A Igreja de Santo António do Estoril - estudo para uma publicação

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  O destino trágico que marcou a igreja de Santo António em 1755 com o terramoto, veio novamente a tocar-lhe no dia 22 de Julho de 1927, quando um violento incêndio a destruiu, quase por completo. No campo da História de Arte destaca-se em várias
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  A Igreja de Santo António do Estoril – estudo para uma publicação A Igreja Ao entrarmos na Igreja de Santo António do Estoril é impossível ficar indiferente à beleza e harmonia do seu interior; desde logo parece tratar-se de um belo exemplar da arquitectura do século XVIII com os altares em rica talha barroca, as paredes revestidas de painéis de azulejos que retratam quadros alegóricos do Santo e o tecto em abóbada que logo nos capta o olhar, pintado num rasgo de genialidade, de perfeição no traço, representando cenas da vida de Santo António. Aliada a esta riqueza no interior, a fachada harmoniosamente concebida numa linguagem e gosto muito português designado por arquitectura chã   1 da qual constitui, aliás, um dos exemplos a destacar nesta zona. Poucas pessoas terão no entanto a  percepção de que, o seu interior é resultado de um intervenção do segundo quartel do século XX… A igreja de Santo António do Estoril, tal como hoje a conhecemos, exceptuando o adro e a fachada, é uma obra de reconstrução fruto do extraordinário espírito empreendedor de um grupo de pessoas que, chocadas com o incêndio que a destruiu quase por completo no dia 22 de Julho de 1927, imediatamente se reuniram criando a Grande Comissão de  Reconstrução da Igreja  e com grande esforço e notável capacidade de organização, levaram a cabo a sua reedificação. A igreja tem, é claro, uma srcem mais remota e, embora seja escassa a informação, sabe-se que começou por ser uma capela composta por uma única nave, associada a um convento franciscano de devoção a Santo António que data do primeiro quartel do século XVI. O conjunto subsistiu e foram-se fazendo algumas alterações à sua estrutura, nomeadamente na segunda metade do século XVII, tal como o refere a Chronica Seráfica da Santa Província dos  Algarves 2 o documento de 1758 que descreve a história do convento e da  igreja até essa data, quando estava já reconstruída após a catástrofe de 1755. Com efeito o terrível terramoto que ocorreu em Lisboa nesse ano, foi igualmente fatídico na zona de Cascais; a igreja ficou destruída mas o  processo de reconstrução começou, quase de imediato, dinamizado pelo guardião franciscano frei Basílio de S. Boaventura, tendo a obra sido concluída em 1758. Surgiu então uma nova igreja agora de maiores dimensões, com a fachada que actualmente se conhece, numa composição de grande equilíbrio de três arcos em cantaria que dão acesso ao adro, o central de maior dimensão, encimados por três janelas grandes que deixam entrar a luz pelo coro; na parte superior surge rematada por uma moldura, também em cantaria, que acolhe o nicho com a imagem em pedra de Santo António com o menino Jesus. A composição da fachada resulta na harmonia entre a alvenaria de pedra rebocada e pintada, as molduras das  janelas e dos arcos em cantaria, e o remate superior com os fogaréus (símbolo devocional) e a cruz no ponto central mais alto, que lhe conferem grande beleza. O século XIX veio dar outro destino a este convento uma vez que, com a instauração do liberalismo após a guerra civil, em 1834, se decretou a extinção das ordens religiosas masculinas; assim, em 1835 acabou por ser vendido em hasta pública a Manuel Joaquim Jorge sem que, no entanto, fosse incluída a igreja na arrematação, apenas o encargo de a manter fechada e minimamente preservada; de facto, só no início do século XX a igreja voltou a conhecer uma nova dinâmica com a criação da  Irmandade de Santo António , dirigida por Monsenhor António José Moita que assumiu a sua responsabilidade em 1914 e a reabre novamente ao culto. No ano seguinte, a  Irmandade tomou oficialmente posse da igreja, e com grande determinação Monsenhor Moita revitalizou a vida deste templo, numa época de grande hostilidade ao catolicismo, em pleno arranque da 1ª República; entretanto, depois do incêndio de 1927 e finalizada a  reconstrução da igreja, a 13 de Junho de 1929, tornou-se no primeiro  pároco da recém criada paróquia de Santo António do Estoril; a sua  presença e personalidade vincada, ao longo de dezenas de anos, até à sua morte em 1956 foi de extrema importância para a paróquia. O Estoril, entretanto, estava a tornar-se numa estância termal com alguma procura, o embrião daquilo que viria a ser o projecto turístico da Costa do Sol, impulsionado por Fausto Figueiredo. 