolomeu pela sua importância económica entre as  várias cidades ( opidda ) da Península Ibérica, conhece, Musa 5 | 2018 | p. 39-50  40 Fig. 1 - Localização da Salacia Urbs Impertatoria  na Península Ibérica; sector Ocidental de Alcácer do Sal; sítio arqueológico do Depósito de Água. Escavações do MAEDS (avares da Silva et al. , 1980-81). em época romana, uma grande expansão económica e comercial, durante o período que vai desde meados do séc. II a.C. até aos meados/ finais do séc. I d.C. testemu-nhada pelos espólios referentes a importações de vários tipos compensadas com exportações de lãs, (referidas por Estrabão e Plínio), do sal, de derivados de produtos piscícolas como sejam o  garum  o liquamen  e a muria , a que correspondeu uma atividade oleira intensa (Pimenta et al  ., 2015) e da exportação de minerais explorados nas minas localizadas em Santa Susana (Alcácer do Sal), de Vipasca  (Aljustrel) e da Caveira (Grândola).No que diz respeito ao conjunto que iremos apresen-tar, este é constituído por 530 fragmentos 1  de cerâmica de paredes finas, que depois de colagens deram lugar a 205 NMI, pertencentes a produções com cronolo-gias republicanas, de inícios do Império e de finais dos Flávios. Este último limite cronológico foi obtido a partir da existência de importações com srcem nas províncias hispânicas da Lusitania , da Baetica  e da arraconensis , que são bastante diminutas em rela-ção às importações provenientes da Península Itálica, encontrando-se ausentes as provenientes da Gália. Como motivo para esta ausência gaulesa, propomos, como fator principal, o abastecimento destes vasos, não terem acompanhado o da terra   sigillata  sudgálica, tor-nando-se mesmo raros em quase todos os espólios do atual território português, com exceção para um frag-mento de Conimbriga, uma taça de Beja (Mayet, 1975) e dois fragmentos de Braga (Morais, 2005).Durante a conceção deste trabalho foram consultadas  várias tipologias formais, referentes a estas cerâmicas finas, tendo sido feita ainda uma procura exaustiva de   41 paralelos em cidades romanas de importância comer-cial equivalente a Salacia   Imperatoria , como sejam, Bracara    Augusta , Conimbriga , Scallabis , Olisipo  e da ocupação romana do Castelo da Lousa. O ESTUDO DO ESPÓLIO A elaboração deste estudo reconheceu, ao longo do mesmo, grandes dificuldades pelas características dos fragmentos, de tamanho por vezes bastante diminuto, o que representou um trabalho extra de laboratório na procura de peças que poderiam pertencer a um mesmo vaso.Este espólio foi obtido em recolhas de superfície, logo, sem estratigrafia, em vários sítios da cidade como sejam: no Lado Ocidental do Castelo; nas recolhas de lim-peza do sítio arqueológico intervencionado por Carlos avares da Silva e Joaquina Soares, em 1976; na rua da orre e na necrópole de S. Francisco, o que tornou com-plicada a apresentação de cronologias assertivas, motivo por que optámos por recorrer à apresentação de dia-cronias baseadas nas tipologias usadas tradicionalmente para esta cerâmica de Marabini Moevs (1973), Mayet (1975), Ricci (1985), López Mullor (1990), Passelac (1993) e Rodríguez Martín (1996).O conjunto é principalmente resultado de um comér-cio continuado de circuitos mediterrânicos utilizados em época sidérica provenientes da Península Itálica que abasteciam a cidade de Salacia   Imperatoria  com cerâmi-cas de paredes finas, tendo estas uma srcem nas regiões produtoras da Campânia e Etrúria, sendo mais tarde substituídas pelas importações, em escala mais redu-zida (?), de vasos srcinados nas produções cerâmicas das olarias da Lusitânia (Mérida) e das da província da Bética donde provêm trinta e três fragmentos.A fim de permitir uma melhor análise do estudo que nos propusemos fazer, utilizámos como norma definidora a divisão dos fragmentos em três grupos, o dos copos 2 , o das taças e o das bases, que permitiram a obtenção dos NMI indicados, e por fim um deno-minado de “outros” constituído por fragmentos de paredes sem conexão.A partir desta divisão foi elaborado o Quadro 1 ( supra ), em que verificamos ser o grupo dos “outros” que constitui mais de metade dos fragmentos exu-mados (59.25%), logo seguidos dos copos e das bases (16.79 e 15.66, respetivamente) aparecendo, com a percentagem mais baixa, o grupo das taças (8.30%), resultado que se justifica pela própria constituição do espólio, onde o peso das importações itálicas, de épocas republicana e augustana/tiberiana, é fundamental com  vasos cuja morfologia dos bordos, de perfis