A Antropologia Brasileira: breves indagações sobre a história de um campo em expansão

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  Este texto presenta algunas reflexiones sobre la formación de la antropología en Brasil y de la panorámica actual de la disciplina en el país. También analiza la relación de la antropología brasileña con las demás antropologías periféricas,
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  A Antropologia Brasileira: breves indagações sobre a história de um campo em expansão   Waleska de Araujo Aureliano Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil Dirección electrónica: waureliano26@yahoo.com.br   Araujo Aureliano de, Waleska (2010). “A Antropologia Brasileira: breves indagações sobre a história de um campo em expansão”. En: Boletín de  Antropología Universidad de Antioquia, Vol. 24 N. o  41 pp. 432-452.Texto recibido: 18/04/2010; aprobación nal: 20/08/2010. Resumen. Este texto presenta algunas reexiones sobre la formación de la antropología en Brasil y de la panorámica actual de la disciplina en el país. También analiza la relación de la antropología brasileña con las demás antropologías periféricas, especialmente la latinoamericana, pues no obstante la proximidad geográca, política y lingüística, la presencia de las antropologías latinoamericanas es aún muy reducida en la formación del antropólogo brasileño. Así, este artículo hace algunos cuestionamientos sobre los motivos que llevan a ese conocimiento fragmentado y disperso de la producción antropológica en  América Latina, a pesar de nuestra proximidad geopolítica y de algunos espacios de diálogo construidos en los últimos años (como la Reunión de Antropología del Mercosur y la Asociación Latinoamericana de Antropología). Palabras clave : Latinoamérica, Brasil, antropología, antropologías periféricas. Brazilian anthropology: brief questions about the history of a eld in expansion  Abstract  :  This paper presents some thoughts about the development of anthropology in Brazil and the actual scene of this discipline in this Country. It also analyses the relationship between Brazilian anthropology and other peripheral anthropologies, more specically Latin-American ones. Despite our geographical, political, and linguistic proximity, the inuence of Latin-American anthropologies is still reduced in the formation of Brazilian anthropologists. Thus, this article asks some questions concerning the motivations bringing us to such fragmented and diffuse knowledge of the anthropological production   A Antropologia Brasileira: breves indagações sobre a história de um campo em expansão   / 433 in Latin America, despite our geopolitical proximity and some dialogical spaces constructed in the last years (like the Mercosul Anthropology Meeting and the Latin American Anthropology Association). Keywords:  Latin American, Brazil, anthropology, peripheral anthropologies. Introdução  É preciso ter em conta que qualquer discurso tem um lugar de onde parte e um sujeito que o enuncia. Se esta posicionalidade não é desconsiderada, uma antropologia assim crítica tem que se abrir para lugares de signicação não-hegemônica, desaando, inclusive, o cânone disciplinar, pois esse já carrega um mundo e seus preceitos de conhecimento (Pechincha, 2006: 68). As reexões apresentadas neste artigo foram construídas a partir de questionamentos que surgiram entre algumas alunas e alunos do programa de pós-graduação em antropologia social da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), acerca da produção do conhecimento antropológico no contexto da América Latina. 1  Percebemos que, embora nosso programa fosse muito frequentado por colegas de  países vizinhos da América do Sul e também da América Central, nosso conhecimento sobre a antropologia produzida nos países latino-americanos era muito precário, independente da nossa nacionalidade: aqueles que eram brasileiros nada sabiam sobre a antropologia feita pelos colombianos, estes por sua vez ignoravam o que se passava na antropologia guatemalteca e os argentinos, ainda que fossem os mais familiarizados pelo menos com a antropologia brasileira, pouco sabiam também sobre os colombianos, os chilenos ou os peruanos. Começamos, então, a indagar:  por que não nos lemos? Por que não sabemos sobre o que pesquisamos? Que temas  possuímos em comum? O que aproxima nossas antropologias e o que nos diferencia? Por que nossa produção acadêmica não circula entre nós com a mesma intensidade que a produção dos nossos colegas americanos e europeus? Essas inquietações nos conduziram a alguns debates entre os (poucos, é verdade) interessados e culminaram com a realização de um fórum de discussões na viii  Reunión de Antropología del Mercosur realizada em Buenos Aires em 2009, onde colegas de outros países latino-americanos puderam expor suas impressões sobre a produção e circulação da antropologia realizada na América Latina e apresentar dados dessa produção a  partir de seus países de srcem.A partir desses questionamentos tornava-se evidente o quanto a antropologia  brasileira ainda está voltada para dentro de sua própria produção e em diálogo estreito com as antropologias euroamericanas, relegando aos países vizinhos um lugar muito 1 Agradeço a colega Andrea Perez por ter me convidado a compartilhar com ela a coordenação do fórum e as colegas Nora Murillo Estrada, Jimena Massa, Carolina Portela, Nadia Heusi Silveira e Rita de Cácia Oenning da Silva pelo trabalho coletivo de discussão que inspirou este texto e  pela grande ajuda que deram para a realização do nosso fórum na viii  RAM.  434 /   Boletín de Antropología, Vol. 24 N.