3 O incêndio de 1927 e a reconstrução da Igreja: a pintura do tecto por Carlos Bonvalot O destino trágico que marcou a igreja de Santo António em 1755 com o terramoto, veio novamente a tocar-lhe no dia 22 de Julho de 1927, quando um violento incêndio a destruiu, quase por completo. Monsenhor António José Moita, homem de grande carisma, reuniu à sua volta pessoas de grande influência política e social, designadamente o Conselheiro Ernesto Driesel Schroeter, capazes de dinamizar a angariação de fundos e organizar a tão desejada e rápida reconstrução do templo. Formada a Grande Comissão de Reconstrução da Igreja imediatamente se impulsionou toda a organização, felizmente registada em actas repletas de preciosas informações que hoje se encontram no arquivo da igreja; para elaborar o  projecto de reconstrução foi nomeado o arquitecto Tertuliano Marques e, ao longo de dois anos, o tempo que duraram as obras até ser de novo inaugurada no dia de Santo António, a 13 de Junho de 1929, a todas as  pessoas envolvidas e a todas as intervenções foi exigido o maior rigor. A pintura do tecto da igreja da autoria do pintor Carlos Bonvalot foi, pode dizer-se, uma das felizes intervenções na reconstrução deste templo; o nome do pintor foi proposto pelo arquitecto à Comissão  ao que todos  concordaram e, com efeito, a acta de 21 de Novembro de 1927 refere já a apresentação de uma primeira proposta em esboço para apreciação. Até se decidir e definir, entre a Comissão  e o pintor, o trabalho a realizar, a assinatura de um contracto e o início da realização do trabalho, levou alguns meses, pois tudo se fez com todo o detalhe; o contracto ficou finalmente acordado em Abril de 1928: «Entre a Comissão Promotora da Reconstrução da Igreja de Santo António do Estoril e Carlos Bonvalot, pintor d’Arte (…) pela quantia de sessenta mil escudos, a decoração do tecto do corpo da igreja (…) em pintura a tempera, no estilo século XVII» 4 Todas as clausulas ficaram cuidadosamente definidas mas as indicações  precisas dos temas retractados nos painéis foram sendo dadas por Monsenhor Moita, à medida que o pintor foi realizando, um por um, os esboços dos quadros a executar, até finalmente dar inicio ao trabalho em Setembro desse ano. A proposta ao pintor e a decisão de se encarregar igualmente da pintura do tecto da Capela-Mor, acabou por surgir  posteriormente, à margem do previsto, apenas porque resultou da disponibilidade financeira da Comissão , que desde o princípio se caracterizou pelo grande rigor na gestão dos seus recursos; ficou assim acordado com o pintor a realização da pintura do tecto da Capela-Mor, com a temática sugerida por Monsenhor Moita, pelo preço de 12.000$. Toda a obra executada por Carlos Bonvalot merece o devido destaque, pela sua srcinalidade e qualidade e pode considerar-se inédita na época; a qualidade e perfeição no traço são uma nota dominante, não só pelo  pormenor dos quadros em si, mas a forma como envolve as personagens que retracta, o cuidado no detalhe quer nas feições quer no traje, quer no espaço que recria e por todo o ambiente místico que reflecte; da mesma forma se deve realçar o uso da cor em tonalidades suaves, o movimento das volutas que envolve o medalhão central, ao qual o pintor deu um destaque  especial, recriando o milagre certamente mais conhecido da vida de Santo António: das mãos de Nossa Senhora recebe no seu colo, o Menino Jesus. Aqui transmite toda a força que o momento tem, toda a simbologia que representa, toda a suavidade e ternura no gesto, retratando Nossa Senhora envolta numa nuvem suspensa por anjinhos, entregando o seu filho ao Santo que, estando de joelhos a rezar, o recebe de braços abertos. A beleza e o pormenor no tratamento bem como a firmeza e perfeição no traço, usando o colorido em tons suaves jogando com a luz, recria uma  pintura que já se praticara no século XVII, tal como fora pedido ao pintor e estipulado no contracto; trata-se duma pintura decorativa de carácter narrativo com toda a força mística da temática religiosa, utilizando outros elementos que compõem o conjunto e lhe dão alguma dinâmica, como as volutas e os florões. Os quatro quadros que de cada lado do tecto do corpo central da igreja representam cenas da vida do Padroeiro, duas das quais se passaram em Portugal, dando assim algum ênfase aos momentos que o relacionam com a sua terra de srcem, aliás ao que se apurou, por sugestão feita ao pintor por Monsenhor Moita. Foram feitos esboços para apresentar à Comissão  como vem referido nas actas, mas para alem disso, Carlos Bonvalot pintou óleos sobre tela de todos os quadros que retratou no tecto da igreja, fonte fundamental de suporte ao estudo da obra do pintor. A pintura foi executada utilizando a técnica em têmpera, tal como estava acordado no contracto, uma técnica que usa pigmentos secos temperados  ou seja dissolvidos em matéria (goma por exemplo) que os torna aderentes e que os fixa e estabiliza no suporte a que estão destinados. Ao primeiro olhar  poderia pensar-se que se trata de um  fresco , como aliás apareceu referido em algumas publicações 5 contudo, além de ser claramente mencionado no contracto a utilização da tempera, o uso desta técnica foi identificado e novamente usado, quando em 2001 se fez a intervenção de restauro.
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