côncavos e de lábios convexos, por vezes, não obstante, de forma lanceolada, caso da forma Mayet VIII, se tornavam mais resistentes à quebra, em detrimento dos bordos das taças. Para além de aceitarmos esta explicação mor-fológica, haverá uma outra possibilidade que achamos bastante plausível, a qual se baseia na decoração que apresentam estas taças, tornando-se assim “mais ape-lativas à vista” e, logo, mais facilmente “cobiçadas” pelo  visitante que sempre se “interessou” pela arqueologia de Alcácer do Sal e que “se cruzou com elas” ao longo dos tempos. ORIGEM DAS CERÂMICAS DE PAREDES FINAS Qualquer análise moderna sobre um espólio cerâ-mico exumado num sítio arqueológico com ocupação romana tem como obrigatoriedade o estudo das pastas tendo em conta os componentes que as constituem.No caso presente iremos ultrapassar esta necessidade através da morfologia das peças atendendo ao número Quadro 1 - Distribuição dos fragmentos por formas e suas percentagens.  42  vasto de pequenos fragmentos que o constituem, o que levaria a uma grande variedade de tipos de pastas, tornando-se pouco viável, pois implicaria sempre uma futura alteração no seu número, como tem acontecido em vários casos que são de conhecimento geral. Assim, recorremos à inserção dos NMI nas tipologias até ao momento utilizadas, as quais se baseiam no número de ocorrências encontradas em intervenções efetuadas em sítios arqueológicos do mundo romano privilegiando a srcem dos mesmos, quer na Península Itálica, quer nas províncias da Galia , da arraconensis , da Lusitania  e da B ætica. A PRODUÇÃO ITÁLICA Começaremos pelos centros produtores itálicos, que foram estudados por Ricci (1985) e que apresenta seis centros oleiros principais, estendendo-se desde o norte até ao sul da Península Itálica. Iremos apenas enume-rar os que estarão diretamente relacionados com as importações encontradas em Salacia   Imperatoria  e que constituem, alguns deles como iremos verificar no Quadro 2 − os centros abastecedores por excelência − para o desenvolvimento do comércio destas cerâmicas em épocas Republicana e Augusta.O primeiro centro produtor localiza-se na Etrúria, que se focalizou essencialmente na produção de vários tipos de copos (1/1; 1/7; 1/19; 1/79; 1/97; 1/122; 1/53; 1/59 e 1/12), em detrimento das taças de que apenas se conhece o tipo 2/210.Outros dois centros oleiros estão localizados na região centro-itálica, um, na região de Roma, e o outro, na área do porto de Óstia, enquanto um terceiro se situa na parte mais oriental. As suas produções são constituídas por copos das variantes 1/30 e 1/122, respetivamente.Por fim os restantes três centros oleiros encontram--se diametralmente opostos, ou seja, um, a sul na ilha da Sicília, sendo a produção das olarias de Siracusa cer-tamente focada para consumos regionais, mas também com uma forte vertente dedicada à exportação, com um repertório que apresenta um leque variado de vasos em que se sobressaem seis tipos de copos contra dois de taças. Os outros dois têm srcem no norte da Itália, na região padana, com olarias espalhadas ao longo do Pó, desde o centro-ocidental até ao Adriático, com uma atividade deveras profícua. AS PRODUÇÕES DA PENÍNSULA IBÉRICA Com o desenrolar dos tempos, o mercado de abas-tecimento de cerâmica de paredes finas na Hispania  conhece uma mudança fundamental no que diz res-peito às importações itálicas, que são paulatinamente substituídas por produções das olarias ibéricas situadas nas províncias romanas da arraconensis , da Baetica  e da Lusitania . O período cronológico em que tal acon-tece decorre entre os finais dos principados de ibério e Calígula, motivado pela “falência” do abastecimento destas cerâmicas, que desaparecem dos mercados abas-tecedores situados na Península Itálica, pela oferta de  vasos em vidro em consequência da produção destes se tornar cada vez mais barata, o que leva mesmo Estrabão a reconhecer/informar que “… a [glass] drinking cup could be bought for a copper coin” ( apud   Fleming, 1999), tendo como resultado o final que apontámos para a produção dos vasos destinados a ingerir líqui-dos em cerâmica. Um papel deveras importante é jogado pela utiliza-ção de uma técnica inovadora na produção do vidro − a da cana do sopro − que representou uma viragem para uma oferta mais variada e muito mais económica no leque dos produtos finais oferecidos nos mercados espalhados por todo o Império.No entanto, é durante o principado de Cláudio que se verifica uma resposta/aproveitamento, por parte das unidades