º 41. 2010. Universidad de Antioquia acanhado e tímido, e o inverso também é verdadeiro. Grimson e Semán (2004: 15) observam que, embora a antropologia brasileira seja considerada uma das mais avançadas da América Latina em termos institucionais e de sua relevância teórica e empírica, ela ainda é pouco lida no mundo “hispano-parlante, en el que las diversas antropologías nacionales se ignoram reciprocamente y tienden a vivir el carácter internacional de la disciplina como la siempre mimesis de algunas corrientes académicas centrales”. Parece evidente que ao longo da nossa formação estudamos as antropologias  britânica, francesa e americana e conseguimos reconhecer a partir desse estudo a intricada relação entre contextos sócio-históricos e a produção de ciência, porém não  possuímos, ao menos no Brasil, nenhuma cátedra de antropologia latino-americana. O que signica não termos esse tipo de disciplina na nossa formação até então? 2 Particularmente penso que não seria o caso de termos uma disciplina voltada  para produção do conhecimento antropológico na América Latina, mas antes fazer com que tal produção se torne parte das demais disciplinas que temos na nossa grade curricular assim como as antropologias euroamericanas e, sobretudo,  pensar criticamente o surgimento da antropologia nos países do Sul, sua produção contemporânea e o que ela signica no contexto da antropologia enquanto disciplina. 3  Quando falamos aqui em países do Sul não devemos pensar em termos geográcos (Krotz, 2006; Ribeiro e Escobar, 2008; Cardoso de Oliveira, 2000), mas antes em termos político-culturais e da visibilidade em que se encontram esses países no campo da antropologia mundial. São vários os termos que têm sido utilizados para denir a antropologia produzida fora dos países nos quais a disciplina foi fundada (a saber, Inglaterra, França e Estados Unidos) tais como antropologias periféricas (Cardoso de Oliveira, 1997; 2000), antropologias do Sul (Krotz, 2006), antropologia não-hegemônica (Ribeiro e Escobar, 2008), “nacional”, “não-ocidental”, “nativas”, “indígenas”, etc. Do mesmo modo, a antropologia realizada nos países onde a disciplina teve sua srcem é chamada de “antropologias do centro”, “hegemônica”, “norte-atlântica”. Em que pesem as ambigüidades de cada denição e seu teor aparentemente binário centrado na geograa e economia mundiais, a maioria dos autores chama a atenção para o fato de que essa divisão não reete tais diferenças, mas antes aponta para os aspectos político-culturais da construção e circulação do conhecimento produzido em antropologia por vários países em diferentes regiões. Desta forma, a antropologia canadense pode ser considerada tão periférica quanto à  japonesa, a russa ou a colombiana. Aqui usarei preferencialmente os termos denidos  por Cardoso de Oliveira, Krotz, e Ribeiro e Escobar. 2 Segundo levantamento apresentado por Debert (2004) tal disciplina não existe em nenhum programa  brasileiro de pós-graduação em antropologia, embora a presença de alunos latinoamericanos e de outras nacionalidades seja comum entre nós (cf. Fry, 2004).3 Para uma proposta de disciplina sobre antropologia latino-americana, ver a interessante bibliograa reunida por Margarita Serje (2008).   A Antropologia Brasileira: breves indagações sobre a história de um campo em expansão   / 435 Como parte dessa antropologia periférica, a antropologia brasileira vem fomentando questionamentos a cerca da sua prática ao longo dos anos. Temos uma  produção regular e consistente sobre o desenvolvimento da antropologia no país, relacionada a uma série de discussões que se iniciaram já nas primeiras reuniões da Associação Brasileira de Antropologia nos anos 1950 e que tratavam do ensino de antropologia e da formação do antropólogo no Brasil (ver Trajano Filho e Ribeiro, 2004; Grossi et al., 2006). Posteriormente, a partir da década de 1980, surgem outras  pesquisas sobre a história da antropologia no Brasil que resultaram em publicações. Tal produção está centrada em congressos, seminários e reuniões, sobretudo da Associação Brasileira de Antropologia (ABA) e da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS), reunidos em coletâneas, e nos trabalhos de alguns conhecidos antropólogos brasileiros, como Roberto Cardoso de Oliveira (1997; 2000) e Mariza Peirano (1991), para citar apenas dois exemplos. (ver também Corrêa, 1987; 2006; Santos et al., 2006).Do mesmo modo, a preocupação com o destino da antropologia latinoamericana mobilizou