oleiras existentes nas províncias romanas da  Hispania , que irá colmatar, com êxito, esta falta de abastecimento, inundando os mercados com cerâmicas de paredes finas com srcem nas olarias tradicionais da Bética e da Lusitânia. Este “boom” é continuado pelo principado de Nero, só terminando em finais do séc. I d.C., devido a alterações económicas de vários tipos, como sejam, por exemplo para a Catalunha com a “...crisis no sector agrario” (López Mullor, 1990) e com o   43 início do abastecimento dos mercados espalhados por todas as províncias do Império, por cerâmicas finas de mesa, e não só, oriundas das olarias do Norte de África.Passaremos seguidamente a uma pequena resenha das produções ibéricas começando pelas produções da arraconense.A localização geográfica desta província, tendo sido sempre uma das primeiras escalas do comércio marí-timo entre o Mediterrânio e a Península Ibérica, foi extremamente propícia às importações com srcem na Península Itálica de cerâmicas de paredes finas, e não só, e à exportação ibérica, testemunhadas pelos espólios obtidos em vários naufrágios, como sejam, por exemplo, os de Port-Vendres (Colls et    al  ., 1977) e de um dos vários ocorridos no cabo Culip conhecido como Culip IV (Nieto, 1986). Não será, pois, de estra-nhar que as olarias insulares situadas nas Baleares, em época republicana, tivessem sido as primeiras a copiar proficuamente os modelos itálicos, abastecendo assim os mercados hispânicos do continente.A expansão romana por toda a orla marítima e pelo interior da Citerior   proporcionou a que cidades como Ampúrias, arragona e zonas circum-vizinhas tenham desenvolvido a produção oleira tradicional privile-giando a cópia desses protótipos itálicos.Por sua vez, na Lusitânia, são várias as olarias loca-lizadas nesta província que aproveitam esta escassez nos mercados de importação de cerâmicas de pare-des finas para desenvolverem uma produção local dos  vasos  potoria , imitando, primeiro, protótipos itálicos, e criando novos modelos que conhecem grande popu-laridade por toda a província, aos quais são aplicados as mesmas técnicas de produção. Estão incluídas neste grupo as olarias de  Augusta   Emerita  que fabricaram um vasto leque de copos, taças e contentores destina-dos ao serviço de mesa, embora caracterizadas por um aumento da espessura das paredes.Para além deste centro oleiro há que referenciar os de Braga, Elvas (Martín Hernández & Rodríguez Martín, 2008) e os de imitação, por vezes de boa execução, da olaria do Morraçal da Ajuda – Peniche (Sepúlveda et    al  ., 2017).Já a produção da Bética conhece dificuldades no encontrar testemunhos arqueológicos da produção des-tas cerâmicas, o que vai implicar, de um modo geral, que se considere ser a zona do baixo e médio Guadalquivir a região privilegiada para a sua produção, como sejam o caso de Córdova (?), Rio into, Cádis e também o das olarias de produção de terra sigillata  de Andújar (Jaén).Cópias de vasos de cronologias augustanas constam, também, da panóplia constituída por uma variedade de outras formas, dentro dos padrões clássicos, distin-guindo-se pela sua técnica de fabrico as taças de forma carenada apelidadas por Mayet de “coquille d’oeuf”, forma XXXIV, possivelmente de uma olaria situada na área de Cádis, com diacronias dos finais de ibério a Nero (López Mullor, 1990). O CONSUMO DE CERÂMICAS DE PAREDES FINAS EM SALACIA O próximo quadro analisa a panóplia de formas e o número total apurado para cada uma delas assim como as diacronias e locais de produção tendo como base preferencial a tipologia de Mayet (1975) e, quando não aplicável, as de Marabini Moevs (1973) e Ricci (1985).Como nota prévia queremos alertar que a criação deste quadro em que se analisaram duas formas distin-tas, os copos e as taças, se tentou resolver problemas de terminologia, que tínhamos já verificado aquando da elaboração do Quadro 1, agora de forma mais complexa na medida em que recorremos a tipologias de autores escritas em espanhol, francês e italiano, cuja tradução para o português se torna deveras complicada, esco-lhendo assim como base o trabalho de A. Ricci (1985).A primeira conclusão a realçar é a aparente igualdade numérica entre formas “definidas” e indeterminadas. Esta está baseada na contabilização dos fundos, aos quais de forma consciente não quisemos, salvo várias exceções, atribuir uma das formas, atendendo que os tamanhos medidos, quer em altura, quer em diâmetros, nos levariam a erros maiores.
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