alguns autores nacionais e estimulou a realização de grupos de discussão, reuniões e seminários em torno desse tema e do que ele signica para a realidade sociopolítica da nossa disciplina e seu exercício. A criação da Associação Latino-Americana de Antropologia em 1990 e da Reunião de Antropologia do Mercosul em 1995 espelham a inquietação gerada nos antropólogos da região em reetir sobre sua prática.Observamos, então, que o debate sobre a constituição da antropologia brasileira sempre existiu, assim como toda uma discussão sobre a antropologia produzida na América Latina, seus impasses, desaos e relações com a antropologia mundial. Não caberia, portanto, no escopo deste texto realizar um resgate histórico da formação da antropologia no Brasil e nem seria essa a minha pretensão. Como já foi mencionado, há na nossa bibliograa vários trabalhos que realizaram essa missão, de maneira que eu absolutamente não me atreveria a tal exercício aqui por correr o risco de cometer omissões, falhas e repetições desnecessárias. 4  Além disso, o campo da antropologia no Brasil tornou-se tão grande que mapeá-lo de forma consistente é uma tarefa que exige uma ação conjunta que dê conta de sua polifonia.De modo que a intenção deste artigo é lançar mais uma centelha na direção desse debate que não é inédito em nossos países, mas que necessita ser sempre reavivado e posto em movimento por novos questionamentos. Assim, minha reexão segue esse arcabouço de referências históricas sobre a formação da antropologia no Brasil, conectando-se com a recente expansão da disciplina no país e, longe 4 Devo lembrar que este levantamento bibliográco não dá conta, absolutamente, da vasta produção que temos no Brasil, sobretudo se considerar as possíveis teses e dissertações dos alunos espalhados  pelos programas de pós-graduação do país que, eventualmente, podem ter paralelos com essa discussão e quem não foram objeto de investigação para produção desse artigo.  436 /   Boletín de Antropología, Vol. 24 N.º 41. 2010. Universidad de Antioquia de apresentar respostas, se preocupa mais em trazer perguntas que nos conduzam enquanto antropólogos e antropólogas a investigar constantemente a nossa prática e suas possíveis implicações sociais. Um campo em expansão: os números atuais da antropologia brasileira O campo da antropologia no Brasil teve um avanço signicativo nos últimos 10 anos. Esse crescimento se deu em meio a mudanças mais amplas no sistema de ensino superior brasileiro que expandiu o número de universidades públicas federais bem como o número de cursos e vagas nessas instituições, especialmente nos cursos de graduação. Entretanto, essa expansão tem gerado debates acalorados no meio acadêmico, pois se por um lado a proposta governamental sustenta a expansão como forma de garantir o ensino superior para mais pessoas no país, por outro o processo como um todo não estaria, segundo seus críticos (majoritariamente professores e alunos universitários e seus órgãos de representação), dotado de recursos sucientes  para tal, além do fato de privilegiar o ensino em detrimento da pesquisa fazendo da universidade pública uma produtora de mão de obra especializada para atender interesses de mercado e não mais se congurando enquanto lócus privilegiado para o desenvolvimento da pesquisa cientíca no Brasil. Tal discussão mereceria uma análise mais detalhada que está fora do escopo deste texto, mas é a partir desse cenário que trago alguns dados sobre o crescimento da formação em antropologia no país.Os números a seguir atualizam parcialmente os dados apresentados no livro O campo da Antropologia no Brasil,  lançado pela Associação Brasileira de Antropologia (ABA) em 2004. Naquela época, tínhamos 11 programas de pós-graduação em antropologia, sendo um mestrado prossionalizante na Universidade Católica de Goiás (UCG) que fechou recentemente por falta de alunos. 5  Em 2004, o mestrado da Universidade Federal do Pará (UFPA) foi incorporado à pós-graduação em ciências sociais da mesma instituição, porém sua reabertura já foi aprovada, com previsão  para seleção da primeira turma em agosto de 2010. No entanto, embora esteja aqui mencionado devido a sua relevância para formação em antropologia na região amazônica do Brasil, uma análise mais precisa deste programa ca prejudicada  pela sua atual condição de liminaridade. 6  O livro não considera a pós-graduação em 5 Em janeiro de 2010 visitei o site da UCG (www.ucg.br) para conrmar se o curso continua encerrado. Na página ainda constavam informações sobre a pós-graduação em antropologia,  porém com dados de 2008. Encaminhei mensagem ao e-mail disponibilizado no site solicitando mais informações, mas a mensagem retornou com aviso de endereço inexistente.6 As informações sobre a reabertura da pós-graduação em Antropologia na UFPA foram obtidas no site da ABA em janeiro de 2010 (www.abant.org.br). Sabemos que o programa terá quatro linhas de pesquisa: Antropologia Social, Arqueologia, Bioantropologia e Lingüística. A pós-graduação
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